ESTAMOS EM OBRAS!
AQUI É O ESPAÇO PARA A DISCUSSÃO QUE NÃO ENTRA NA ESFERA PÚBLICA,POIS NEM SEMPRE TEMOS CORAGEM DE DIZER O QUE REALMENTE PENSAMOS. DECIFRE O QUE HÁ POR TRÁS DA NEBULA!

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[Sexta-feira, Agosto 15, 2008]

NOVOS ARES

- A ESFERA SERÁ A MESMA, MAS O ENDEREÇO É NOVO:
ESFERADOSINTOCAVEIS.BLOGSPOT.COM!!!



por EU MESMO 1:10 AM
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[Quarta-feira, Julho 30, 2008]

ONDE FICA A MINHA CASA?

Quando tinha quatro anos me perdi da minha família. Nunca fui muito articulada com as palavras e preferi achar a minha casa sem a ajuda de ninguém. Trinta e nove anos depois, já tinha passado por trinta e seis lares. A cena era a mesma, apertava a campainha e perguntava se por acaso naquele lar alguém tinha perdido uma criança. Até os dez anos, fui acolhida por cinco padres, oito pastores de quinze igrejas e por três senhores de quarenta anos. Todos gostavam de me fotografar vestida de anjinha (só as asinhas), coelhinha (só as orelhinhas), cachorrinha (só o rabinho), bonequinha (só os meus cachinhos). Na quinta foto, fugia. Dos doze aos dezesseis, sempre tinha alguém que me oferecia carona e dizia que seria carinhoso. Dos dezoito aos vinte e quatro, me abriguei com senhoras gordas e cafonas. Devo ter conhecido umas cinco. Pareciam até irmãs. Tinham sempre os mesmos hábitos. Dormiam de manhã e economizavam energia elétrica à noite com lâmpadas de 15 watts. Sempre me apresentavam homens que se diziam ser meu pai, mas depois de uma hora, nunca mais que isso, mudavam de idéia e iam embora. Quando completei trinta, conhecia uma lady de cinqüenta e cinco anos que me recebeu com lágrimas nos olhos. Queria recuperar o tempo perdido e me alojou em seu quarto. Achava melhor que dormíssemos na mesma cama, pois tinha medo que sumisse. Por via das dúvidas sempre ficavam em cima de mim. Adorava me fazer cócegas em lugares que não sabia que me faziam rir. Dois anos depois me pediu que parasse de chamá-la de mãe perto das visitas. Se recusava a falar sobre o paradeiro de meu pai ou dos meus irmãos. Um dia resolvi ir atrás deles e nunca mais voltei. Depois que completei trinta e oito anos, nunca mais ninguém me abriu a porta.


por EU MESMO 3:36 AM
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[Sábado, Julho 19, 2008]

QUANDO É MEU ANIVERSÁRIO?

Meu aniversario sempre caia numa quarta-feira. Até os nove anos de idade, achava que com todas as crianças era assim. Meu avô nunca me explicava o motivo. Nunca tinha mês certo para acontecer também. Tudo dependia do humor dele. Lembro que demorei quatro anos para completar treze anos e que fiz catorze dois meses depois. Geralmente, eram festas pequenas. Além de mim, meus avós. Só a minha festa de quinze anos foi diferente: mim, meu avô, minha avó e meu filho de um aninho que tive há cinco anos, na época que ainda tinha catorze. Confesso que nunca fui boa de matemática e sempre comia o bolo todo sozinha por não saber dividir. Quando finalmente aprendi, vovô e vovó estavam mortos e meu filho preso.


por EU MESMO 9:19 PM
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[Segunda-feira, Junho 02, 2008]

BONECO DE LÁTEX

Quando a porta se abriu ainda ouvi alguns gritos dele. Descontrolado, ele estava. E você como o mesmo tom calmo de falar. Aliás, como consegue modular sua voz desse jeito? Deitado de bruços no chão num colchonete-cama estava e lá fiquei, mesmo depois de vocês entrarem pelo quarto. Imóvel. Você tentava convence-lo que não havia nada demais dentro daquele quarto. Um clima Barba Azul com Pequeno Polegar. Estranho. Ele não parecia acreditar. Calmamente você mostrava que ali dentro só guardava tralhas e coisas antigas. Mostrou a ele postais amarelados, receitas em papel almaço, alguns parafusos da sua cama desmontada, linhas de lã que sua mãe esqueceu na última visita e o meu corpo imóvel. Fiquei fingindo que dormia. Achava que assim conseguiria não participar desse momento. Fugir desse encontro. Você mexia em mim como se fosse um boneco. Puxava-me pela pele das costas e soltava. Caia e ficava na posição da queda. Você virou meus dois braços como se minhas articulações fossem obra de Gepeto. Largou-os para cima e esperou eles voltarem lentamente ao encontro do meu tronco. Ele assistia parado, calado. Sem muitas palavras saíram do quarto e trancaram a porta. Meu corpo lá dentro ficou. Estirado da mesma forma de quem despenca do terceiro andar: vivo, mas sem nenhum movimento ameaçador.


por EU MESMO 2:13 AM
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[Quinta-feira, Maio 01, 2008]

TERRAÇOS EM MAIO

Os ventos de outono chegaram. Um ano depois, continuo no topo de um prédio. Cidade da Serra. 18 horas. Movimento intenso de pessoas, carros e barulhos. No terraço desse prédio de quatro andares estamos nós dois. 360 graus de falta de privacidade e amor. Estou encostado na parede enquanto você permanece agachado. Meu moletom verde pode se rasgar contra esse reboco sem charme e sem tinta. Nem olho para sua cara, prefiro ver a paisagem daqui de cima. Urbana. Pesada. E fria. Há pessoas embaixo dos nossos pés. Algumas roupas no varal balançam com esses ventos. Tenho que dizer que não te amo e não há a menor possibilidade para que isso aconteça. Deveria te dizer isso aqui do alto, você poderia pular esses quatro andares. Melhor que seja dessa altura. Sem grandes riscos. Logo alguém vai te socorrer. Não diga que me ama. Não vou mentir um “moi aussi” – até porque você não entenderia. Você nunca entende.

O ar frio do outono já estava lá. Um ano antes, subia lentamente os últimos degraus para o décimo quarto andar. Cidade de São Paulo. 11 horas. Poucos carros, algumas pessoas e um grande silêncio. Nesse apartamento de três camas – ou seriam mais – estou sozinho. Estou inclinado na janela enquanto você permanece longe dos meus pés. Minha pele sangra depois do contato com a sua. Imagino a sua face. Tenho pouca visibilidade desse andar. Subo até o último de elevador. Daqui vejo a paisagem. Urbana. Pesada. E vazia. Sou o único que balança com a rajada de vento que entra pela varanda. Não te amo. Você nem gosta de mim. Já tinha corrido todos os riscos. Grandes e minúsculos. Não me diga nada. Você não saberia. Você nunca sabe. Vigésimos-décimonono-décimoitavo-décimosétimo-décimosexto-décimoquintoquartoterceirosegundoprimeirodécimoandar
Nonooitavosétimosextoquintoquartoterceirosegundoprimeiro-garagem... Um saco de bolas de vidro se espalha pelas calçadas da Avenida Rebouças derrubando todos que por ali passam.


por EU MESMO 5:40 PM
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[Sexta-feira, Abril 25, 2008]

POEMA FIM DE TINTA

Bato minha cabeça
três vezes
na cama – vazia
na escada – escura
no chão – frio

Fecho meus olhos
Muitas vezes
no quarto – ocupado
no Seu – ausente
no dele – presente
no nosso – lotado

Sinto minhas pernas
Abertas – no carro
cruzadas – na espera
trementes – no box

Invada o pensamento
Muitas vezes
o dele
Três vezes
o nosso

10 de abril de 2008, 04:21am


por EU MESMO 1:53 AM
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[Sexta-feira, Abril 11, 2008]

FIVE YEARS

Texto comemorativo aos cinco anos de Esfera dos Intocáveis

Volta e meia me deparo com a distância de cincos anos. Para frente ou para trás. O que muda é o marco zero. Já foram muitos e agora nada são. Hoje, no aniversário da Esfera o número cinco aparece mais uma vez. A primeira coisa que me vem a mente é “Five Years”, música da Björk. E logo, em seguida todas as coisas que aconteceram nesse último ano misturadas com tudo/todos que passaram por esse espaço.

Quantos amores, desamores, desencontros, leitores e enganos... Muitas frases que não deveriam ter sido escritas, mas sem a menor dúvida o que prevalece aqui tinha que ter sido exteriorizado. A Esfera é esse lugar de passagem, esse meio de mostrar a todos que o que estava oculto. Muitas vezes, escondido até mesmo de mim e ia se revelando a cada palavra digitada ou rabiscada no papel.

Nesses cinco anos, já virei tantas pessoas e deixei de ser outras tantas. Houve danos, mas nada foi perdido. Cada experiência boa – ou nem tanto – foram se juntando e construindo esse território aqui. nem sempre é vazio vir aqui, mas é impossível abandonar. Alias, essa idéia nunca passou pela minha cabeça. O que sempre me martela é o template – esse aqui era provisório, mas... Um dia tomarei vergonha e vou desenvolver um que me agrade de verdade.

Um dia me pediram para classificar que tipo de blog era a Esfera. Nunca tive essa preocupação. Se insistem, digo que não é um blog é um livro em aberto. O leitor vai vendo as páginas surgirem diante dos seus olhos. Se perdem na falta de linearidade e na morte abrupta de alguns personagens – incluindo o narrador. Quantas vezes morri? Muitas, e espero morrer muitas outras. Só assim, dá para trocar de pele ou seria de devir?

A Esfera é um devir. Linhas e palavras fluídas. Um fundo preto em letras brancas. Um contraste eterno. Dias incertos e nublados. Se chover é cheia, se fizer sol é seca. Quem dá os valores a essas palavras? Nunca vou saber. Faz cinco anos que busco essa resposta, ou melhor, faz cinco anos que deixei de me perguntar.


por EU MESMO 3:12 AM
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[Sexta-feira, Março 28, 2008]

A JANELA, POR FAVOR, NÃO FECHE (MACHINE GUN)

Senti o cheiro de gás e fugi. Você sempre se mostrou muito senhor da razão e todas as artimanhas que nunca falharam com os demais, com você não surtiam o menor efeito. Você é do tipo que poe inseguro, mesmo que seja a instabilidade inerente a mim. Quando te conhecer tinha certeza que seria uma pessoa para casar. Altivo e com voz firme. Sempre gostei desse tipo de desafio. Mas, você era só seu e de mais ninguém. Quer dizer, era de um ou outro. Você não era meu e mesmo que a mim restasse tentar. Primeiro, joguei aqueles papos para mostrar interesse em qualquer assunto que você pudesse dominar. Me fazia de cru para que você se interessasse em me amadurecer. Porém, você respondia a cada uma das minhas perguntas como se respondesse um protocolo desses que a gente é obrigado a preencher sorrindo. Ao perceber que nada restava de interrogação, virou as costas e nem me deu a chance de qualquer convite. Provavelmente, é do tipo que convida ou sempre está sendo convidado. Queria ter um espaço, você era completo a cada minuto.

Ficava parada àquela porta sabendo que você estava lá dentro a minha espera. Só que sabia que entrar lá poderia ser o fim. Por isso fugi, medo de que ao acender aquele interruptor viesse a obscuridade do nada. Fora de casa, poderia dar uma volta pela vizinhança e te manter a minha espera. Não podia mandar pelos ares a conquista que foi você, mesmo que não desse conta de ti.

Lembro de todas as fotografias que tirei escondido de você. Lembro dos momentos únicos que tivemos, mas que você talvez não tenha dado o valor que esperava. Sempre esperei retornos maiores que meus investimentos. Coisa de garoto mimado do interior. Jamais escondi como sou difícil, apesar de você me fazer sentir simples.

Confesso, sempre tive medo de você. E também de tudo que você pudesse me proporcionar. Irredutível e sempre com o controle, mesmo quando estava perdendo. Você não era igual a nenhum dos anteriores e por isso ficava temeroso em tomar qualquer atitude. Você poderia me fuzilar sem o menor pudor ou qualquer esboço de hesitação. Like a machine gun. Quando imagino você dentro dessa casa repleta de gás por cada centímetro quadrado, penso que essa seja meu maior prêmio.

Mesmo que nunca possa um dia te tocar, ter em mente que você ficou a minha espera de mesa posta e completamente entregue, já me basta. Sabemos que seu tivesse chegado na hora e jantando com você, minutos depois você golfaria em mim cada uma das palavras trocadas e sairia sem bater a porta. Como um joão-de-barro selaria cada fresta e me manteria eternamente aqui. Sei que me deixaria morrer sozinho e sem escolha. Pelo menos te dei a possibilidade de acionar o interruptor de detonar tudo. Se você não o fez, já não é mais problema meu. Senti o cheiro na porta e fugi, mas sem deixar de pensar que um dia voltaria. Abra as janelas, as portas, o telhado, o que puder e por onde para mim seja fácil entrar. Por favor, não acenda a luz.


por EU MESMO 3:06 AM
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[Domingo, Março 16, 2008]



O INTERRUPTOR, POR FAVOR, ACIONE

No rádio em cima da sua geladeira toca bossa nova, por mais que só se ouça a voz da Fergie. A louça toma conta de toda a pia, suja e quebrada. Já faz duas horas que deixei todas as seis bocas do fogão abertas, incluindo o forno. O cheiro de gás se espalha por todos os cômodos da casa. Começou a tocar aquela música do Vinicius que me faz lembrar de você, mas o locutor da rádio insiste em chamá-lo de 50 Cent’s. I don’t care! Nunca tinha reparado como a luz da manhã na sua cozinha é vermelha e fica oscilando. Ela deixa sua mesa azul de quatro lugares num tom lilás que jamais tinha visto nas mais completas paletas de cores. Espero que essa botija de gás esteja cheia. O seu quarto é muito grande e precisa de uma carga maior.

Não sabia que formiga atacava comidas salgadas. Uma longa fila preta percorre as panelas com macarrão com atum que eu fiz para você, vai por todo o chão de pastilhas brancas e pretas e termina na lixeira abarrotada com embalagens vazias de miojo e latas abertas de sardinha sabor molho de tomate. Se seu telefone não estivesse tão longe ia tentar concorrer a um par de ingressos nessa rádio tão boa. Mesmo que eles confundam Nara Leão com uma tal de Rihanna. Não consigo levantar dessa cadeira. Pelo menos fico sabendo de todos os eventos da cidade. Estou na dúvida se esquento esse ravióli ou se faço um prato mais elaborado. Também tenho dúvida se preparo um jantar ou um café da manhã. Nunca sei que horas você vem. Parece até que foge de mim.

O cheiro forte de gás já dificulta meu raciocínio, no escuro então. Sim, apaguei todas as luzes de dentro da casa. Se faz sol, fica claro. Se passa um carro com lanterna acessa, me animo. É uma oscilação. Minhas pupilas já se acostumaram. Meu olfato vai bem. Sinto todos os odores alheios que parecem habitar essa casa. Prometo que assim que você chegar te ajudo a limpar e o único perfume que vamos sentir será os nossos. Porém, tem confesso que isso nem incomoda tanto. Assim, como o frio e o calor que faz aqui nessa cozinha. A escuridão me incomoda muito mais. Sim, poderia levantar dessa cadeira no meio de todo esse gás e acender a luz. Você sabe o que aconteceria, não é? Então, ainda prefiro esperar você acionar o interruptor. E voilà!


por EU MESMO 11:23 PM
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[Sábado, Fevereiro 23, 2008]

TOMBADO

E de repente você é apenas um pedaço de jornal, um rápido frame na televisão ou uma foto de baixa nitidez. De repente, você deixa de ser alguém. Passa a ser lágrimas, gritos e lembranças ainda recentes, mas que aos poucos vão se apagando. Não, nem tudo ficará esquecido. Talvez, aquele momento em que você não causou nenhuma gargalhada. Ínfimo dia em meio a tantos risos e felicidades. Somos mais efêmeros do que aquilo que deixamos e é isso que conforta que fica.

O dia estava ensolarado e não era à toa. O tempo sabia que mesmo quando chovia, você faria sol.


por EU MESMO 10:01 PM
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[Terça-feira, Janeiro 15, 2008]

CONTRA O POSTE

Não suportou o tapa. Saiu pela rua sem rumo com aquela garrafa de vinho da mão. Todo mundo em casa já deveria ter se dado conta do roubo. Rasgava-se em vazio. Definitivamente não era o jeito que queria começar a noite. Talvez, seja esse o problema das surpresas desavisadas. Cansada de ficar sentada naquela calçada. Entediada com as motos engarupadas que passava a sua frente. E extremamente odiosa de si e de tudo que não tinha tido, quebrou com toda a força a garrafa de vinho contra o poste como se inaugurasse agora outra fase da sua vida. Saí o branco da cal burocrática da prefeitura e surgia o vermelho pálido da uva da qual nunca soube o nome. Até a próxima mão de tinta ou evaporação do álcool, ninguém mais por ela seria desejado ou mesmo chamado de seu.


por EU MESMO 2:52 AM
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[Segunda-feira, Dezembro 31, 2007]



TAÇAS VAZIAS

Quantas vezes você escalou um telhado com uma garrafa de vinho na mão? Passou um dia pela janela e viu a luz acessa. Pensou logo que fosse para você. Sorriu dementemente. Quebrou o porquinho de argila queimada do mesmo material das panelas tradicionais e catou uma a uma das moedas de cinco e dez centavos. Separou em pilhas de um real com durex. Colocou o mp3 no ouvido e escolheu a primeira música romântica que o Thom Yorke estava disposto a cantar. Descalça saiu pelas ruas de barro batido e seco. Ignorava a umidade do ar e o sol de 38 graus. Esqueceu sua febre e dor de cabeça. As pernas russas e os cabelos desgrenhados á noite seria apenas uma lembrança do começo do dia mais feliz da semana, quem sabe do mês. Sempre soube que como uma canção, a vida era efêmera. Nunca entendeu direito o que isso significava. Quantas vezes você teve que descer do telhado às pressas com uma garrafa de vinho cheia e lacrada? Teve a péssima idéia de fazer surpresa a quem não esperava. Nunca ninguém que lhe ensinou que sinais devem ser emitidos e que ninguém espera nada. Só se aguarda alguma coisa e essa não deve se atrasar. Cabelos molhados davam um brilho cheiroso aos cachos e chamavam para o rosto toda a atenção. Arranhou a perna na subida e se rasgou na descida. Sentou na primeira esquina e bebeu no gargalo todo vinho e decepção da noite.



por EU MESMO 2:03 AM
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[Sábado, Dezembro 15, 2007]

BURN THE LETTER

Queime a carta. Creio que as palavras nela escritas já foram para o limbo. Não vejo necessidade da existência de um pedaço de papel cheio de emoções caducadas. Da minha parte já queimei todas as suas fotos, seus bilhetes e quaisquer vestígios seus em mim. Arranquei cada dente que formavam o seu sorriso roceiro cada vez que lembrava dos momentos alegres, pouquíssimos e espremidos, que tive com você. Rasgue e queime aquela carta. Não que tenha me arrependido de um dia tê-la escrito. Não por ter vergonha de ter sentido cada palavra ali dita. Rasgue, queime e não guarde nem as cinzas da carta. Faça dela o mesmo que fiz com seu destinatário.


por EU MESMO 1:46 AM
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[Domingo, Dezembro 02, 2007]

SE VOCÊ ACORDAR, TE CONTO UM SONHO

Se você acordar, te conto um sonho. É, um sonho. Não é um desejo. Dormi e sonhei. Entendeu? Você estava nele. Não lembro exatamente o momento em que você aparecia, mas lembro que do nada você chegou. Parado na minha frente com aquele risinho safado e cínico onde você abre pouco a boca e fecha os olhos. Então, estava com uma mala na mão como se tivesse acabado de chegar de viagem. Como não sei onde esse sonho se passava, você poderia estar chegando de São Paulo ou de Jundiaí. A certeza que não passou muito tempo para a mala sumir, assim como suas roupas. Ficou apenas uma slip branca. Mas, você usa esse tipo de cueca? Que estranho, nem sei se você usa quanto mais o tipo. Deveria saber. Afinal... Engraçado, nunca te vi só de cueca e nem sem. Que louco. Me deixa continuar de contar.

Os fragmentos me fogem aos poucos, mas ainda dá para contar uma historinha com eles. Da slip caímos num colchonete. Não era inflável, ainda bem. Corta. Estamos numa banheira branca de porcelana. Você atrás. Sentados dentro dela. Espuma sem exagero, só para dar uma esbranquiçada na água. Seus cabelos estão mais lisos e oleosos. E de cabelo molhado, já te vi? Nem lembro. Quando percebo estamos dentro de um cinema de Vitória. Sala cheia. Mais de 1mil pessoas divididas em 3 pisos. Estamos no primeiro perto da tela. Começa uma discussão entre os “makers capixabas”. Me altero com uma lá. Louca, ela precisava ouvir umas poucas e boas. Fez um filme que era uma merda e ganhou prêmio popular. Ela grita, grito também. Vá cuidar de cavalos, sua égua.

Converso com uma amiga. Nem presto muita atenção. Ela meio que diz que está grávida. Nem via a barriga, mas ela dizia que era de uns nove meses ou mais. Ela desce uma escada improvisada de madeira e ai me dou conta que estou num terraço altíssimo. Olho para a rua e vejo uma movimentação começam a subir a escada com alguém numa maca de guerra. Nossa, finalmente ela vai ter esse bebê. É você que é carregado. O que você tem? Cadê seus cabelos e seus outros pêlos. Te levam para o quarto da minha mãe. Mando minha prima não encher. Duas mulheres dizem que vão te operar.

Fecho a porta e fico do lado rapidinho. Tenho muito medo que você morra. Sério. Não queria que você morresse. Ainda mais na minha casa. Nossas horas no colchão e na banheira tinham sido legais. Olho pela porta e você deitado na cama de costas para mim. Bermuda e blusa de botão. Você não podia morrer sem que soubesse se você usa camisetas. Fecho a porta. Entro na porta. As duas mulheres de branco estão sentadas. Pergunto se está tudo bem. Se tudo tinha terminado bem. Elas respondem positivamente com a cabeça. Pergunto o que tinha acontecido. Uma delas se vira para mim e estende a mão fechada. Ela a abre e me mostra varias conchinhas do mar que tinham tirado de dentro de você. Me assusto e pergunto se precisaram te abrir. Uma expressão irônica de uma delas diz que não. Enquanto isso você dorme tranquilamente.


por EU MESMO 3:32 AM
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[Sexta-feira, Novembro 09, 2007]

RECORTE ANÔNIMO

Quando cheguei, ele já estava lá. Sentado, de cabeça baixa tentando dormir. Roupa de obrigado e fones no ouvido. O que será que ouvia? Sentei-me a sua frente, esbarrando levemente num dos seus pés (será que os músculos também têm atos falhos como a mente?). Movimento quase involuntário para chamar a atenção. Ao mesmo tempo me escondia por trás dos meus eternos grandes óculos escuros. Ao me ver ele se via. Deve se por isso que continuou de olhos fechados e com a música na mente. Que música? Olhos fechados dele; barreira dos óculos minha e tudo facilitava o meu trabalho fotográfico. 16 fotos por segundo. Na verdade, o número exato me fugiu. Olhar para ele era mais interessante do que contar.

A cada ponto a expectativa de um despertar e uma esperança de prosseguimento de viagem. Um outro esbarrão o acordou. Olhos claros, olhos claros. Por que olhos claros? Por quê? Ele queria protestar com os olhos. Percebi ele me olhando, mas sem me ver. Mexeu no cabelo, guardou o player, acertou os óculos – de grau – e se levantou. Nisso, ele se mostrou imperfeito. Que bom! A mochila nos ombros agora era o contraste com a roupa de trabalho. Ele ficou de costas, mas já tinha dele muitas fotos tirado. Planos gerais. Close-up do rosto. Planos detalhadíssimos do nariz, dos lábios pequenos, finos e claros, dos dedos e do que mais era visível.

Continuava na minha mesma posição quando o vi descer daquele ônibus. Se fossem 4 horas antes há 15 anos, desceríamos juntos. Será que isso alguma vez aconteceu? Provavelmente não. Nem existia nesse tempo. Pela janela, esperando uma horda de desinteressantes ocupava seu lugar, o vi parado em uma barraca de queijos. Pegava cada peça como queria que me acariciasse. Cuidadoso e com apetite. Que diria que em algum dia desejaria ser queijo branco. Queijo e branco. Branco. Por que branco? O caminho se seguiu. Quem sabe um dia, no mesmo horário e no mesmo lugar? Talvez a mesma música e se possível uma troca de olhar.


por EU MESMO 3:06 AM
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[Quinta-feira, Outubro 25, 2007]

PARÁGRAFOS EMENDADOS SEM CONTROLE

Já não controlo minhas emoções. Não controlo nada. Se ponho uma música para escutar, enquanto ando na rua, não consigo evitar de começar a canta-la alto. Bem alto. Sou obrigado a por a mão na boca para abafar o som. Mesmo assim aciono o repeat. Já chorei em um avião quando sobrevoava Paraty ou Angra dos Reis à noite. A comissária perguntou se queria uma toalhinha. Recusei. Os dois passageiros ao meu lado aceitaram (me sentava na cadeira entre os dois).

Meses depois, peguei o mesmo caderno. Na sala de embarque, esperava e como... A minha tinta acabava. O calor, o caminho inverso e tudo isso somado. Não tenho a menor paciência. Quem soltou esses cães em cima de mim?

Santa Genoveva, Outubro

“Don’t you see me pray?
Don’t you see me down here pray?”

Cadê seus chapéus, botas e fivelas, sertanejos? Cansei dos “r” prolongados, do meu nariz sangrando e cheio de vocês! Sinto falta das minhas montanhas, da maresia, sinto falta de mim. Por que me roubaram de mim mesmo? Tenho certeza que deveriam ser punidos, mas não pegarei para mim essa tarefa. Ok, tenho que me punir, afinal ninguém me obrigou a nada.


por EU MESMO 1:21 AM
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[Sábado, Setembro 08, 2007]

UM QUARTO

Pode ser tantas coisas
e muitas vezes nada é
Uma medida sem peso
O numero quatro determina
Seja depois de um
ou as paredes


17/08/2007 03:37 am


por EU MESMO 2:20 AM
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[Quinta-feira, Agosto 30, 2007]

HIENA MAL-HUMORADA

Me sinto uma hiena. Não, não estou rindo copiosamente. Nem sei de onde tiraram isso de que as hienas só sabem rir. As hienas vivem em grupos tão grande que acho difícil manterem o bom humor. Os boatos que correm é que elas são agressivas. Histéricas, diria o psicanalista. Mas, não me sinto hiena pela agressividade. Ok, ok tenho que parar de dizer por que não é no lugar do por que é. É simples, estou a espera dos restos. Como assim, as hienas sabem caçar! Elas podem até ser porque de minha parte nunca soube. Ai, me sinto muito uma hiena. Rindo e comendo carniça. Não copiosamente, talvez de maneira parcimoniosa. Nossa, que mentira. Faz tempo que não rio e quando mais gargalho. Aliás, as gargalhadas para mim se tornam cada vez mais forçadas. Será que tem necessidade de serem tão altas? Isso não vem ao caso. A questão é que torço que se canse dessa carne logo e deixe o resto para mim, afinal estomago de hiena digere tudo! Só digo que me sinto hiena, para não dizer que me sinto urubu. Seria outra história, outros ares e odores.


por EU MESMO 1:47 AM
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[Sábado, Agosto 18, 2007]

O REVEILLON É EM AGOSTO

O tempo adora brincar de ser exato. E nós adoramos brincar com ele. Finjo gostar. O sorriso no meu rosto é falso. Oras, por que não deveria?As vezes acho que tenho preguiça de ser feliz. Talvez seja cômodo ser triste. Mas, quem disse que felicidade e tristeza são antônimos? E principalmente por que todo mundo acredita no maniqueísmo do humor? Não há a menor sombra de comodismo aqui dentro. No máximo uma parada rápida para um leve descanso. Daqui a pouco estaremos todos novamente na praia.

Quando se nasce no inverno, fica claro que o tempo nunca é estável. Água caindo do céu, nem sempre é chuva. Preferia quando fazia frio, porém o céu ficava aberto. O vento sempre foi o melhor sinal de que tudo estava bem. Nunca gostei de ficar com meus pés molhados. Deve ser por isso que hoje não quero muito sair de casa. Melhor ainda seria morrer. Definitivamente, hoje é um dia bom para morrer (a hora também é). Não, não há nada de depressivo nisso. Quem falou que morte e vida são incompatíveis?

O problema de se continuar vivo agora, é ter a obrigação de esperar mais 25 anos. Por favor, não estou a espera de nenhum cometa passar de novo pela Terra para seguir viagem com ele. Coisa mais estúpida essa de ir atrás de cometa. Tem tanto planeta aí sem vida. Fora o Sol, imenso! Um astro mais leonino. Aposto que ele se revolta por as pessoas apreciarem mais a lua e ninguém estourar champanhes ao meio dia. Uma boa hora para dormir. E tem gente que cisma em nascer. Pode parecer dicotômico, dialético, um diálogo. Não se engane com palavras que levem a pensar em dois ou mais. Só falo “um”, em absoluto.


por EU MESMO 4:10 AM
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[Terça-feira, Julho 31, 2007]

SEM ENROLAR O ESMALTE, CHEGO ATRASADO. ABRAÇOS

Às vezes vejo você meio triste com certos desfechos da vida. Ainda mais quando envolve outras pessoas. Sei que a gente sempre acaba investindo muito afeto em quem não deve. Você mais que ninguém sabe dos meus investimentos. Erro nosso. Atos falhos, literalmente e nem um pouco freudianos. Ele não sabe o que diz. Nada de conselhos. Não adianta me perguntar o que fazer nessas horas. Sabe que nunca entendi muito bem as mulheres, muito menos as mulheres ao quadrado. Falta de interesse? Talvez. Não é misoginia. Alias, descobri que Nietzsche sofria desse mal. Enfim, sei que você é insistente quando quer ou teimosa mesmo. Vai mesmo depois disso perguntar para mim o que deve fazer. Vou responder, mas só agora e nunca mais: você tem que parar de querer ensinar aos outros a ver a rua. É, tem que parar com isso. Lembro muito bem da cara daquela menina debochando de você. "Galera, ela queria me levar para Belo Horizonte para me mostrar como se vê a rua. hahahaha", ela dizia isso na frente de todo mundo e pior na sua frente. Ver a rua é quase um dom. Você o tem. Deve se envolver com dotados - não, não é estou acometido de falocentrismo. Se a pessoa acha que ver a rua é apenas olhar para um monte de carros e gente passando, paciência. Deixa para ela para lá. Algumas pessoas têm medo de serem atropeladas. .


por EU MESMO 6:31 AM
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[Quinta-feira, Julho 12, 2007]

TANGO NO QUARTO ESCURO

Hay milonga de amor... Todas as vezes que atravessei aquela roleta era atrás de você que estava. Se usasse um revolver seria bem mais fácil, porém sem preferia as fichas e esperar a pequena esfera branca para em/para mim. Hay temblor de gotán... Rodava, rodava, rodava e lá dentro ia seguindo com seus passos bem demarcados e firmes. Sem erros e sem pisar em ninguém que não fosse em mim mesmo. Este tango es para vos... Meus olhos lá dentro eram de pouca serventia. Minhas mãos rapidamente calmas. El Puerto de Santa Maria del Buen Ayre... Precisava de sorte ou azar? Nenhum passo errado. Firmes, sempre firmes. Roletas nunca são usadas em saídas quando essas também não são entradas. Se enxergasse alguma coisa à sete palmos de distância do meu nariz poderia até te dizer que este tango es para vos. Até lá, é de quem (me) me levar. Não precisa de rosa na boca, muito menos espinhos na mão. Hay milonga de amor... Argentina, Buenos Aires, El puerto de Santa Maria del Buen Ayre...


por EU MESMO 1:20 AM
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[Domingo, Junho 24, 2007]

OS JECAS

E se é para ser escroto, seremos! Obviamente os jecas não se limitam geograficamente ao interior dos lugares. É, não estamos falando de roceiros. Aliás, vamos combinar: por que estou falando no plural. Volta tudo. E se é para ser escroto, serei! Então, não estou falando de gente da roça. Não! Estou falando dos jecas que você encontram em qualquer lugar do mundo. Mas, a categoria de jecas urbanos é a melhor. Acho que é meio explícito que me refiro à alguém em específico. Nem é uma gongação. Ok, lógico que é! Pensem, os jecas são aqueles que poderiam ser, mas não são. Gente, ok ok ok...Está tarde para falar deles (ou dele?). Os jecas são engraçados, ou se bancam de coitadinhos "cuidem de mim, please" ou de descolados "leio tudo na netiiiii". Chega me dar sono falar dos jecas. É,me dá muito sono falar dos jecas. Eles gostam de conhecer gente conhecida para poder falar para os conhecidos que conheceram gente conhecida. Pode ser qualquer coisa, serve do tipo que paga almoço e táxi. Aí, os jecas (o jeca?) tentam retribuir. Como? Isso comendo, oras. Os jecas também podem ser usados como petiscos. Você dá uma beliscada na rua, de preferência, mas deixa para se lambuzar com caviar que tem em casa. Exato, não se leva jeca para casa. Nunca combinam com a decoração. Do demais: Pega fogo cabaré!!!!


por EU MESMO 4:27 AM
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[Terça-feira, Junho 12, 2007]

PENSAMENTO RACIONADO (FINALIZAÇÕES Á GALOPE)

Você se foi, mas continua na cidade. Ainda tenho a sensação que você vai aparecer depois de ter me dado algum perdido. A cara safada que fazia para tentar não fazer o que tinha que fazer. A cara safada que fazia enquanto fazia o que tentava não fazer. E fazia bem! Pena que racionava demais. Pena que racionalizava demais. Coisa minha! Criei um monstrinho pensante. Queria um mais sexualizado. Aliás, como você se bloqueava. Como me bloqueava. Deve ser por isso que escrever está sendo tão complicado. Acho melhor deixar a cidade me engolir.


São Paulo, 04 de Maio de 2007


por EU MESMO 6:17 AM
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[Segunda-feira, Junho 04, 2007]

ENTÃO, MEU QUERIDO.

Acho que essa é a hora que tenho que falar a verdade. Seria cretino de minha parte levar isso a diante. Meu coração está ocupado, completamente ocupado. Por mais que ele já seja naturalmente dividido em quatro, cada uma dessas partes estão ocupadas. Até mesmo aquelas que pulsam o sangue venoso, e por conseqüência as coisas ruins. Tenho ciência que é muito bom quando a gente transa, mas sinto que cada estocada é por demais significativa para você. E para mim, é só mais uma. Posso parecer um iceberg te confessando essas coisas, mas não pense que é tranqüilo para mim. Se te deixo, perco também. E não estou falando de uma polpa sedenta por mordiscar-me. Me refiro à possibilidade de amor. Queria que você lesse esse bilhete sem ressentimento e sem imaginar que estou te abandonando. Estarei sempre dentro de você, mas infelizmente não tenho como te guardar em mim.



por EU MESMO 5:01 AM
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[Quinta-feira, Maio 24, 2007]

O MONSTRO DE TRÊS OLHOS (FINALIZAÇÕES Á GALOPE)

Não entendi nada quando você o abraçou pela rua. De repente estavam os dois andando de braços dados. Tudo bem, a cidade é grande! Mas, confesso que estranhei. Pensei que era para ser um passeio romântico comigo. Achava que era o início... o início de algo entre a gente. Só que aquele garoto, sei lá... Pensei que fosse um conhecido, um qualquer... Mas, você tava andando de braço dado com ele e ainda era cedo, era de manhã. E aí, a gente estava no supermercado e isso que era pior, pois ele indicava o caminho, ele dizia aonde seria, ele comandava. Não entendia nada, só pensava o seguinte... Só pensava que você estava de braço dado com ele no meio da rua. Assim, no sol... A cidade é grande já disse, mas não entendi nada! E quando chegou no caixa, ele pagou a conta. Como assim, ele pagou a sua parte na conta? Ele manda em você? Quem é ele? Quem é esse garoto que está com você? Não entendo, quem é ele? Por que ele está aqui? Por que você está de braço dado com ele? Por que você não está de braço dado comigo?

Olho pro lado, olho pro outro. E faço caras cínicas. Finjo que não quero. Finjo que estou ajudando meu amigo. Ele está estarrecido. Ele acabou de me dizer que viu você de braço dado com outro cara na rua e que esse cara não era ele. Ele está assim, louco. Só quero ajudar meu amigo. Não quero mais nada. Só quero ajudar meu amigo. E que isso fique bem claro! Só-quero-ajudar-meu-amigo! E fico pensando... Olho para cá, olho para lá... Olho para você! É tô olhando! Tô te olhando, tô te olhando, tô te olhando, tô te olhando... Por que você tá com esse garoto aí do seu lado? Não tô entendendo nada! A gente tá aqui nesse auditório, várias pessoas e tô com meu amigo do meu lado. A-M-I-G-O! mas, você não. Você tá com um menino, aí. Ele tá de abraçando, você abraça ele, ele pega na sua perna, você pega na perna dele. Não entendo nada! Tudo bem! A gente tá aqui trancafiado. São todos iguais à nós. Mas, por que você está agarrado com ele? Não entendo, você não é solteiro? Você não é livre, você não é desimpedido? Não que tenho interesse. Não tenho interesse nenhum. Tô pensando só aqui, no meu amigo que tá aqui do meu lado que tá estarrecido. E-S-T-A-R-R-E-C-I-D-O!

Agora, estou pensando. Não seria melhor ficar com você? É, ele está meio gordo, né? Carinha de novo, safado e tal, mas acho que o que gosto mesmo você pode me oferecer. Mas, não encontro abertura. Sou meio tímido. Sou mais velho. Entendo, sou mais velho. Não quero mais ficar com ele, sabe? Não quero mais ficar com ele. Ele é meio gordo. Ele está meio gordo. Ele se faz de difícil. Só quer ficar nos abraços. Só nos beijinhos. Quero mais! Quero muito mais! Quero sentir, cara! É, quero sentir. Quero ser invadido. Não, esse negócio de só no abracinho não rola. Não rola, comigo. Entendeu? Frente e verso sem frescuras, sem frescuras! Tenho dinheiro. Tenho dinheiro. Posso te pagar o táxi, posso te dar, hum... Sei lá... Posso te pagar um prato de comida. Posso te fazer feliz. Posso... Posso te dar uma sobremesa. Posso te levar para conhecer a cidade. Ah, ele não te levou para conhecer a cidade? Que pena! Então, que tal a gente ir andando juntinhos, bonitinhos? Ah, ele não deixa? Que saco, meu! Ele te atrapalha, né? Se livra dele! Vem comigo, 2208.



por EU MESMO 3:33 AM
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[Quarta-feira, Maio 16, 2007]

FINALIZAÇÕES A GALOPE - AINDA JUNTOS

Em suas costas mais de dez quilos. Coberto por um capuz azul, mal via seu rosto. Minha mochila estava pesada, assim como a minha mente. O capuz da blusa caiu sobre meu rosto, poderia cair a qualquer momento. Pensava que você me esperaria na porta do ônibus e subiria me ajudando a carregar minhas malas. Estranhei quando não te vi. Queria ter te recebido antes mesmo de por os pés nessa cidade fria. Tentei apressar o encontro, mas... Te aguardava entrar pela porta principal, andava ansioso de um lado para o outro. Olhava no meu relógio como se ver o passar das horas o trouxesse mais rápido. Entrei pela garagem pensando que assim fazia todos. Cortava o vendo na tentativa de me tornar mais veloz. Te abracei forte. Me abraçou forte.


por EU MESMO 12:11 AM
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[Sexta-feira, Maio 11, 2007]

DESCARGA

Se quiser fugir de um chafariz turco de bitch-bactérias, sempre abaixe a tapa antes de acionar o gatilho!

Já deu por hoje? Hein,seu cretino? Já pensou em fazer um fist-funcking yourself sem aparar as unhas e sem xuka? Sabia que você até poderia ser alguém menos pior? Por que não me deixa putrefar sozinho, hein sua hiena minúscula? Tá pensando o quê, oh, Senhor Minhoquinha FINA? Sr. OLIGOQUETO mínimo! Então, por que fica por aí borracho de bile e suco gástrico atrás de restos alheios? Por que não consome glicose de primeira? Todo mundo sabe que você não é célula nervosa, mas a pergunta que não quer calar é teria ressaca moral as amebas?

Então, largatixa indie oriunda de um pub da puta que pariu, vai ficar atrapalhando a phoda dosoutros levando saquinhos de banha localizada para sua cama fedida escondida dentro de um guarda-roupa de portas arreganhadas? Não sabe como elas foram escancaradas? Lembra do fist lá de cima? RESPONDE! Lembra? Tente com as duas mãos e se vire do avesso. Seu intestino grosso vai poder dar deleite assim também, talvez até mais, a essas gueixas de Porto Seguro. Vai dizer que nunca soube que era coprofilia*? Bien, venho lhe informar, mas que vai contigo sempre está atrás disso.


* Aquele senhor simpático, levou-me até uma outra sala, deu-me uma bebida forte e assistimos a uma filmagem sobre coprofilia, fiquei ali por uns 30 minutos... www.casadoscontos.com.br/texto.pl?texto=200602155 - 15k La coprofilia è una parafilia caratterizzata dal particolare interesse per gli ... In alcuni casi la coprofilia induce ad amare o anche mangiare le materie ...it.wikipedia.org/wiki/Coprofilia - 14k



Notas ao diagramador:
1ª Deverá ser mantida cada negrito e/ou itálico e alinhamento do texto;
2ª Na impossibilidade de manter o tamanho original das fontes,manter as respectivas proporções;
3ª Erros ortográficos e gramaticais fazem parte de distinto texto. Se os encontrar ignore-os·

Nota ao leitor:
Única: cada artifício tipográfico tem o intuito de prolongar, desvirtuar e prolixar o respectivo texto,inclusive essas notas



por EU MESMO 1:40 AM
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[Quinta-feira, Abril 19, 2007]

ÓCULOSESCURIDAÇÃO - Uma Experiência Eletrorgânica

"Cada momento que tive com você", assim queria pensar ao escrever esse texto. Nosso passeio a Silva Jardim, quem lindo foi. O filho de nossa amiga que durante aquelas 36 horas, também nosso foi. A notre-sacré-famille de dois aumentada para cinco. Nossos banhos de riacho, que doce! Que infame! Seus cachos a secar entre meus dedos e sua perna quente rente (quase) a minha. E era um dia muito nublado, nem mesmo de dia dava para ver nenhuma estrela. Nós cantando aquela música dos Mutantes que na realidade detesto, mas por você... j'adore! Confesso que a sinfonia número 7 (tenho certeza que não era a 9) tocava em meus olhos. Na sua cadência, sentia nossos corpos girando de cima para baixo. E eu via a cena do alto. Girávamos cada vez mais rápido: eu, você, ela, ela outra e l'enfant terrible. Tudo rodava. Menos um ponto pequeno azul e preto. De perto era alguém sentado com o rosto escurecidado por grandes lunetas pretas de onde saim filetes amargos de puro choro e de onde nossa imagem feliz era refletida.


por EU MESMO 3:02 AM
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[Quarta-feira, Abril 11, 2007]


O QUARTO
Texto comemorativo aos quatro anos de Esfera dos Intocáveis


Estudava ainda em São Pedro quando passava as tardes vasculhando notícias sobre uma tal festa universitária. Era minha segunda viagem pelo curso quando resolvi inventar um termo. Assim, começou a Esfera. Já devo ter falado isso nos editorias de aniversário passado. Todo ano quando chega essa data começo a lembrar do que fui nos anos anteriores. Leio os textos antigos com uma espécie de nostalgia e vergonha. Saudade do tempo que era quase ingênuo e vergonha por escrever tanta bobagem.

Já escrevi sobre tanta coisa de várias formas. Tinha a época da teorização. Criava conceitos sobre a vida. A fase dos haikais. Das experimentações "gráficas", jogavam tantos gifs aqui. Era engraçado. Mais, nada foi mais freqüente do que as pessoas que passaram pelo blog. Seja as em forma de comentário e principalmente as em forma de texto. O quarto ano da Esfera dos Intocáveis é dedicado a pessoas.

Quatro anos é como se fosse um século para que está na universidade, para quem governa, para olimpíadas e copas. Um século depois sinto a ausência de amigos que sempre vinham aqui ler os textos, esbravejar e me fazer pensar. Sinto, falta de certos amores mal-resolvidos que se fossem hoje teriam um encaminhamento melhor. Esqueço completamente, os idiotas que erroneamente por mim estão aqui eternizados. Espero que meu texto consiga ser "mais grande" que eles.

Antes que parece um texto sobre saudades melancólicas, aviso que não é. É um texto sobre expectativas. Sobre os próximos anos da Esfera que são exatamente meus próximos dias. Não pretendo nunca parar com o blog, nem mesmo por conta dos seus irmãos caçulas, S.H.A.e Diário de Suellen. Saibam que perturbarei ainda muito o espaço virtual. Muitos dramas virão e muitos casos a resolver. Histeria plena. Afinal, os bem resolvidos só se dão mal. E venham todos!


por EU MESMO 8:20 PM
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[Quarta-feira, Abril 04, 2007]

ZzZz

Aguardo sentado
com as costas marcadas
Meu coração trancado
por muitas porradas
Escorado em páginas
Mastigado por lembranças
Espero enterrado
com pés atolados em cobranças

fim do verão 2007



por EU MESMO 11:43 PM
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[Quarta-feira, Março 28, 2007]

INTERVALOS

Cheguei em casa hoje e já passava das 3 da madrugada. Sem uma gota de sono imaginava que você já deveria estar no seu milésimo estágio do sono. Agora são 5:28, durante esse intervalo fiquei arranjando mil pretextos para me manter acordado. Volta e meia pensava em você. Talvez se esbarrasse com você direto, nem ia muito ligar para sua presença. A questão é que a sua ausência é muito forte. Esses vácuos que deixa de uma mensagem a outra são angustiantes e cada vez mais longos.

Não posso ligar para só perguntar "como é que você ta?", nem passar na porta da sua casa após a aula, muito menos pedir para você me contar "como foi seu dia" antes de dormimos. Posso outras coisas. Posso esquecer você. Nunca mais visitar seu perfil. Jamais voltar a perguntar sobre você. Parar de te escrever. Ignorar a sua foto aparecendo entre "os amigos". Enfim, muitas coisas, mas, não consigo nenhuma delas. Quando penso em desapegar de você lembro que "Não esqueço de você...e não esqueça isso! Mil beijos" Now: 05:50!


por EU MESMO 2:00 AM
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[Sábado, Março 24, 2007]

TRÊS REFLEXÕES AVULSAS

CAPÍTULO TERCEIRO
A VONTADE E O NÃO PROSSEGUIMENTO


"É o bonde do dom que me leva
Os anjos que me carregam
Os automóveis que me cercam
Os santos que me projetam
Nas asas do bem desse mundo
Carregam um quintal lá no fundo
A água do mar me bebe
A sede de ti prossegue"


Imagem 1:
Figura linda de sorriso carioca e olhar brilhoso

Imagem 2:
Figura desnuda de sorriso sacana e olhar dissimulado

Imagem 3:
Figura bucólica de olhar perdido e pensamento distante

1+2+3 = figura intocável que habita a estante dos casos insuperáveis na prateleira dos bibelôs que inexplicavelmente nos apegamos e não sabemos nos desligar

Cena 1: olho a imagem 1 como se a mesmo estivesse iluminada pelo meu desejo. O estereotipo que parece ter saído da floresta que há entre o Pão de Açúcar e morro da Urca

Serão parágrafos curtos para você. Palavras atrasadas e de certa forma um pouco distantes. Sei que não é justo com você. Mas, na verdade não me importo. Cada reflexão acaba sendo uma egotrip. E hoje estou dentro de um buraco tão grande dentro da minha mente que pouco posso ver além de mim. Desculpe. É nítida a quebra de eixo. Desculpe,mais uma vez.

Depois de 2 meses pensando em que escrever, é meio vergonhoso te dar isso aqui. Por outro lado, criar uma situação bonita estava se tornando difícil e sem efeito. Recorrer as lembranças também não foi uma boa alternativa. Sorrisos interessantes e figuras desnudas são pouco.

É cretino da minha parte escrever isso: dos três você foi o que menos me interessou. Dos três foi único que vi de novo. Dos três você foi único que vi. E dos três você deve ser o que menos vai se importar. É provável que dos muitos, sou o menos também. Nisso, estamos empatados. Um para cada lado. Nem à frente e nem atrás.


por EU MESMO 5:24 AM
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[Quinta-feira, Março 01, 2007]

NOITÁRIO

"A noite me deito, então escuto a mensagem no ar
Vagando entre os astros, nada me move nem me faz parar"


Dormindo no chão puro está você. Que idéia idiota foi essa de não trazer colchão. Achou que seu travesseiro seria suficiente desde que em cima de mim estivesse. Mas, não contava que fosse passar a primeira noite dormindo sozinho. Sorte sua ter pessoas amáveis que te dão um edredom para afofar seu sono. Já que apenas te dou insônia.

PREMIERE NUIT

Não havia mais muitas surpresas. Já tínhamos nos explorado bem. Sabia onde ficavam seus pontos erogenos e suas imperfeições. O pequenino caroço acima da sua boca. Seu sorriso de olhos fechados. O "L" estratégico e sugestivo. Coincidência de letras e intenções. Simulações de posição e de sentimentos. Você do lado esquerdo e para mim o direito.

NOITE TRINCADA

Minha cabeça dói. Talvez muito sol, talvez excesso de você. Você me incomoda, não entende, ou finge que não. Quero dormir, por favor, não insista. Sei que também está com dor de cabeça. Afinal, tomamos o mesmo sol e se devo estar com você em excesso, imagine você de você mesmo. Quem sabe um banho te ajudaria, não ajudou. Ok, você me convenceu: vem!

LAST NIGHT

Foram 4 noites. Você mais se divertiu na última. Foi na última noite que até mais tarde ficou acordado. Nela você mais sorriu. E também teve seus momentos mais felizes. Na última noite pode exteriorizar todo seu sorriso acumulado nos outros dias. Planejamos essas 4 noites em 32 páginas de um projeto perdido no meio de melancolia, drama, seda e prolixidade. Na quarta noite com certeza você conseguiu seu ápice de felicidade. Na quarta noite só apenas chorei.

NOCHE LEJANA

O lençol molhado cobria o colchão de espuma que ainda marcava a silhueta do seu corpo. Na fronha do travesseiro as manchas da sua baba ainda eram pequenas. Baba essa que quando não estava em contato com a minha boca facilitava seu passeio junto a mim. Vestia o calção que você deixou ao sair poucas horas antes. Virei para o lado direito que você ocupou na cama e abracei o novo corpo esguio que agora já me fazia companhia. "Não achava que iria acontecer... mas aconteceu... mas também pensei q aconteceria outras coisas que não aconteceu... a vida é assim mesmo". Você pode me cobrar por muitas promessas, mas nunca disse que você seria insubstituível.


por EU MESMO 1:30 AM
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[Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007]

QUESTÕES DE INSÔNIA

Já faz 3 noites que não durmo. Há muito tempo não sei direito distinguir os momentos em estou dormindo dos que estou acordado. Enumerar os motivos de eterna vigília seria recorrer a memória de tudo. Hoje, ficaremos com a recente. Já tava bem de manhã quando acordei e me deparei com você à minha frente. Desde então ali você sempre ficou.

Agora, sou uma eterna tentativa de buscar o sono (sonho) nas letras. Não sei que horas são, mas daqui a pouco vai amanhecer. Estou sentado nesse chão frio e sujo riscando palavras. O longo corredor à minha frente com suas 7 portas de um lado e 6 do outro simboliza meu hoje e ilustra meu estado. Você deve estar se perguntando "o que ele quer?". E na verdade também me pergunto "o que quero?". O que quero com essas folhas rabiscadas. Na minha mente só tenho você e o desenho da sua letra escrevendo seu nome, telefone, e-mail e "sure!". No meu ouvido a ironia das frases dele falando de você para mim, ou melhor, dizendo o que você pensava de mim. A última pessoa foi dormir agora, fiquei só com essa caneta falha. Acho que não vai dar mais para escrever. É idiota, prematuro, totalmente incerto. Tomado por insegurança e desespero, continuo depois.


Goiânia, Novembro de 2006


por EU MESMO 1:31 AM
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[Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007]

SÍNTESE DA DECADÊNCIA (CANSADO DE AVENTURAS)

Escrevo agora para retratar minha decadência. Se tem alguém que nesse exato momento sintetize a figura da decadência, sou esse alguém. Com uma caneta barata de R$1, num banco metálico de uma rodoviária vagabunda. Se soubessem, onde deveria estar e como, com certeza me entenderia. Se lhes dizesse o porque não estou ririam da minha cara. Mas, decidi que isso ninguém vai saber. Essa caneta é uma merda. Tudo bem que paguei um real por ela dentro de um bus, mas ela podia ser melhor. Ok, nem é tão ruim. Podia ser muito pior. Como me odeio por estar, aqui, sentado nesse banco de rodoviária "V-A-G-A-B-U-N-D-A". Deixei para trás meu suco de pêssego e minha barra de cereais. Vou gastar de um lugar para um mesmo lugar, o que gastaria de um lugar para outro lugar. O gastar se refere a tempo. Dinheiro é melhor nem pensar. Por quê? Nunca ninguém vai saber. A coisa é péssima. Deveria ter dado mais atenção àquele "te cuida", no lugar do "volte sempre". Queria uma aventura, história para contar, mas, porra, queria um final mais ou menos feliz. Merda de se adiantar, nunca me adianto. Administrar atrasos sempre foi melhor. Cansei dessa caneta!


Rio,outubro de 2006


por EU MESMO 1:31 AM
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[Sexta-feira, Janeiro 26, 2007]



POUR TOI (CHER LUMINEUX)

Quando você desceu da sua bicicleta azul, no final da corrida te esperava contente. Com sua blusa branca toda molhada de suor, você alternava entre sua respiração ofegante belos sorrisos ingênuos. Quis te abraçar, mas achou melhor que tomasse uma ducha antes. Alegou que estava limpo demais para você me contaminar com sua transpiração que escorria pelo rosto, costas e seguia um caminho tortuoso até seu calcanhar. Ignorei sua recusa. Afinal, sempre estive acostumado com o sabor da água do mar e não seria para mim desprazer sentir o toque e o gosto salgado de sua pele. Assim refiz o caminho das gotas escorridas. Subi do seu calcanhar e tortuosamente com minha língua fui subindo em direção ao seu cóccix aonde me perdi várias vezes até chegar aos seus lábios para engolir todo o seu sorriso.

Sua bicicleta caiu no chão e derrubou um ciclista que vinha logo atrás. Nesse momento, te mastigava com tanto afinco que nem podia reparar e muito acudir mortos ou feridos. Tombado naquele chão ele segurava meu pé como se quisesse que olhasse para ele. Deveria saber que naquele espaço de tempo a única coisa que me importava era me fundir a você em carne, afeto e memória. Só me envolvia o presente vivido e futuro extremamente imediato. O passado recente tinha cada vez mais o destino reservado a todas as paixões instantâneas que se portaram como platônicas. Soltei meu pé e abraçado a você, segui pelos caminhos do arboreto centenário que nos circundava. Entre as brechas do verde constante, o Cristo Redentor acenando para Nós dois (ainda que de costas) e acolhendo com seu outro braço o Caído.


por EU MESMO 4:43 AM
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[Sexta-feira, Janeiro 19, 2007]


LES DEUX VÉLOS

Você pegou sua bicicleta e disse tchau. Restei. Aquele bar, as cadeiras vazias, as garrafas quebradas e meu copo pela metade. Entrei no primeiro carro que me abriram a porta e segui pelas as ruas da cidade a noite. Dirigiam muito rápido e discutiam banalidades. Ninguém me apresentava os frames que passavam na janela. Tinha q imaginar o que era cada coisa. Aquelas árvores deveriam ser do bosque do qual nunca me falou. Alias, nunca me falou sobre nada. Só diminuíram a velocidade quando avistaram você mais à frente correndo na sua "vélo". O carro passando por você, sloooow motion. So slowly que congelou nos meus olhos.

Olhando a sua cidade do alto do google earth, vejo as ruazinhas e as alamedas. Fico procurando a sua casa por instinto. Sei que não há menor possibilidade de achar, "(a cidade) é pequena, mas nem tanto". Você me diz que corre de bike por essas ruas. E agora, imagino você correndo a todo por tudo. Você monta na sua vélo e parece ignorar que estou te olhando lá de cima (aqui de baixo geograficamente). Mesmo assim, a sua imagem pela minha tela se move. Talvez realmente ignore.



por EU MESMO 12:25 AM
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[Quarta-feira, Janeiro 10, 2007]

FAST SCRAP

Estava com sono. Coloquei o celular para despertar as 15:30. Daria para dormir uma hora e meia e depois teria tempo de almoçar antes de sair para minha semanal egotrip. Às 14:56 acordei, resolvi que iria completar pelo menos mais 4 minutos na cama. Levantei ainda meio zonzo, essas sestas são mais cansativas do que revigorantes para mim. Sentei diante do computador para variar e sua foto apareceu. Quis resistir em te deixar um recado, mas nem sempre curto brigar comigo mesmo. Escrevi. Meu telefone toca. Uma amiga, small-talk. Logo depois você apareceu online. Pena que por exatos 13 minutos e 26 segundos. Isso é muito pouco, não é nada. Mesmo assim foi melhor do que a meia hora que deixei de dormir.


por EU MESMO 8:45 PM
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[Quarta-feira, Janeiro 03, 2007]

LES QUATRE COUPLES

Meu nariz escorria assim que avistei a famosa baía pela janela. Chegava sozinho em busca de não precisar mentir reflexões. Oriundo de um impulso notívago. O dia não tinha sido fácil e de noite a solidão foi sendo pulsada do átrio esquerdo para cada ponto do corpo. Ou entrava sem rumo naquele avião ou ficava parado no meio do nada. Recusei o existencialismo de revista. Imaginei como seria legal cada dia a dois. Me tiraram a dignidade de uma recepção ensolarada, talvez não merecesse. Nem questionei. Você prometeu me buscar, achei semi-romântico.


Era um dia logo após o dia dos namorados (sim, essa data existe), no dia que o Brasil ia estrear sua campanha germânica fracassada, dois dias antes do aniversário do meu irmão e estava fazendo uma "viagem acadêmica" para faltar o meu trabalho. Tudo bonitinho, mas aí alguém chegou antes de mim. E o tal dia dos namorados foi comemorado. Me descobrir o outro após o gozo e ainda vestindo a roupa, isso não tinha sido planejado. Como sou sem criatividade ! Cruzar a Ilha do Governador ouvindo Massive Attack com você entedirrintante dirigindo, também não imaginei. No fim, os dois ganharam. Para mim, uma carona para Madureira e para você, descobrir a diferença entre mp3, cd-r e cd-rw. E também, saber que seus sons tocam tudo e você a mim nunca mais.

Pois é, algumas pessoas rodam, rodam e rodam. No final ficam tontas no mesmo lugar. Sentado no em frente ao prédio iluminadíssimo da Uerj até esqueço que dali já peguei um ônibus para discutir com uma cretina em Copacabana. Sim, cruzei a zona norte para barracar na sul. O importante é que sentadinho à minha frente está você depois de anos. Confesso, muito diferente do que guardava na memória (eufemismo para pior). Mas, todo mundo muda (menos os tontos). Pensei: será que tenho chance? Precisei de dois dias e parar no Leblon para descobrir que alguém com quase uma tonelada (ou mais) me ultrapassou. Aposto que também comemoram juntinhos o dia 12.

Por incrível que possa parecer, voltei a rua do barraco. Só que dessa vez não fui quebrar, só infamemente armar. Tudo tão quente lá dentro, tudo tão molhado. Esse desfile de toalhas perto da praia é interessante. Quando acompanhado de sorriso de quem tem olhos azuis é algo que se deve aproveitar. But, you don't speak portuguese or french. Vamos conversar depois se der tempo ? E não é que tivemos esse momento no lugar do tradicional cigarrinho ! Na conversa descobri que apesar de estar apenas comigo, você estava acompanhado há 18 anos. Poderia até me adotar, a Suíça é tão neutra que nem me surpreenderia. Tanto é que quando fiquei com a outra metade do casal, achei naturalíssimo. Por favor - pedi - fale comigo apenas em alemão. Não vou entender nenhuma palavra e assim pode até mesmo falar que se amam. Viva a divisão em hemisférios que fazem datas com a tal ser diferente.

Estamos todos cansados. Está chovendo e mais tarde tem outro jogo da Seleção. Agora, não contente em ficar cruzando a cidade tenho que sair dele para mais uma aventura. O casal 16 toneladas vai também. Como é longe e faz frio. Definitivamente, amanhã tenho q estar no ponto inicial. Depois de passar esses dias discutindo e refletindo relações alheias, vejo que ainda tenho assunto. Outro casal no meu caminho. Saldo total : quatro. Que lindinho você dois com seus cabelos encaracolados e molhados. Que coisa estranha essa de passar a mão um no outro e nelas duas que estão junto. Afinal, quem são essas mulheres ? Que música é essa que cantam. Enroscados aí, com certeza não devem ter comemorado nada, porque comemoram tudo. Quando crescer, quero rolar na grama igual a vocês.


por EU MESMO 10:57 PM
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[Quinta-feira, Dezembro 28, 2006]



PENSAMENTOS VETORIAIS

Não, ele não te escreveu. Sério mesmo que você esperava que isso acontecesse? Que ingenuidade a sua. Talvez, ele nem saiba escrever ou se sabe deve ser daqueles que mal conseguem passar de orações simples. Sei que você ficaria satisfeito se ele se manifestasse mesmo que fosse em fórmulas que você esqueceu como interpreta. Sei tamm que você desejaria saber que tipo de movimento ele ou você estão tendo. Acelerado ou retardado, para que lado esses vetores vão te levar.

Sim, ele não é nem um pouco recíproco com você. Quer dizer, ele é. Mas, da maneira dele, menos intenso. Talvez, você que exagere na dilatação. Deveria se abrir menos, vibrar menos, ter ondas mais curtas e mais controladas. Deveria ferver a Kevin e não a Celsius. É muito estranho para alguém como você que vive em zero absoluto estar se ebulindo de uma hora para outra. Entendo, que ele disse que guarda seu sorriso na memória. Que teus movimentos de pé o instigavam. Mesmo, assim diminua a velocidade.



por EU MESMO 2:47 AM
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[Quarta-feira, Dezembro 13, 2006]



NO, YOU DON'T WANT

Essa historinha já está dando né? Acho que você já deve ter essa idéia faz um tempo, mas começo a perceber isso agora. Se já não bastasse viver em espaço diferente, acho que não vai dar para ficar num tempo paralelo. Sabe, acho tudo muito bonitinho. Tudo romanticozinho: flowers, hearts and beautiful colored words. O problema que estou começando a ficar entediado. Sensação de conversar com alguém por de trás de uma porta fechada. Você sabe que estou do outro lado dela sem nenhum trinco e sei que você sabe. E por que não abre a merda da porta? Estou do outro lado te esperando, mas você insiste em sussurrar de onde está. Acha que vou ficar aqui sempre? Lógico que não, meu amor próprio é grande e meu ego infinitamente maior. É meu ego é gigante e te engole em segundos assim que seus abraços começarem a arranhá-lo. Te fiz uma pergunta, vai responder?




CONCILIATÓRIO

Que idiota dá minha parte te encher de cobranças. Tendência boba de querer tudo na mesma intensidade que dou. Ainda espero a resposta, porém agora não a trato como uma imposição. Não me trato como imposição. A gente vive ouvindo e falando sobre o tal o livre arbítrio. Pois é, liberdade. Então, nada de esperanças ou expectativas (parece que não, mas são coisas muito diferentes). O lance é o seguinte, estou tentando liberar minha mente com muita ocupação. Ócio, nada produtivo. Acho que estou meio que jogando para você todas as minhas neuroses e frustrações. Como se você representasse todos os meus problemas ou a solução para eles, o que creio seja pior. Já sei que você não é formula mágica para nada. Então, pode abrir a porta. Não vou te fazer mal.




por EU MESMO 12:19 AM
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[Quarta-feira, Dezembro 06, 2006]

DO YOU WANT LOVE?

Já está tarde, sei disso. Deveria estar dormindo, assim como você. Nesses últimos dias tem sido um pouco complicado. Enrolo muito, rolo muito de um lado para o outro. Penso que vai chegar uma hora que vou esbarrar com você na cama. Ok, ia precisar rolar 1428 quilômetros. Aja insônia, nem tenho tanta.

Dentro do cinema, procuro uma fileira totalmente vazia. Sento bem no meio. Passo minha mão pelo assento da direita e logo depois no da esquerda. Empty! Mesmo assim, uma hora imagino que você pode entrar na sala e ocupar um deles. Mas, o filme tinha que ter umas 20 horas.

Na frente de uma praça bonitinha de uma cidade interiorana, você posa para uma foto. Sozinho, coloca a câmera sobre um banco qualquer e liga o timer. Sozinho, sai na foto. Comigo pelo menos o enquadramento teria sido outro e o close maior. Comigo seu álbum de fotos seria bem melhor.



por EU MESMO 12:04 AM
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[Quarta-feira, Novembro 22, 2006]

SAGA À CARIOCA

Rio de Janeiro, setembro de 2006 - O sol é relativamente forte e se faz presente na tão conhecida paisagem do parque do Flamengo. A lerdeza com que o ônibus anda nem de longe se parece com a alta velocidade com a qual cruzam a mesma região durante a madrugada. Cruzar todo o Aterro dentro de um ônibus "a full" é a pura sensação de estar no Rio; sem isso não estou. De manhã tudo é mais lento. Sabe-se lá como, consigo estar ainda mais devagar que o ônibus. Ele vai a 40. Estou a 10. Motivo simples: não olho para a praia, nem para o morro da Urca entre as árvores. Olho para você que está exatamente sentado a minha frente. De costa, como sempre (mesmo frontal) esteve. Na minha organização mental para paixões anônimas instantâneas, você sempre figura na categoria sonho de consumo. E mesmo quando saiu do anonimato, na categoria intocável permanece. Obviamente, com mais de 50 mil quilômetros rodados, não foi o único. Ainda bem. Agora, está tão perto que poderia passar a mão em seus cabelos (hoje, meio portenho e isso não é elogio). Mesmo assim, confesso que não tive essa vontade. A não ser para me fazer um mero capricho que depois de 4 anos nem poderia ter efeito. Sim, quase quatro anos já.

Florianópolis, novembro de 2002 - Tudo tem que ser iniciado de alguma forma. E mesmo sentimentos instantâneos, não surgem do nada. A ilha de Santa Catarina é gigante, Florianópolis nem tanto. Ainda assim, 3 dias na cidade foram poucos. Mas, suficientes para guardar na minha memória (e nas fotos) paisagens fantásticas de beleza insuperáveis. Nesse misto de sol, montanha, mar e lagoa (que coincidência) tenho minha primeira lembrança de você. Pessoas em círculo, manhã nublada, experiências trocadas, muito blá blá blá que na época ainda era novidade. E disso tudo, lembro perfeitamente da luz de dia com nuvem cobrindo sua pele carioca branca, seus cabelos não escuros e seus olhos mais claros. Lembrança cuidadosamente construída por um silêncio que nem as repetidas palavras de ordem, o seu não desligado celular e sua voz de uncle Donald conseguiram quebrar. E não sou uma pessoa muito concentrada.

PoA, janeiro de 2003 - Guardo muita coisa de Porto Alegre, grande parte já dita. Restrigirei-me ao inédito em palavras escritas. Um colchão de ar e sobre ele: você de bruços dormindo. Meus olhos sobre essa cadeia de montanhas que é você nesse momento. Por sete dias, era isso que se via. Aclives e declives que começavam em seus pés; subiam e descansavam no topo do desejo; e desciam vagarosamente até seus cabelos. Às vezes, essa paisagem sumia; Ou melhor, se movia. Subindo e descendo degraus madeira. Dançando timidamente algum samba-rock - "o Rio de Janeiro continua lindo" - ou se banhando, essa a melhor ação. Cretina timidez de boxes de alvenaria e portas maciças. Eram 3 chuveiros, você entrou no do canto, entrei em seguida no do meio. Agora, estávamos nós lado a lado tomando banho. Sim, descreveria cada parte nua que você está lavando, mas as paredes não me permitiram nada ver, mas já imaginar...

São Paulo, maio de 2003
- quando o Copam se mostrou para mim, marquei o primeiro "X" nas coisas que queria de (em) São Paulo ver. Ah! Meus amigos de outras horas, toda a Paulista e paulistas. Fazia muito frio. Lembro que choveu algumas horas. Estava feliz nas construções antiga e mais ou menos entediado nas modernas. Já estava lá a quase dois dias, vários "x" marcados. Faltava o museu do Ipiranga e você. Desisti de ir ao museu. Rodeado mais uma vez por tanto falatório "rec-repeat" e encolhido no frio em poltronas vermelhas, vejo sua translucidez passar pela minha frente carregando uma mochila gigante. Mais uma vez aparece uma mochila, cheia vai saber de que. Em relação a você fechei meus olhos e só os abri meses depois.

João Pessoa, julho de 2003 - Rápido piscar de olhos: O sol deixou o branco vermelho que arde a pele. A sala pálida deixou branco de frio o que estava vermelho. E por fim, a negra fez que o branco ficar vermelho de vergonha. Após a piscada, meus olhos continuam cerrados e quando os abrir estarei olhando para tantas coisas.

Belo Horizonte, setembro de 2003/Brasília, janeiro de 2004- Olhos fechados...

Fortaleza, julho de 2004 - Fazia alguns minutos que obrigado tinha acordado. Talvez, vá tomar café. Com certeza escovar os dentes. Depois de tantas horas dormindo, a luz das 8 da manhã realmente me incomoda. Por favor, não vista nada branco ou que reflita. Não enxergo nada direito. Caminho por clear-rooms and light-ways até o banheiro. Dentro dele é mais escuro. Abro o meu estojo, tiro a escova nova, a pasta de dentes já usada. Pasta nas cerdas da escova, abro a torneira e molho a pasta que está na escova. Abro a boca... E tudo fica muito claro... Um ano depois era você a minha frente, me olhando com ar de espera para a única pia. "Pode usar!" "Não, espero. Costumo demorar escovando os dentes". E quem se importa, penso. "Tranqüilo, pode usar a pia". Se você escovasse dente por dente, frente e verso, cada cantinho, a língua e toda aquela sua boca. Poderia ficar horas vendo essa cena, me imaginando ora água, ora escova, ora água, ora escova, ora saliva... Mas, fortaleza e seus peculiares ventos me fizeram ir embora nos 3 primeiros minutos. Em vez de horas te vendo escovar os dentes, resolvi sujar meus dentes com fibras e sangue de muita carne cearense. E mergulhado nessa minha "carnificina particular" nem reparei que você tinha sumido do meu campo de visão. Me perdi ao em vez de ir te procurar.

Rio de Janeiro, junho de 2006 - Quem está agora falando ao meu lado é alguém que não conhecia, mas sempre via e tanto tempo depois, revejo, mas não reconheço...

Rio de Janeiro, setembro de 2006 - O sol é relativamente forte e se faz presente... 




por EU MESMO 3:33 PM
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[Quarta-feira, Outubro 18, 2006]

CORPO NA CHUVA

Um corpo deitado sobre um pedaço curto de papelão. Ele me encarava. Está frio, muito frio e para piora chove. Sim, estou no Rio e é primavera sem "te amo" e nem "Paris, je t'aime". Ele me olha. Retribuo. Deitado naquele chão frio e quase molhado, sujo e com a barriga a mostra devido seu moletom curto e caça baixa. Muito baixa. Linda barriga e curtos e aparados pêlos aparentes. Passo por ele, mas volto. Continua deitado no papelão e se "cobre" com outro, mas o que antes mostrava ainda visível está. Confesso, minha vontade era de deitar com ele.

De olhos fechados estava enquanto o encaro. Sexy, très sexy. Confesso, me deitava fácil. A idade permite. O frio permite. A chuva. Enfim, tudo. Menos o meu medo, a minha duvida e meu asco. Do alto do meu esnobismo, aguçado pelo lugar, "je demande a moi meme: est-il um clochard ou um voleur?". Et moi,, qu'est je suis?, lo que soy, lo que soy?. Um desabrigado na chuva, sozinho, sem papelão, dando em cima de "quelq'un",esperando um abrigo, sempre esperando um abrigo.


Rio, Primavera de 2006



por EU MESMO 2:33 AM
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[Quinta-feira, Setembro 28, 2006]

TRÊS REFLEXÕES AVULSAS

CAPÍTULO SEGUNDO
INTRIGAMENTO EM PEQUENOS PASSEIOS E ANALOGIAS RÁPIDAS


Só porque disse que de mim não pode gostar
Não quer dizer que não tenha do que considerar
Pensando bem, pode mesmo
Chegar a se arrepender
E pode ser então que seja tarde demais
Vai saber?


PASSEIO I: PLAY

Mesmo antes já sabia que iria te querer\ Um ano antes assim funcionou - o bater dos olhos de primeira foi determinante\ Tudo o que não mostrava ver e era. E lógico, tudo que era e não parecia. Confusão. De fato, ambigüidade. Caso perdido.

PASSEIO II: REW

Em 1988, estava apreendendo a ler. Precisei de mais um para ter certeza de que já sabia. Uma diferença depois, já morava em outra cidade. Você deveria estar maravilhado com o mundo que as letras unidas te proporcionava. Mais uma diferença, era o que você é hoje. Estava na idade inventada para dizer quem é adulto. Achava que era, mas sei que nunca fui. Se fosse você naquela época teria chegado à Vitória pelo ar, ficado em um bom king-size e comido das melhores carnes. Enquanto isso, você se deliciava com os prazeres da puberdade. Deveria também estar confuso entre uma masturbação e outra. A confusão também me acompanhava.

Diferença final, somos nós agora. Sem projeções, apenas lembranças. Escrevo isso direto de uma catedral capitalística, onde você estaria a contra gosto. Assim como estou.

PASSEIO III: FAST FORWARD

Bien, estou pensando em você. Principalmente, por saber que você vai ler isso aqui. Sentado na minha cama, parcialmente coberto, só ouço "I'm hunter/ I'm going hunting/ I'm hunter". Estou com sono. Imagino você dormindo. Um pequeno infográfico indica uma linha reta entre o ES e MG. Em cada ponta: nós, um de nós.

Percebo que me perdi completamente na escrita. Mais que qualquer reflexão, escrevi muitas pequenas projeções. Não vêm ao caso. Era para falar do seu desapego com a estética, do dito belo. Você fez o que não consegui: superar o externo. É difícil! É melhor fechar os olhos e ver estatuas de Milo, clássicas, nada de pinturas cubistas.

Pois é, sinto que isso aqui tem muito de você. De expectativas; falta sua pureza. Pureza tesuda do seu beijo. Por que foram poucos? Justo no domingo, detesto domingos. Fecha parágrafo,corta para mim num trem.14 horas. "drink me - make me real (...) leave now and return tonight". Sono. Medo de no fim todos nós virarmos árvores como no clipe. Isso não terminou...



por EU MESMO 9:40 AM
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[Terça-feira, Setembro 12, 2006]

TRÊS REFLEXÕES AVULSAS

CAPÍTULO PRIMEIRO
ENCANTAMENTO EM CINCO CURTOS ATOS INACABADOS


Oh, sim, estou tão cansado/Mas não pra dizer/
Que tô indo embora/Talvez eu volte/Um dia eu volto/
Mas eu quero esquecê-la, eu preciso/
Oh, minha grande/Ah, minha pequena
Oh, minha grande obsessão


1º ATO: DA DESCRIÇÃO

Cabelos pretos com fios pratas. A luz da lua neles: perfeito. A composição ideal. A pele morena. O sotaque interiorano. O sorriso. A carinha sacana e ingênua de um menino de ¼ e meio. A blusa por dentro da calça e os óculos retro: as adoráveis cafonices. Cada marca na face. O tempo agride, assim com espaço, mas a beleza do seu olhar é concreta.

2º ATO: DA MENTE

A desconstrução saindo de seus lábios era o som que os neurônios emitem quando se combinam. Cada idéia, cada combinação, cada palavra. O riso levemente envergonhado. O pós-estruturalismo me calou. O apartidarismo me tocou. Foucault segurou meus braços e me fez sentir cretino. Medo de virar retalhos incosturáveis e largados ao inverno chamado, aqui, de vento sul. De ficar sozinho no meio da multidão em volta que apaguei para apenas ver você.

3º ATO: DA INDECISÃO

Aquela escada está invertida. Não posso mesmo achar que descer para te encontrar seria verdade. É obvio que teria que subir por você. A questão é que estava no meio. Via dois centros, só tinha um dardo. Era preta a cor da superfície tocada pela sua ponta. Quase na parede. Naquela hora descer ou subir era o que menos me importava, só não queria que os núcleos se fundissem e para mim restasse a função de mitocôndria.

4º ATO: DO OUTRO

Consenti. Virei as costas e você já não estava lá. Aquela parede de tijolinhos vermelhos envernizados era a cena mais bárbara, no sentido de barbárie, que poderia estar à minha frente. Era o vazio, a ausência, a perda. O frio estava todo dentro de mim, em intensidade maior assim que a distância das cadeiras diminuía. O silêncio que antecedia ao beijo da boca que não era a minha. Consenti, por quê?

5º ATO: DO FINAL

A mochila estava em suas costas, mas o peso era todo meu. Me carregava dentro dela sem saber, mas não sentia. A mim, restou a vontade de que a qualquer momento você abrisse o zíper e me tirasse de dentro dela. Restei. Um corredor longo, vazio e friamente iluminado. Atravessá-lo. Era Irreversível. Sinfonia de número 7 (jn a major op.92, seja lá o signifique isso) com 107 Steps. Um, uma porta. Dois, uma escada. Vinte e sete, desejo. Cinqüenta e cinco, uma lâmpada. Sessenta e quatro, fim das paredes. Setenta e nove, outra porta. Oitenta e dois, sem tento. Noventa e um, gemidos. Cem, vento frio corta. Cento e sete, o nada.


por EU MESMO 2:23 AM
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[Quarta-feira, Agosto 30, 2006]

DA OBSESSÃO

Primeiro, deu pulos baixos para ganhar visibilidade. Em seguida, olhou para a comida, perguntou do que era e alegou incompatibilidade alérgica. Agora, quer re(des)fazer o pedido. Primeiro, fez cara feia para comida, mas comeu. Depois, no prato cuspiu. Agora, quer o prato de volta e lambe-lo pela primeira vez.



por EU MESMO 2:00 AM
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[Quarta-feira, Agosto 16, 2006]



MENTE ESCORRIDA

Uma mente em forma de ampulheta. Até o último grão cair, nada entendi. Uma legião de deformados abrigados numa gruta. Um sonho quimicamente provocado em um colchão rende ao piso. Estou te procurando, mas não me acho. Uma biblioteca sob o sol, uma pessoa sobre ela. De lá se vê o encontro do pequeno lago poluído com o mar muito verde. Ao lado uma grande piscina olímpica azul onde um singelo tubarão-martelo nada. De qualquer forma, apenas água. Minha mente é fluída. Sou líquido e posso escorrer entre seus dedos, aos poucos vou me afundando na sua frágil superfície marítima.


Salvador, Inverno de 2006


por EU MESMO 2:12 AM
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[Quarta-feira, Agosto 02, 2006]

DERRADEIRA

Comemore!
Mas o que?
Comemore!
Mas por quê?
Escreva!
Até quando?
Tristeza!
Me recuso
Você quer?
Agora!
A mim?
Quem sabe!
Um trocadilho?
É o que diz!
Vai!
Vamos nessa
Vambora?
E se fico
Problema seu!

01/08/06 02:23


por EU MESMO 6:08 AM
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[Sábado, Julho 22, 2006]

DA MEDIOCRIDADE

Mediocridade, palavra com sete letras que simboliza o que pode haver de mais digno de compaixão na sua (minha) frente. Mediocridade, estado lastimoso de em que você (só você) se encontra e ninguém vai mover um só cílio para te ajudar a sair. Mediocridade, repetição de termos em pequeno espaço e por muito tempo para expurgar cada segundo e neurônio gasto por pouca coisa. Mediocridade, em total metalinguagem. Mediocridade, mais uma vez, palavra de setes letras que juntas ou separadas, são mortas e totalmente desnecessárias de serem grafadas onde quer que seja, ainda mais aqui.



por EU MESMO 1:07 AM
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[Quarta-feira, Julho 12, 2006]

A PERGUNTA NO LUGAR

A pergunta que sempre ficou para mim mesmo era "o que você queria?". Nenhuma outra, apenas essa. E engraçado que nunca houve resposta. Quero dizer, uma resposta certa, segura, firme. Nada, só as mesmas abstrações de todo dia. É claro que muitas vezes isso é legal, mas para mim, concreto puro, não dá mais. Até pensei em ajudar, respondendo "mim" mesmo a essa pergunta. Sou daqueles que acredita que o vácuo do silêncio faz muito mal. Logo, deve ser preenchido imediatamente. Mas hein, o que você queria?



por EU MESMO 1:23 AM
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[Quarta-feira, Julho 05, 2006]

SOU A MENTE (SUA) VAZIA DE...

A primeira coisa que se deve fazer é encaixotar a paisagem. Pode ser em quatro paredes ou em uma barraca apache.Claro tudo isso na memória. Depois, pode sentar na terra encharcada e encarar o rio ralo que vai correr a sua frente. Agora, por favor, esqueça isso.



por EU MESMO 2:22 PM
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[Quarta-feira, Junho 21, 2006]

PROMESSA

Te prometi um poema. Talvez nunca o escreva. Sim, sou mais um daqueles que prometem e não cumprem. Te disse que faria um poema, não tenho menor dúvida disso. Mas, francamente não sei se você merece. Quando verbalizo, é como se petrificasse. E com isso depois de um tempo iríamos precisar do carbono 14 para saber o seu quando. Afinal, um poema te faria "para sempre". Ou seja, tanto tempo por tão pouco.

Prometi para dizer que não era mais um desses que você tem esbarrado já faz uns 5 anos. Só que sou sim um desses. Vai saber meu número... Se fosse o inverso seu número seria 1 ou 0. Depende da quantidade de teia que faríamos juntos. Então, como estava dizendo, sou desses mentirosos que fazem de tudo para ter o que querem, inclusive se apaixonar.



por EU MESMO 9:48 PM
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[Segunda-feira, Junho 12, 2006]

FORAS

Quando você me disse não, o colchão era de uns 5 palmos de largura ficou com uns 10. E depois disso, ele estava a uma profundidade de 7. Quando você não me disse não, vi cada uma das pessoas a minha volta desaparecer. E depois disso, você insistia em ficar.



por EU MESMO 12:15 AM
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[Sábado, Maio 27, 2006]

EM PROSA, FOI ELE...

Que fez você parar o carro, descobrir que era mulher, mostrar que era tímida e também muito safada. Foi ele que mudou de cor ao assar, no dia em que por ele você torceu. Te disse balelas pro trás do Murro e não deixou você passar para o outro lado. Que sempre entrou antes da água após traumatizar que o viu. Foi ele que disse que você não era menina e que você não era homem. Te mostrou a China, mesmo que você quisesse Taiwan. É ele todas as mentiras em que você precisa acreditar!



por EU MESMO 10:00 PM
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[Quarta-feira, Maio 03, 2006]

DA OFICINA

Brincadeira é o que o destino adora fazer com a gente. Ele te manda para o nada, sem você saber que vai encontrar agradável surpresa. Surpresa, hoje, florida. Surpresa que é triste e me faz alegre. Para quem nunca nem tinha ouvido sua voz, agora fico frente a frente com você. Te registrando, te congelando, te dessecado e te fazendo eterno. Disponível a mim, toda vez que falta de você sentir. Você sabe o que faço, mas sem saber para que. Desconfia, mas nada faz. Talvez, porque não o tenha.


"Je suis très desolé! Le mec d'oficine ne est pás gai. Il rien pas pede. Qui merde!"


por EU MESMO 8:59 PM
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[Quarta-feira, Abril 26, 2006]

DA ARROGÂNCIA

Voltados para os nossos egos é assim que estamos. Aclamando a nossa inteligência, como somos legais e interessantes. Odeio essa arrogância disfarçada de ingenuidade. Esse esnobismo pintado de despojamento. Auto-confiança medíocre daqueles que acham tudo que deles vêm merece destaque apenas pela procedência. Donos do sêmen dourado, Midas auto-proclamados. Surdos seletivos, cegos de ocasião.


22/12/05



por EU MESMO 11:59 PM
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[Quarta-feira, Abril 19, 2006]

DA TENTAÇÃO

Acaba sendo a mais potente das tentações. Surge envolta de laranja. Fica na minha frente como se fosse luz , me fazendo inseto. Estaciona-se entre mim e a possibilidade do trivial. Me seduz, só para depois para o outro lado ir. Não, você não (fosse) apenas ignora. E no fim, nem você, nem o trivial. Só me deixa a escolha do sol, ou de um quarto a menos.


03/01/06



por EU MESMO 9:07 PM
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[Terça-feira, Abril 11, 2006]

MÉNAGE À TROIS!
Texto Comemorativo aos três anos da Esfera dos Intocáveis

"Nem parece que foi ontem, que o acontecido aconteceu"
Mombojo


Se tem uma coisa que tenho certeza nesse momento, é que não faço idéia do que vou escrever para falar desse terceiro aniversario esférico. Muitas vezes, isso aconteceu com alguns textos que aqui publiquei. O que de certa forma faz com quem essa metalinguagem aqui, esteja dentro dos parâmetros do blog. Desde de ontem, penso em assuntos para escrever aqui. Pensei em relembrar o passado curto, os leitores antigos e desaparecidos, a rotatividade etc Mas, em três anos acho que essa nostalgia não cabe muito. Isso não quer dizer que vou começar a escrever previsões para o blog.

Então a melhor coisa a se fazer é ficar no presente. Ou seja, nesse meio termo temporal ao qual nós estamos atualmente presos. Deve ser por esse motivo que pensei em escrever sobre memória. Explicou (ou tento): diz um cara da Áustria que o tempo e a memória só podem ser considerados enquanto pluralidade. E como ligo isso com a Esfera? Vejo, esse espaço como um back-up do meu tempo e da minha memória. Na verdade, é mais uma tecla de atalho. Quase um diário escrito com tinta de suco de limão, precisa da luz para se revelar. E aí, qualquer um que a tiver (sem necessariamente ser um iluminado) vai entrar nessas idéias.

Confesso que em três anos, escrevi muita coisa que hoje, nem entendo direito. Afinal, às vezes a gente só tem uma lâmpada de 30 voltes. Ou então, uma lâmpada fria. E frieza aqui ajuda mais na escrita do que na leitura. Escrevi também textos imaturos, ou sem muita noção do que queria dizer e se devia dizer. Pior que os imaturos, são os prematuros. Esses deveriam ser entregues aos seus destinatários, talvez eles fizessem um bom uso da minha precipitação de outrora. E por fim, tem aqueles escritos dos quais gosto muito. São os que não me canso de ler, lembrando que quase nunca leio o que escrevo de primeira (vide os erros gramaticais ou de digitação). Mas, quando muito gosto de um texto, tenho vontade de republicá-lo eternamente. Só que lembro que escrevo, o que estou (e um pouco do que sou) e não gostaria de estar sempre no mesmo lugar.

Depois de 2000 caracteres, ainda não tenho noção do que deveria tratar agora. Sei que enrolo, empurro cada palavra com a barriga (que insisto para que se HOT). Já sinto falta desse petit canard que foi embora, assim como o que foi ano passado, assim como foram muitos que aqui marcavam presença constante. Ok, não vou me deixar vencer pela armadilha da melancolia! De-fi-ni-ti-va-men-te, não sei o que escrever. Creio que seja a hora do que eles chamam de "parar". Acho que é isso, ou melhor, a negação disso. Melhor do que continuar enrolando aqui e agora, é poder continuar a fazer isso por mais tempo. Desde que não esqueça(m) daqui.



por EU MESMO 11:35 PM
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[Quarta-feira, Março 29, 2006]

E TOCA KNIVES OUT...

É daqueles dias que venta gostoso. A luz do quarto acesa brigando com a do sol lá fora. São sete e quarenta e sete da manhã. Mas, é continuidade de ontem. Não dormir de novo. Levanto do chão, onde desenhava e escrevi sobre nós. Toca Knives out. E arrumo a mochila rasgada e desorganizada. Como sou, e tudo que gira comigo. Knives out é triste. Acabo de perceber. Sento para escrever isso aqui. A música acaba. E agora são sete e cinqüenta (e um, porque demorei a digitar). Knives out é linda. Faz tempo que disso sei.



por EU MESMO 8:18 AM
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[Quarta-feira, Março 22, 2006]

ENFOSSADO

Sentado naquelas pedras centenárias fui engolido pelo mar. O sangue era liberado em troca de água salgada e em poucos segundos era a única coisa que circulava por cada veia e artéria. Em uma onda mais forte fui expelido de volta contra as pedras. Líquido e sem uma gota de sangue sentia que agora era o melhor momento para sentir tudo aquilo ainda inédito em mim. Meu cérebro fervia de tantas conexões que fazia, acho que se um black-out se instaurasse naquele momento seria possível ver o quanto minha testa emitia luz. Da mesma forma que aqueles animais marinhos abissais. É verdade, que sempre fui abissal, mas emanar nunca foi uma habilidade para mim. Porem,com Sol ardendo sobre mim, era impossível uma concorrência leal. Então era só para saber que assim seria, ou melhor deixaria de ser, que ninguém pelos meus flashes seria atraído? Para me mostrar que o Sol sempre vai brilhar mais? Que todos os neurônios incandescentes e fluorescentes eram pura alegoria temporária e carnavalesca, enfim efêmeros e sazonais? Só me restou engolir o mar, para explodir-me em sangue em algum fosso perdido no Caribe.



por EU MESMO 11:41 AM
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[Domingo, Março 12, 2006]

(...) IF U 4GET MY NAME... JE OBLIE TOI!

Agora eram vários os violinos que juntos ocupavam todas as curtas e longas ondas sonoras que invadiam meu ouvido e rasgavam minha alma. Unidos naquela melodia que conhecia muito bem, talvez (com certeza) melhor do que qualquer um de vocês que parados agora olham. Mas, quando percebi só ouvia o som de Um. Era Esse som que me fazia dormir todas as manhãs, me acordava todo começo de tarde e que me impregnava de tão forma que naquele exato momento teríamos certeza que era eterno (e se não fosse deveria). Do nada me vi de frente a uma tela que projetou uma forte luz branca com um ponto alaranjado que piscava muito e emitia um barulho estranho. "E então vai me responder do que você está afim? Te perguntei isso faz horas (que cronologicamente equivalem a 2 minutos de Greenwich) e você ficou aí 'mudo', sem me responder!!!". Confesso que não entendia nada, ou melhor, que começava a. E quando realmente compreendi o que se passava, o que aconteceu e o que poderia rolar já tinha deixado de ser o que era, só vivendo o que gostaria ser (viver (ter)). Enfim, uma puta confusão que a minha mente gerava, mas não realizava. "E aí...?????????!"



por EU MESMO 3:41 AM
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[Quinta-feira, Fevereiro 16, 2006]

BEBÊS MATINAIS

Chegou no colo da sua mãe de maneira que fizesse todos quem estavam sentados se levantar. Fui o primeiro mesmo que de todos tinha sido o último. Você não agradeceu, nem deve saber o que seja isso. Não sabe mesmo. Nem andar aprendeu, quanto mais a falar. Mesmo assim conseguia impor sua opinião com seus grunhidos baixinhos e agudos.

Não faço idéia de onde surgiu. Estava só, estava perdido talvez. Sem ninguém. Tinha acabado de acordar, parecia. Seu rosto delicado mostrava isso. Seu cabelo castanho claro ainda marcado pelo travesseiro ou peito em que hora esteve deitado.

Fazia cara emburrada como se não tivesse ganhado algum mimo. Não disse uma só palavra, por maior que fosse minha expectativa para ouvir sua voz. Era a figura mais linda que poderia ver nessa manha assolarada. Seria nos próximos vinte e cinco minutos minha nova paixão anônima instantânea. E pontualmente assim foi.



por EU MESMO 5:07 PM
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[Quarta-feira, Fevereiro 08, 2006]



ATROFIADO

E se te falasse que nesse exato momento não queria estar vivo? Sim, digo no sentido literal, nem um pouco figurativo. Nesse exato momento, queria estar morto. É meio que querer juntar os estados. Sei, que é meio assustador, quase coisa de suicida. Mas, confesso que estou longe de me matar. Sou adepto de uma tradição masoquista onde se curte situações esdrúxulas, como essa de viver. É meio engraçado, sei disso. E é um humor pastelão, nada de negro e muito menos mórbido. Também sei que é complicado ter que entender por que alguém desproblemado, queria deixar de assim estar ou pior, queria dar trabalho aos outros. Afinal, morrer é algo por demais problemático, principalmente para quem não morre. Nisso, aviso que a minha vontade é composta de um pacote completo onde para os que ficam restaria apenas fingir que sentem a perda. Lógico, o ego sempre está no centro de tudo isso, até porque ele é um órgão estritamente transplantável. No meu caso então será fácil encontrar receptor compatível a esse hipertrofiado órgão. O problema seria para os demais que se encontram murchos ou ressecados. Não falo aqui de pele, mas sim de músculos, o que é óbvio e redundante. Coisas que são recusadas pelos outros em vida, quanto mais em morte. E não há nenhum equívoco nisso, afinal que vai quer um coração atrofiado?



por EU MESMO 1:43 AM
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[Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006]

DESFOCADO (OU FORA DE ALVO)

Imagino como seria injusto dizer agora que já sabia. Seria mentira, por mais que sempre goste. Talvez,seja esse o ponto que nós liga ou nós separa. Depois de ter lido tudo, de ter visto tudo e não ter sentido nada (ainda), espero para o resultado de tudo isso. Sim, pelo resultado do resultado. Pois, confesso que não sei o que fazer nesse momento. Se ainda fossem de chocolate, comia. Ou se fossem secretas,(mais uma vez) lia. Mas, agora que as (o) tenho nas mãos não sei o que fazer, além de fugir do foco de tudo.



por EU MESMO 12:27 AM
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[Sexta-feira, Janeiro 13, 2006]

O DIÁRIO PREMATURO E UM TANTO QUANTO SURREAL DE SULLEN, A SUICIDA (EM VÁRIAS PESSOAS)

Lame, últimos dias de 2005

Suellen resolve sair um dia sem Fede. Decidiu que seria um dia de inovar, no lugar dos tradicionais restaurantes coreano, lituano e cingalês, ir a um pub caribenho que tinha inaugurado perto da sua antiga casa, onde morava com suas amigas putas. Era para ser um programinha simples, despretensioso.

Ela ia com seus amigos solteiros. Mas, chegando lá, ela se deparou com todos eles comprometidos. Seja com outras pessoas, seja com outros momentos. Não havia o que ela fazer ali. Só que Suellen, além de suicida, era masoquista, mas um tipo que não controla nada, a ponto de bater.

Suellen nunca teve controle de nada, suas amigas putas sempre zombavam dela. Quando disse que ia se casar elas quase tiveram um derrame cerebral de tanto que riram. Achavam que ninguém seria louco de se casar com uma suicida, ainda mais um surfista de pele muito branca da Plage du Córner.

Assim, enquanto estava sentada no balcão daquele Pub com seus amigos, as palavras e gozações de suas antigas amigas vinham à memória. Suellen sabia naquele exato momento que precisava morrer.

"Sentada naquele banco alto que me deixava à altura do balcão, me sentia ainda mais distante do mundo. Sem meus pés tocando o chão, nada mais me prendia nessa vida. Nem Fede e as crianças, absolutamente nada. Toda a angustia que circulava pelo meu corpo, acabou me dando sensação de liberdade. Sentia que podia fazer o que quisesse com a minha vida, que podia ser a mesma, mesmo se nesse momento deixasse de ser. A minha frente no Pub, tinha um espelho, e logo, a minha imagem nele. Na agradava ver-me daquela maneira. Enforquei meu reflexo, imediatamente. Senti os ossos do pescoço quebrando em minhas mãos. E de repente, só restou uma carne sem pulsação. Com minha imagem morta, passei a ser quase uma vampira. Porém, agora dependia muito mais dos outros."



por EU MESMO 11:17 PM
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[Quarta-feira, Janeiro 04, 2006]

LENÇÓIS ALHEIOS

Na primeira noite do ano dormi em uma cama que não era minha, com lençóis claros que não eram meus e acompanhado pela mesma companhia diária. Nessa noite, ela não me incomodou. Isso ficou por conta da minha memória. não conseguia lembrar números e nem nomes, e entrei em insônia por esquecer o que teoricamente não devia. Preferi trocar de cama e assim dormir. Talvez, estava mais incomodado ainda por saber que em outra cama vazia ou muito cheia, perto ou muito longe de mim, alguém poderia (não) estar na mesma situação que a minha.



por EU MESMO 12:40 PM
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[Terça-feira, Dezembro 20, 2005]

O DIÁRIO PREMATURO E UM TANTO QUANTO SURREAL DE SULLEN, A SUICIDA (EM PRIMEIRA PESSOA)

Plage d'Oranges Ville, 16 de Dezembro de 2007

Ainda no nosso primeiro fim de semana de casados, recém-casados, começamos a freqüentar a casa de praia que Federico tinha herdado de seus pais. Apesar de na infância e parte adolescência ter passado quase todos os fins de semanas e feriados, a casa de praia da família sempre foi um lugar que ele detestou. Mas, inexplicavelmente na primeira oportunidade de vendê-la, não o fez. Talvez porque no seu inconsciente tivesse planos para ela. Agora, depois de dois anos de casamento ou concubinato - como a família tradicional dele sempre gostava de pejorativar - sempre que pode, Fede "me arrasta" para lá.

Nouvelle Almeide, 18 de Dezembro de 2007

Hoje, acordei às 6 da manhã. O sol ainda estava nascendo quando levantei. Como é de costume, saio da cama antes de todos para preparar o café. Fede, gosta de sair para surfar nas primeiras horas da manhã. Gosto que ele saia de casa de café tomado. Sei, que as mulheres dos amigos dele que também surfam, não fazem isso e ainda me criticam por fazer. Acho lindo coar o pó preto apenas com alguns raios tímidos de sol fazendo companhia. Se a mãe dele não fosse tão rabugenta e ciumenta, ela me ensinaria a fazer a massa de pão caseiro da qual ele sempre diz sentir falta. Mas, deixo bem claro: "não sou sua mãe".

Fede acordou mais sonolento do que nunca. Seus olhos mal abriam, combinados com seus cabelos loiros e pele muito branca, me davam a sensação de estar frente a frente a um islandês. Nós, adoramos a Islândia e tudo que vem de lá. Nunca vou esquecer da nossa segunda lua de meu em Reikijavik! Foi lá que decidimos que deveríamos adotar um filho ou melhor três. Uma menina de 65 anos (para preencher a conta de gênero). E dois meninos, um de 23 e outro de 19 anos.



por EU MESMO 12:33 PM
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[Sábado, Dezembro 17, 2005]

POSSIBILIDADES

- Um olhar a mais, um sorriso, um alguém. Cada pessoa torna-se um amor em potencial.
- Dois olhos sempre me olham, me vêem, me vigiam onde quer que vá
- Vivo sempre na iminência de uma dessas possibilidades ser o que procuro há tanto tempo.
- Na espera de ser achado.
- Possibilidades ambulantes. Sempre estou a espera de uma dessas.
- Cada bundinha arrebitada é sinal de que quem sabe tudo acabe. Tudo não, mas a minha busca.
- Quem sabe, assim, poderei deixar de idealizar.



por EU MESMO 7:50 PM
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[Sexta-feira, Dezembro 09, 2005]

A VISTA


Seus 360 graus convergiam para um só ângulo. O meio conseguia ser o foco de atração, sendo justamente o que não deveria ser. Os contrastes semiológicos brincando totalmente entre o que não era ser. Cada palavra que deveria ser dita deveria ser ouvida, mas na verdade só queriam ser ditas. E que via, só queria ser visto.


13/11/05 17:25.


por EU MESMO 1:22 AM
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[Terça-feira, Novembro 29, 2005]

O LADRÃO

Não havia sol
Tudo o que tínhamos eram nuvens
onde o céu deveria ser azul
absolutamente azul

Todos se perguntavam
pela característica cor
Ninguém entendia
porque só o cinza dominava

Só se ouvia sua voz mansa
Só reluzia o brinco em sua orelha direita
E de preto absorvia toda a luz
E com cabelo embaraçava todo vento

Durante todo tempo ninguém soube
Alguns até desconfiavam
Muitos nem sabiam
Mas circulava um boato de roubo

Faltavam suspeitos
Não tinha pista
Hipóteses morriam antes de serem levantadas
Como amores egoístas abandonados
Invadiu o quadro de todos
Chegando com seu ar louco perdido
Lindamente perdido, extremante lindo
Concorrendo com a paisagem
Sugando as fixações atentas
com seu raro sorriso, possível simpatia
Prendeu, me prendeu e ti também
Por um ano? 3 horas? Sem tempo
Até quando o seu azul
for mais azul que o do Rio
Ladrão, pode devolver?

Rio-RJ 08/09/2005 16:04



por EU MESMO 12:56 AM
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[Sexta-feira, Novembro 18, 2005]

POUR ILS DEUX

E será mais uma tentativa de eternizar memórias (pessoas) vivas.


É a história de duas cidades que na verdade são duas pessoas que no fim viram lembranças. É escrita do que incomoda, mas também do que foi vivido. Vontade de ser, de ter, simplesmente viver. Melancolia em um dia azul, muito azul. Ensolarado, e muito. Dessa não vez, não estava nublado. Agora, o tempo era um ou melhores eram vários. Mas, sempre separado do espaço. E assim, dá a separação originadora de tudo. A mesma que incomoda e faz a paisagem da 16ª janela em vertical ficar lindamente dramática. Só que nesse exato momento vivo o passado ainda novo, ignorando o presente.

A imagem formada na minha mente de você é da aparência ligada ao real, de alguém que sempre vejo porque existe, e da atitude do personagem ficcional, a que não toco porque é de espectro. Juntando isso, registro que às 7 horas do dia 14 de novembro te batizei Brian Fisher. Sendo assim, será meu. Sendo assim, posso dizer o que representa. Só assim, posso te conjugar. Você estará fixado na minha mente como um sorriso tímido, como um "oi" reverberado e como um compasso aberto 180º riscando no chão um círculo translúcido enorme em sua volta. Quem estivesse próximo acabaria sendo magnetizado para ou expelido de seu centro de inox frio e bipolar. Ainda não sei que movimento me coube. É por fim a cidade antes da ponte na qual fiquei. You're my "secret" dream-hot.

O som da sua risada ascendente, da sua voz calma é o que me faz ser a pessoa mais obsessiva com a qual sou obrigado a conviver nessas horas. Seus olhos fechados enquanto canta no escuro, seu sorriso para si mesmo. Como essas coisas me prendem! É cidade que olho do outro lado que quero ir, mas que dessa vez não consegui ir. É a irracionalidade de só querer o que não tenho, de ignorar o que tive e de me patetizar ao descer correndo os 4 andares de escada para ir atrás de um momento marcante. Mas, no fim só ganhar o mais "casa-blaquiano" dos abraços finais, desses que o cheiro do outro passa a ser seu. C'est mon non sense favorite, que projeta em Foucault um mundo de idéias não vivido. É a beleza que não consegui roubar. É a minha tentativa desconcretizada.



por EU MESMO 5:58 AM
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[Terça-feira, Novembro 08, 2005]

ENCORTIÇADO

Não poderiam chamar de amor a primeira vista, porque de fato nunca se viram. O primeiro encontro em que estiveram tête-à-tête, entre elas havia, ora vidro, ora trânsito. Cada uma de um lado da avenida olhando para outra deixava nítido que o destino seria exatamente enfatizado por quem a rua atravessasse.

Ela atravessou atraída pela luz que dizia "vem!". O aperto de mão confirmatório foi o primeiro e talvez o único contato literalmente físico que tiveram uma com a outra. O que viria dali em diante seria apenas sexo casual. Ela, no primeiro momento, não deu muito crédito à outra. "Só isso" deve ter pensado ao ver aquela figura roliça que vinha em sua direção. Em nenhum ficou definido para onde iriam e o que fariam, mas em nenhum momento houve uma só dúvida a respeito. Tinham que se apresentar, se definir. "Meu nome não importa, o seu nem se fala. Sou puta e quero fuder".

De mãos imaginariamente dadas seguiram pelas novas ruas antigas. Casa paralelepípedo, cada criança brincando, cada grito entre vizinhos, tudo isso era estranho para ela que nunca ali estivera. Já para ela, era sua casa, "your place" e como dona do pedaço ela conduzia ela. Andavam a passos largos, mas fingindo indiferença blasé. As fantasias e fetiches corriam nas mentes. Ela segurou o ritmo e analisou "la derriere" dela. Queria ter certeza de que valeria a pena tal aventura suburbana. "Acho que sim!", sorriu. As ruas e ladeiras se mostravam do nada como se brotassem da sombra. E realmente brotavam. E de maneira nada sutil.

"É aqui". Pensou por que o portão estava aberto. Por que ela a estava levando lá. Por que ninguém cumprimentava ninguém. "Cuidado com a cabeça" foi a única instrução. Agora, faltavam poucos degraus para o fim ou melhor para o início. Uma porta se abriu e uma musica disco-dance começou a ser o "ambient". A porta foi fechada, ela jogou ela na cama. Ela tirou sua roupa e a roupa dela. Ela disse que quem mandaria agora seria ela. Elas competiam entre si, elas eram as ganhadoras e também as únicas que perdiam.

Quando elas "acabaram", na verdade quando ela se acabou cansada, ninguém queria olhar para cara de ninguém. Ela queria uma torneira para lavar as mãos suadas. E ela queria que ela fosse embora para que ela pudesse chegar. Sim, era claro que havia mais "elas" na história. O suficiente para que no final, nenhuma das duas presentes soubesse o que era isso e principalmente quem eram.



por EU MESMO 12:47 AM
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[Quinta-feira, Outubro 20, 2005]

A MOCHILA

E quando me pego escrevendo como agora é que vejo como me tornei altamente dependente do platonismo que sempre insiste em se fazer peça fundamental da minha escrita. Só é ele pode ser capaz de me fazer vir de forma incontrolável aqui escrever sobre essa imagem que fica na minha cabeça. E assim, lembro de cada fio de cabelo que descolore sua cabeça, de querer adivinhar sua idade através cada ponto de tempo no seu rosto. Sim, penso da sua blusa cinza e das flores discretas nela e também nos fios desfiados bailando ao vento da sua calça, até me lembrou uma personagem de um autor que nunca citei porque só li um conto e vi um curta baseado na obra de. E por fim, agora ao arrumar minha "bagagem" para amanhã é que lembro de você indo embora segurando aquela mochila cinza da Company e sobre a mesa seu prato meio cheio e a garrafa de Coca-Cola vazia.



por EU MESMO 2:39 AM
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[Terça-feira, Outubro 11, 2005]

LENÇÓIS ESCUROS (PARA MAIS UMA NOITE DE INSÔNIA)

Gosto de lençóis escuros quando estou com sono, quando vou dormir ou simplesmente quando me deitar. Só lençóis não, toda a roupa de cama. Fronhas, colchas e demais. Sinto-me encoberto pela cores e como se essa composição fizesse a diferença. E mais do que tudo, "j'aime" o contraste dos lençóis escuros com sua pele clara totalmente a mostra, mesmo que seja só em sonho.



por EU MESMO 2:12 PM
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[Terça-feira, Outubro 04, 2005]

RAYUELA RUSA (DEFINITIVA SEGUNDA FASE)

Com seu vestido azul, amarelo e rosa, já não tinha mais 5 anos. Já não tinha nada que pudesse lembrar o bebe que um dia fora. Gerava dúvidas sobre o que realmente era. Perguntaram lhe a idade, respondeu que tinha o suficiente para pode brincar. Olhares um tanto quanto estranhos lançou, e com ele, conjugou sem o "n" todos em sua volta. Sentou na primeira cadeira de vime que viu. Balançou como se estivesse em casa. Percebeu que o tempo nunca foi muito seu amigo, e que sempre travavam uma guerra privativa com ele. O tempo sempre vencia. Saiu da cadeira e resolveu andar sem uma linha reta.

Quando parou na sacada estranha, viu pedaços de giz riscar o quadrados no chão. Viu números e letras girando e espiral. Sentiu cada ruga na sua pele aveludada. Sorriu para todos que não estavam perto. Pegou uma pedra escrita "JOGUE!" e a obedeceu, lançando para bem alto. Olhou para cima e esperou ela no ar parar. Suspirou, arfou, riu e deitou sobre os quadrados riscados. Fechou um dos olhos. Os quadrados tomaram a silhueta do seu corpo. Cada vez mais azul, muito mais amarelo e gradualmente vermelho seu vestido agora estava sangrando.



por EU MESMO 3:12 PM
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[Quarta-feira, Setembro 21, 2005]

MORTA ENTEDIADA

E de repente estava morta. Me sentindo um pouco Brás Cubas,me sentindo um pouco Henrique. Num momento, era mais um desses cadáveres falantes que gostam de contar histórias próprias e alheias. Só que se você pensa que pedirei minha canonização, está enganado. O que quero é gozar. Sim, nos cadáveres também temos tesão. Incluindo o de viver. Ah, não pense que vou fazer um daqueles levantamentos "assim foi minha vida". Sou uma morta, pasme, tímida e envergonhada. Também, não vou usar do meu estado de espectro para contar os podres de todos que cercaram nesses meus anos de vida. Tenho ética e fidelidade de rusky siberiano.

E agora estou aqui. Confesso que tudo isso é fruto do tédio. Cansei desse eternamente dia ensolarado sem nuvens esparsas nem nada. Dizem que lá embaixo é tão animado que pega fogo. Só que mandei tanta gente em vida ir para lá que estou com medo de encontrar esse povo todo. Vou continuar ouvindo essa trilha do filme do espanhol que é amigo do cara da Bahia que canta músicas chatas. Confesso que quando soube que vinha para cá, pensei que minha vida ia ser só de agitos com louros alados. Aí descobri que eles são os tais transexuais que tanto ouvi falar.

E daqui a pouco vou chorar. Essa ironia nada mais é que pura tristeza enjaulada em um corpo rígido. Só quando deixei de viver que puder perceber o tanto de meleca e amargura a gente produz durante nossos dias. E infelizmente é necessário mais que um dedo para acabar com a segunda, que também não dá para ser enrolada e escondida em baixo de alguma cadeira. Ai como detesto esse meu mau humor! Falavam que esse era meu charme e minha popa em cima, faróis para frente e aquilo bem guardado não contavam. Cansei disso, por favor alguém me diz com chegar ao térreo de volta ou vou ficar morta e louca! Se me mandar para o sub-solo,volto e quebro sua cara. Esqueci de dizer, também sou muito violenta.



por EU MESMO 4:14 PM
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[Terça-feira, Setembro 13, 2005]

SUELLEN, A SUICIDA, E SUAS AMIGAS PUTAS (PARTE 2)

Suellen decidiu que queria amar. Suas amigas putas começaram a rir e a zoar da cara dela. Suellen estava cansada de todo o circo dark que era a sua vida. Suellen não agüentava mais as mesmas bandinhas deprês que mantinha no seu player. Ela queria ser feliz. Suas amigas putas rolavam no chão de rir. Ela relevava ou inrrelevava, nunca mostrava o que realmente pensava. Suellen era uma vaca, mas também nunca afirmou que não fosse. Mas, mesmo assim ela achava que poderia ser feliz e encontrar alguém que assim como ela fosse um pouco puto, porém sério. Suas amigas putas engasgavam nas babas de suas gargalhadas que podiam ser ouvidas por toda a "vila" em que "viviam". Suellen marcou um encontro. Ele era um carinha que ela tinha conhecido numa sala de bate-papo sobre tulipas-negras-da-Holanda. Na verdade eles eram os únicos que estavam on-line e que acreditavam que existissem tulipas dessa cor. As amigas putas deram uma pausa na risada e ajudaram Suellen a se arrumar. Lembravam-na que deveria "segurar esse homem" de um jeito que ele nunca mais a deixasse. Ensinavam com poses e ousadias T-U-D-O que ela deveria fazer na hora em que tivesse chance. Suellen seguiu rumo ao seu encontro, esperançosa e com um pouco de gastura. Pegou seu ônibus e segui viagem conversando com o trocador. Quando percebeu estava no coletivo errado, não teria mais tempo de chegar a tempo ao seu encontro e sabia que tudo estava perdido com o carinha das tulipas-negras-da-Holanda. O trocador disse que seu turno acabava no ponto final da linha. Suellen resolveu não perder a viagem.



por EU MESMO 12:12 AM
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[Quarta-feira, Agosto 31, 2005]

PUERTA FINAL

Talvez oito vezes seguidas
Por volta de sete vezes,
Foi esquecida
Ouvi, Ouvi e Ouvi
Cada parte vivida
Outras, muitas ainda por
Nessa oitava é diferente
As vozes estão mais fortes
Os violinos dramáticos
E mesmo multiplicado
Sou o mesmo
E assim,
Toda vez que acaba
Sinto uma porta fechada
Atrás de mim.

..................................01/08/05 04:02 am


por EU MESMO 10:15 PM
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[Sexta-feira, Agosto 26, 2005]



A CAIXA DE ESFIRRAS

Quando você sentou ao meu lado com aquela caixa cheia de esfirras quentinhas, sabia que alguém te esperava do outro lado da ponte. Imaginava a felicidade que você trazia dentro daquela caixa, ou melhor representada por ela. Alguém com certeza abriu um largo sorriso assim que te viu entrar segurando a caixa que perfumava tudo com cheiro de massa, carne e condimentos. Pegamos o mesmo ônibus, sentei sozinho, você passou por mim e o aroma ficou pelo ambiente. Atravessamos a ponte juntos e você desceu na primeira praça. E ali tive certeza que não seria esse alguém.

Quando ouvi o barulho das chaves na porta, tinha certeza que era você. Te esperava de banho tomado, cabelo ainda molhado e pronto para assim a noite inteira ficar. Como você demorava em abrir a porta, percebi que algo estava errado. Fui ver e vi que estava com as mãos ocupadas. Olhei para você e sorriu em troca. Passou por mim, fechei a porta e ao me virar, notei que tinha uma caixa de restaurante turco nas mãos. Você a abriu e dela saiu um perfume que me fazia rir. Naquele momento sabia o que era ser feliz.

Provavelmente nunca mais vou te ver, por mais que a cidade seja pequena, você seria outro na próxima vez. Agora, desfruto das esfirras e de você. Estou pensando em que escrever. Olho para você e me sinto parte. Digito palavras, tento eternizar o momento. Ouço cada palavra da sua boca como se fosse a primeira e também a última. Você deve estar contando de como foi andar com a caixa no ônibus. Que engraçado você contar das pessoas mexendo com você no ônibus por causa do cheiro das esfirras. Escrevo imaginando o que faz agora. Sinto ciúmes por saber que alguém te olhava muito no ponto de ônibus.



por EU MESMO 5:36 AM
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[Quinta-feira, Agosto 18, 2005]



O PRIMEIRO DOS PRÓXIMOS 365 DIAS (ME TIRARAM UM PATO)

Me vesti de preto. Não deveria, mas me vesti. Eles olhavam para mim com a mesma cara de quando chegaram há um ano atrás. Já tinha me acostumado com a presença dos dois. Tentei fingir indiferença por quase uma semana, mas agora é demais. Ele vai embora da mesma forma que chegou: sendo um pato. E a culpa disso é minha porque não soube cuidar dele direito e assim transformá-lo em um cisne imperial. Antes que pudesse pensar em me desculpar, ele virou para mim e disse "desculpe a si mesmo, não me fez mal algum". O perguntei se ele tinha certeza e ele respondeu que "absolutamente" com seu sotaque frio desconhecido que tinha esquecido que tinha.

Me despi do preto. Percebi que a situação não requeria tão carga dramática, que no meu caso tinha ares canastrões que meus vinte e dois anos de teatro nunca conseguiram amenizar. Perguntei para o Primeiro pato se ele se sentia bem cuidado por mim nesses últimos quase três anos e ele disse que não tinha o que reclamar, "mas isso não é propriamente um elogio". Mal agradecido, terá que ficar ainda sete e farei tudo para não ir embora antes desse prazo. Tentarei de dar dias eternos. "Piegas e pretensioso", os dois gritaram em coro. Olhamos os três um para cara do outro e começamos a rir. Éramos três figuras felizes e patéticas.

Os dois pularam para cima dos meus ombros e me fizeram refletir em tudo que deveria fazer daqui em diante. Lógico que recusei, ainda sou quem manda. Eles gargalharam de mim de maneira desesperada,como se fossem se engolir e voltar a ser ovos. Ao perceberem minha cara de espanto, tal qual quando os ganhei de presente, eles resolveram parar. Então começaram a falar lordimente. O Primeiro pato disse tudo o que queria fazer durante a sua estadia, também aproveitou para me lembrar de tudo que o incomodava. O segundo disse que não ia perder tempo fazendo relatórios derradeiros, mas que iria atrelar algumas imposições a sua dizima volta. Foi meu momento de dar gargalhadas a ponto de me desmanchar. Eles entenderam que ninguém ali podia escolher nada.

Religiosamente às 4 horas e 10 minutos, ele se foi. Tentou se despedir, tentei dizer para ele ficar, tentamos fazer o que podia ser feito. Não fizemos mais nada. Brutalmente a mulher translúcida e rabiscada tirou o pato. Violentamente fiquei parado. Dessa vez ela não bateu à porta. Dessa vez ela também não riu, acho até que meio-chorou. Que ilusão a minha, ela deve ter segurado o riso, acostumada com a situação. Ela faz isso a cada minuto. Resolvi colocar o pato que restou para dormir, já era tarde e quero que ele seja lindo com morrer. Passamos pelo quarto principal ainda reservado para ave-rara que nunca apareceu. Ele pulou na sua cama e quando olhei para a outra que era do outro pato vi que ela já estava ocupada. Quem é você?, perguntei. E debaixo do lençol uma voz abafada respondeu: "por que a presa se você tem um ano para descobrir?"



por EU MESMO 4:10 AM
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[Quarta-feira, Agosto 17, 2005]

QUARTA-FEIRA (O ÚLTIMO DIA)

Era hora de arrumar as malas para ir embora, mas ele não as fez. Disse que me deixaria tudo de recordação, o que não fosse usado era para sr jogado fora. Agradeci. Perguntei se ele queria algo especial no último dia, ele só queria coca-cola. Achei que seria simples, mas não foi. Perguntei, o que mais ele iria querer. Ele disse que para ser feliz e viajasse sempre. Respondi, mais uma vez obrigado, mas só enquanto o outro pato estive comigo. Ele respondeu, que deveria não me atrelar a isso. Quando lhe dei a coca-cola, ele quis sorrir. Mas, acho que lembro que provavelmente seria seu último copo. Lembrei-lhe que não, que ele poderia ainda tomar muitos até as 4:10, o horário oficial de sua partida. Me perguntou o que iria fazer depois que ele fosse embora. Fingi, que não o ouvi, pois sabia que infelizmente nada iria mudar de imediato.



por EU MESMO 8:19 PM
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[Terça-feira, Agosto 16, 2005]

TERÇA-FEIRA (OS ÚLTIMOS DOIS DIAS)

Tentamos ao máximo não fazer aqueles balanços anuais, mas acabou sendo um pouco difícil. Na verdade, acabamos pro relembrar determinados momentos esféricos. Desde o começo quando eles ainda nem estavam comigo, foi bem divertido ver alguns comentários. O pato sentiu falta de muitas pessoas, até queria nomeá-las, mas lhe alertei que seria indelicado. As pessoas mudam ou acabam tendo uma vida compromissada o suficiente para nos abandonar. Sim, somos dramáticos. Melancólicos e nostálgicos, também. Só ainda não sei quem passou para quem essas características.



por EU MESMO 11:58 PM
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[Segunda-feira, Agosto 15, 2005]

SEGUNDA-FEIRA (OS ÚLTIMOS TRÊS DIAS)

Fomos dormir muito tarde ou melhor muito cedo. Estou de férias e ele em semana derradeira. Ou seja, temos que aproveitar. Além do mais começar a semana acordado é a melhor coisa que poderíamos fazer. Assim, como tomar atos inconseqüentes de faltar a compromissos. É bom, acordar tarde quando dorme às 8h da manhã. Parece até que esse pato vai ficar comigo sempre, na verdade vai em memória. Que coisa, não fizemos absolutamente nada de produtivo. E não há uma só pontinha de dor na consciência.



por EU MESMO 7:24 PM
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[Domingo, Agosto 14, 2005]

DOMINGO (OS ÚLTIMOS QUATRO DIAS)

Acordou muito tarde, era seu último primeiro dia da semana. Dia que ele gostava de nadar no lago do parque com os outros e com o outro da sua espécie. Hoje, preferiu ficar em casa. Não queria se molhar, até porque estava chovendo. Ele não gostava de quando isso acontecia, era um dia a menos na sua curta vida. Me pediu para não ficar fazendo balanço do ano, achava que seria melhor se fizesse perspectivas dos próximos dez. Recusei. Percebo que o outro pato não fala nada, como se não o afetasse. Ele não percebe que a morte do outro representa parte da sua. Dois décimos dele também morrem, e ele depois de morto nunca mais vai voltar. Afinal, quem vive mais de 122 anos?



por EU MESMO 6:14 PM
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[Sábado, Agosto 13, 2005]

SÁBADO (OS ÚLTIMOS CINCO DIAS)

Tinha certeza que jamais voltaria a ter a alegria de acordar num dia assim. Deu sorte, sol estava radiante e o céu azul. Sempre amou clichês, juntamente por ser um deles. Decidiu que acompanharia quem o convidasse, sem maiores restrições. Já estava preparando para não ter mais que suportar as tardes de sábado que sempre passou comigo e que juntos odiávamos. Isso pelo menos seria bom. Resolveu que iria aproveitar todos os grãos de areia desse dia e que ninguém iria atrapalhar seus planos, nem ele mesmo.



por EU MESMO 5:21 PM
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[Sexta-feira, Agosto 12, 2005]

SEXTA-FEIRA (OS ÚLTIMOS SEIS DIAS)

Quando ele se levantou do lugar onde habitualmente descansa reparou que parte de sua penugem tinha caído. Ignorou, terminou de se erguer. Sabia que o dia deveria ser aproveitado. Nesses, dias reparo que ele não conversa mais comigo. Como se essa fosse a forma de fazer que vá me acostumando com a idéia que em seis dias ele não esteja mais comigo. Assim, também permanece o "outro". Não fala nada, sabe que poderá ficar imóvel por mais 7 anos sem ser incomodado. Sorte a dele que ainda tem essa estabilidade. Sei que cada vez é mais triste perceber que eles terão que se separar e nunca mais, com toda a certeza, nunca mais vão se unir novamente. A não ser que acreditem em reencarnação, que no caso deve ser a minha.



por EU MESMO 6:12 AM
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[Quinta-feira, Agosto 11, 2005]

QUINTA-FEIRA (OS ÚLTIMOS SETE DIAS)

Agora, me preparando para ir dormir, olhei para ele e percebi que essa será a última quinta-feira que passaremos juntos. Acho que ele não percebeu isso ainda, se comporta como se fosse eterno na minha vida. Tudo bem, essa já é a 3ª visita de um ano que ele faz a mim. Mas, daqui em diante esperar 10 anos será cada vez mais decadente. É triste saber que não teria mais sua companhia cada vez que conhecer um novo amigo ou preencher uma nova ficha de inscrição. E saber que ele pode nunca voltar é pior. Não,pior é saber que se ele nunca mais voltar será sinal de minha inexistência. Infelizmente não posso prendê-lo aqui comigo por mais de uma semana senão alguéem morreria.



por EU MESMO 2:57 AM
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[Terça-feira, Agosto 02, 2005]

SUELLEN, A SUICIDA, E SUAS AMIGAS PUTAS

Começou no meretrício desde muito cedo. De pequena já freqüentava as matines dos cabarés da região. Se chamava Marieta dos Santos, mas mudou de nome. Nunca gostou, pois não pertencia a ninguém e além disso odiava a rima que aprendeu a usar com 16 anos. Rimava como poucas. Quando completou a idade necessária, 49 anos, sabia que era hora de profissionalizar. Não podia continuar naquela vida de amadora, sustentada pelos pais. Seus horizontes foram abertos, do seu novo quarto tinha visão para o mar. Era pequenuto, e dividia com algumas amigas-sabidas-putas-e-dissimuladas que sempre fazia questão de apresentar aos seus clientes ou as amigas-putas-burrescas-cansadas. Betina, era a da literatura, escritora de contos eróticos era especializada apimentar os romances de banca de revista com toques de zoofilia vegetariana. Rita, prendada que só lidava com a área da tecnologia. Era ela que trocava as lâmpadas e a botija de gás quando acabava. Kelly, assídua freqüentadora dos portos fluviais guaranis onde aprendeu línguas e libras. Paloma, tinha sotaque. Cinéfila, colecionava a obra completa de David Cardoso e Jece Valadão, de quem conseguiu um autografo após um culto de libertação pentecostal. Carmen, de criança aprendeu balé, jazz e street dance. Ganhou com a dança uma abertura de fazer inveja. É lógico, popular que era, Suellen tinha muito mais amigas além dessas. No dia em que foi convidada para sua primeira orgia, ficou radiante e fez cada uma delas prometer "incrementar a festa". Marcaram para MEIO-DIA, no Puteiro Top da cidade. Suellen foi vestida de noiva com o vestido que tinha pertencido a sua bisavó polaca. Foi recebida pela Cafetina-mor com um meio sorriso no rosto devido a um derrame no lado esquerdo, que Suellen interpretou com charme da idade. Sentou-se em uma poltrona romana imergida numa fonte borbulhante. Gargalhou enquanto esperava suas amigas atenciosas. Morreu sozinha, com a luz apagada.



por EU MESMO 10:15 PM
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[Segunda-feira, Agosto 01, 2005]



NUVENS DE AGOSTO

Ciclo que se fecha
Frio que se faz
Morte mais perto

Ano iniciado
Jubas atiçadas
Egocentrismo

Somas esdrúxulas
Letras juntadas
18 + 8 + 82 = - 23
Horizonte Incompleto

Círculos viciosos
Olheiras na cara
Aftas na boca
És m(eu).


............................................ 01/08/05 03:24 am

por EU MESMO 3:26 AM
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[Terça-feira, Julho 26, 2005]



DES-CONTO SEM MENTE

Dava para sentir cada gota da chuva que desabava terra acima. Cada uma delas percorria caminhos distintos : umas seguiam os sulcos produzidos pelas lacraias, formigas e até mesmo minhocas; outras preferiam o espaço deixado por alguma raiz axial arrancada após chuvas anteriores; já algumas se davam ao trabalho de abrir sua própria galeria. Enfim, todas tocavam sua face de cera; Assim, ela deixou de ser após o 6º temporal. Por fim, resto de carne e osso: o carnaval dos repugnantes repugnados (bactérias, coliformes, vermes britânicos e fungos sem pedigree). Já não conseguia perceber o sol que secavam lá em cima, nem a lua que refletia lá em cima, também e muito menos o vento refrescador. É verdade que ninguém notava as catarses que ocorriam lá em baixo. Nem mesmo as ervas daninhas e carnívoras que brotavam. Se fossem dormideiras daria no mesmo, assim se fossem tulipas negras azuis. Com isso não era de se estranhar que nem uma alma viva notou o germinamento daquele bebê de 5 anos de idade e vestido azul, amarelo e rosa que dizia: "E que reclamei do Monsenhor Franco-Belga-Platino, cá estou!".



por EU MESMO 11:35 PM
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[Terça-feira, Julho 12, 2005]

AGORA: O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? AHORA: LO QUE HACES? NOW: WHAT ARE YOU DOING? MAINTENANT, QU´EST-CE QUI TU FAIS?

Não, não é uma brincadeira. Não, não é falso eruditismo. Não, não é globalizado-boy. NÃO!!! É tédio, é tédio, é tédio. É, principalmente, todas as causas dele. É essa rádio australiana e sua locutora tossindo durante a música e o desconhecimento de tudo que ouço. Mas, é causa de ela estar ouvindo. É,as vinte pessoas mudas. É o beijo que reverbera, que reverbera, que reverbera...



por EU MESMO 4:14 PM
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[Terça-feira, Julho 05, 2005]

QUANDO (DESCOBRI QUE ERA TRISTE)

Não agüentava mais a mesmice da mesma situação de sempre. Não poderia viver com conformismo cômodo da inércia. Não deveria andar com a cara de Panda na jaula. Não ia ficar a vida inteira chorando no chão e sem saber que sabia o motivo então desconhecido. Podia fingir todos os dias na hora que fosse preciso. E assim, ter total certeza da condição a qual estaria confinado: a de ser triste. Como o fingimento não era requisitado em todas as horas da vida, reservei para as que sobravam a felicidade de se poder sonhar e lembrar do bom e de esquecer do pesadelo. Com isso dividiria o dia em manhãs azuis, entardeceres cinzas e noites brancas. Mas, não contava que teria insônia e assim o branco deixava de ser a mistura de todas as cores para ser a ausência de todas elas. Descobri que era triste. Pensei que poderia resolver a tristeza com chás pálidos de madrugada e pálpebras cerradas ao meio dia e meia. Tive a sensação que poderia inverter a ordem e classificar o caos. Porém, ninguém mais vivia nessa mesma dinâmica diária. Todas as pessoas resolveram seguir a sua própria ou foram determinadas a seguir as de terceiros. Assim as pessoas ou estão perpendiculares ou em diagonal ou por trás olhando por cima (ou para os lados). E como se não fosse suficiente, alguém dividiu todo mundo em pares e ímpares. Descobri que sempre seria ímpar: nas amizades (2+2+1), no prazer (à 3, 69) e no amor (1).



por EU MESMO 1:39 AM
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[Sábado, Junho 25, 2005]

XÍCARA , QUADRO TORTO, CANETAS E MÁSCARA DE GESSO

Todos os dias, quando me sento em frente a essa mesma tela que você me lê, vejo essa mesma cena, esses mesmos objetos. A xícara de porcelana roubada está vazia, sempre assim esteve desde que passou a ser minha. O quadro, lindo, muito lindo, continua sem sua moldura. As canetas, algumas escrevem e outras esburram tinta. E por fim, a máscara que eterniza meus 13 anos mais os 9 anos seguintes.

Objetos que além de contar suas histórias, também revelam um pouco da minha através do "em comum" que há neles: a ausência de parte, o complemento. O chá ou café da xícara, a parede do quadro, a escrita das canetas e o brilho de novidade da máscara que também perdeu parte de sua pintura. E no fim me perdi, sem saber quantos caracteres já gastei com esse assunto e sem saber quantos mais vou usar.

Aí me pergunto: Por que sempre vejo essa mesma cena? Deve ser porque não arrumo essa estante. Lógico que não, arrumo sempre. Mentira, no máximo troco a sujeira e a bagunça de lugar. Já nem tenho mais idéia de onde colocar as mesmas coisas. Talvez esteja na hora de me mudar de lugar, afinal de todos os objetos sou o único que realmente se move sozinho.



por EU MESMO 7:53 PM
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[Terça-feira, Junho 14, 2005]

AUJOURD'HUI

Queria estar grávida, na verdade pensava que tinha engravidado. Não seria o primeiro filho, mas talvez o mais planejado. Corri para a farmácia de tarde para comprar um desses exames instantâneos que mudam de cor. Estava super ansiosa, a ponto de pedir para usar o banheiro da drogaria. Era um exame moderno, feito com células raspadas dos dedos no lugar de urina. Deu negativo.

Voltei para casa trés desolé. Olhava para aquelas outras crianças e não sentia nenhum amor, nem carinho. Sim, era minhas crias, mas a mim só importava meu útero vazio. Estava frustrada, tinha certeza que estava prenha. Já estava pensando no enxoval, que dessa vez contaria com peças importadas (tenho uma amiga que mora no estrangeiro e que sempre volta para cá com algumas encomendas).

Imaginava-me com um barrigão desses bem pontudos e redondos, que todo mundo olha e pergunta "são gêmeos?". Já sentia os chutes, as cólicas e demais estados que só quem é mãe sente. Saber que nada ia crescer dentro de mim nos próximos 12 meses, me entristeceu. Tive vontade de fazer igual aquelas mulheres que deixam as crianças com a vizinha mais próxima e se trancam em um quarto de hotel para se matar. Só que as horas passam e o máximo que elas conseguem fazer é chorar.

Seria melhor ser uma mãe espartana, que pegava a prole defeituosa e a jogava fora em um abismo. Que vontade que me deu de arremessá-los todos, um a um. Mas, a idiota aqui nem ateniense consegue ser. Porém, a patética aqui, é uma "cretana" que prende os filhos no final do labirinto. É verdade, sempre fui uma péssima progenitora. Uma vaca que se achava loba! Uma piranha que se achava melhor que todas as outras, que levava na cara todo dia. E que tentava engravidar de todos que se aproximavam mim, só que piranhas igual a mim são estéreis.



por EU MESMO 11:44 PM
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[Quinta-feira, Junho 09, 2005]

D E S E N C O N T R A D O S



Pedaling trough the dark currents
I find an acucurate copy
A blueprint
Of the pleasure in me
(...)
I love him, I love him, I love him, I love him
This time ("She loves him, she loves him")
I'm gonna keep my all to myself
And he makes me want to hand myself over

Pagan Poetry, Björk


Uma mente vazia. Duas pessoas, três se contar comigo! Dois pares imaginários. Um coração que pulsa no vácuo. Duas pessoas sozinhas, oito se contar comigo. Um par possível! Cada um para o seu lado, mesmo quando vão na mesma direção. Finitas possibilidades de combinação, dependentes de uma compatibilidade que não existe. Duas pessoas merecem dois subtextos, enquanto uma escreve.

DESAMOR PLATÔNICO

Por que não te amo? Seria mais fácil. Seria mais seguro e conveniente. Nós dois estamos sozinhos e isso já basta. Mas, mesmo assim por que não te amo? Por que não é em você que sempre penso, mesmo pensando? Tá, sei que idealizo tudo, idealizei amigos, colegas, amores, paixões, a vida e muito mais a mim mesmo. Mas, no seu caso sei que a idealização não seria necessária. Você já é ideal. E quando falo ideal, não me refiro a perfeito. Amo saber que você é imperfeito. Acho que devíamos estar juntos há muito tempo, temos gostos parecidos, porém distintos. Assim como nós somos bem diferentes um do outro, mas sem sermos opostos. Sei que você já sabe metade dos meus defeitos, assim como conheço parte do seu. Quero maximizar meus defeitos contigo. Mas, apesar de tudo isso, não consigo te amar. tento, tento muito. Crio várias situações mentais e mesmo assim, não consigo conjugar o "nós" na plenitude. Sei, que estamos juntos por muitas horas, por muitos dias e pouca distância. Ainda não sei se nessas horas é que construo meu pensamento aqui ou se idealizo a idéia do amor, paixão pelo menos ou outro sentimento interessante que leve... E por fim, sei que isso pode ser só o início.

PSEUDO PAIXONITE

Como tenho medo de gostar de você acima do permitido, do possível. Será que você tem noção? Acho que não. Se tivesse, não seria tão involuntariamente galante. Não chegaria tão perto do meu pescoço, e logo da minha boca. Com certeza não agiria de forma tão romântica e não me seria tão sensual. Se no fundo imaginasse a posição que imagino de você ao meu lado, não me daria a chance de te ver sem essa convenção social chamada moda. Acho, que nem se lembrava disso, mas não esqueço. Minha memória é boa de um modo geral, de moda visual retaguarda. Queria você, isso é simples. Mas, não é todo dia. Só nas horas em que você me protege daquilo que seria minha personalidade, sendo comigo o inverso do que sou. Como gosto de você, mas como tenho medo de isso sair do controle. Acho que já percebeu que gosto de ficar por cima, mesmo que sentimentalmente estou sempre no fundo... Queria muito que isso aqui fosse o fim.



por EU MESMO 2:21 AM
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[Terça-feira, Maio 31, 2005]

YO, YO Y YO

Antes de mais nada, "Yo" não sou "Yo", e sim qualquer pessoa que seja "vos"!

YO Y MI NARIZ RETILINEO

Como se o que há de mais belo no lugar assim me comporto. Meu olhar dos meus olhos verdes não se foca em nada, pois não há ninguém a altura dele. Meu nariz reto e afilado mostra porque posso levantá-lo. Por favor, não chegue muito perto de mim, não sou do tipo que gosta de se misturar. Minha pontuação é baixa, mas acha que me importo com isso? Não, não tente chamar minha atenção. Tenho o espelho e isso é o suficiente.

YO Y MI POCHETE
Sim, sou um belo exemplar da raça humana. Meu ar físico escandinavo contrasta com o toque brejeiro que de mim toma conta. Sou meio fechado, provavelmente não ouviu minha voz e nem deve ter sentido meu olhar azul, muito azul. Não mostro do que gosto, mas você deve saber. No mínimo deve tentar. Desculpe, por não me ligar muito com coisas pequenas no meu visual, deve ser por isso que nunca ando sem minha pochete na cintura.

YO Y TODOS LOS HOMBRES QUE PUDE
Tenho uma vida, digamos, livre. Faço o que me der na telha. Se marcar, beijo mesmo. E se for bom, não paro por aí. Se não for, não parado mesmo jeito. Gosto de compartilhar, mas nem todo mundo me entende. Sei que todo mundo quer me ter, me ter e me ter, gosto disso. E quem não gosta? Não curto muito água pura,
apesar de gostar de passar o rodo. Há há há há! Nem deveria estar aqui, mas garanto que estou aproveitando tudo o que posso. Me integro mesmo! Tenho memória fraca para nomes, números e otras cositas más.

YO, YO MISMO Y ELLA
Na verdade, sou um. Mas, pensam que sou dois. Na verdade, sou. Mas, pensam que ele é. Claro, ele é ele. E daí? Ela é minha, mas pensam que não. Ela é dele, mas pensam que é mais. Nós somos dois, mas insistem que somos um. Ela sabe nos diferenciar como ninguém, se não soubesse teríamos problemas.

YO, IL ET MÁ BLUSA ROUGE
Vamos às festas juntos, pulamos as musicas juntos, freqüentamos o mesmo restaurante universitário juntos e sentamos¿ na mesma mesa. Minha pele é claro, meus olhos não deixei você ver que cor era. Ficou obscuro se ele era ou se não era... amigo ou seja lá o que pode ser. Meu rosto é bonito, parece comigo. Vou deixar saudades? Quem sabe a gente não se veja mais!

YO MISMO Y LOS OTROS
Quis fugir, mas não conseguiu. Ganhei um gateau, mas não compartilhei. Nem mesmo com quem me deu ele. E isso foi um ato de educação, pode crer. Senti frio, mesmo que tivesse muito calor. De hot só mesmo o dog, que nem era muito bom. Briguei internamente com todos os chatos e mesmo assim todos quiseram ser meus amigos. Resolvi me juntar a eles a distancia, sendo dois graus mais ainda. Me molhei e fui molhado. Não, nós não nos molhamos. Que cidade pequena, conservadora e pacata demais para mim que sou tímido.



por EU MESMO 10:55 PM
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[Terça-feira, Maio 24, 2005]

ACIMA DO BEM, ACIMA DO MAL... E DO LADO: NINGUÉM!

Transitar pelas ruas, pelas linhas telefônicas ou pelo bytes da Internet nos deixa vulneráveis a encontrar todo tipo de pessoas, idéias e posturas. Até ai nada de novo, mas de todos esses muitos tipos um me chama a atenção atualmente: Os Soberbos, pessoas que se acham acima do bem e do mal, mas na verdade estão abaixo dos dois. Deve ser muito difícil para elas ficar nessa condição, pois todo mundo sabe que elas são uma mentira mal-sucedida.

Elas não perdem o time da interpretação, mentem que nem sentem.... Mas que pena: todo mundo sabe disso. Ao contrário dos que dominam a arte do blefe, essas não conseguem enganar ninguém (só elas ou quem for pior que elas. Mas, quem é pior que elas é alguém?). Como já falaram que uma mentira contada umas mil vezes se torna verdade... Será que o inverso também é proporcional???(várias interrogações...)

Encontrei com um bom exemplar de soberbo, há semanas atrás. Porém em uma situação não favorável e com isso em estado normal de postura "humilde". Esse comportamento era explicado pela ausência de sua máscara adorniana. E sem ela o que resta é a verdade nebulosa, já que embriões de mentiras sempre são gerados. A gestação desses pode durar meses ou anos, só que grande parte dos embriões acabam sendo abortados. Uns são espontâneos, mas outros são por curetagem forçada!

Para um soberbo nada pior que isso um aborto induzido. É quando você chega para ele é diz: "Acorda! Sei que você está mentindo,afinal a vida de ninguém muda completamente em duas semanas!". Pelo menos em um ciclo de vida normal e comum. E mesmo que você aponte todas as contradições e elos perdidos, ela insiste em manter a pose de morador perpétuo do Olimpo. Porém, acreditem tem gente pior. São aquelas que nem classe e postura soberba tem e ainda insistem em assim ser!

Coitadas, essas sofrem! Apanham de todos os lados: dos soberbos, dos blefantes, dos esféricos, dos ultra-jovens e de quem mais estiver passando (Oba! Vou bater também!). Elas apesar de visitarem o pessoal do monte ateniense, têm que voltar sozinhas para seu hades particular. Do seu lado, nem mesmo uma ave de rapina ávida por seu fígado (falcões e águias são tão espertos...). Uma coisa ninguém pode tirar delas: o doce sabor de saber quem são, pois se não enganam ninguém, elas também não se enganam.

Voltando aos soberbos: Ordens de despejo chegam em todos os lugares. Elas sabem disso, e sempre mantêm contatos (por mais minguados que sejam) para no dia que isso acontecer elas terem para onde ir. Mas, vocês acreditam que mesmo na condição de desabrigadas elas não perdem a posse? Pois é, há pessoas assim, muita gente assim!!!



por EU MESMO 10:28 PM
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[Terça-feira, Maio 17, 2005]

SO(M)BRAS DA NOITE: YO Y LAS CUCARACHAS

"Na madruga boladona,
sentada na esquina,
esperando tu passar altas horas da matina.
Com o esquema todo armado esperando tu chegar.
Pra balançar o seu coreto,
pra você de mim lembrar!"


Poetisa:Taty Q.B


Antes de tudo, um esclarecimento. Sei que você tem medo de baratas e que uma das poucas coisas que sabe falar é "barata e mate, a barata!". Mas, também sei que você não lê isso aqui. Se por ventura aqui parar, saiba esse texto não é sobre e nem para você. O "você" que usarei aqui não será você, muito menos "vos". Dito isso posso começar.

São muitas as loucuras que fazemos diariamente, talvez a maior delas seja viver. Como não quero servir de pretexto para suicídios em massa (a massa aqui seria a meia dúzia que me lê, mas deixa estar). Como na manhã o sol insiste em nos atazanar com a claridade, sobra para a noite ser o cenário das nossas maiores peripécias.

É nessa parte do dia que muitos se despem de suas mentiras e saem por ai de cara limpa. Já te conhecia antes, mas não sabia que estava de máscara. Na verdade desconfiei. Só que como você não faz parte da minha rotina, deixei para lá. Agora, olha quem vejo em minha frente: você. E o mais engraçado é que na sua frente existe outra pessoa, que faz você pensar que me vê. Nossa, essa história está cheia de mentirosos.

Pois é, saiba que também sou mais um deles. E talvez, o mais profissional ou mais descarado. Deixo ao seu critério. Porém, se sua reação ao descobrir isso seja (ou será) de surpresa. A minha foi de rir muito ao ler como mente mal, pois do que adianta falar que a sua Vogue foi brinde de Playboy está na escrito sua cara de forma tão mal feita como o trocadilho anterior.

E assim, me alegro com confirmação de um mundo de possibilidades que sempre pensei que existisse na minha imaginação. Te aprecio também, por me mostrar que a verdade muitas vezes pode ser a forma mais pura da hipocrisia. Pena que só percebi isso depois, quando não tinha ninguém para compartilhar, uma que era muito tarde, deveria estar na minha cama dormindo e não na rua tropeçando em soturnas baratas. O que será que elas pensam sobre isso?




por EU MESMO 2:53 PM
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[Sábado, Maio 07, 2005]

O CASO DA ARANHA BOXER

É verdade, ele estava entediado. Depois de um mês corrido, o marasmo soava estraño por demais. Acordar com dores no corpo de tanto dormir, passou a ser rotina. Assistir televisão à tarde se mostrava um mundo de programas inusitados e desconhecidos. E não é que ele gostou! Descobriu que o canal de esporte era ideal para um sedentário e uma sessão de Ultimate Fight era ideal para os seus 68 quilos. Agora, não perderia nenhuma luta desde que estivesse em casa.

É mentira que ele tenha arranjado algo melhor para fazer. Com a rotina de volta, resolveu ir ao cinema. Foi pontualmente adiantado ao comprar seu ingresso, sua pena seria esperar. Um néctar negro em uma mão, um básico livro de sempre na outra e assim assistia a televisão que ali estava ligada no jornal. É piegas, mas o livro venceu! Mudança de lugar, um banco de mármore com vista para fora era perfeito. Entonces, aparece ela: a aranha que nada tinha haver com nada.

Talvez, ele a tenha ignorado. Talvez, fingido. Enfim, olhou para ela com olhar desafiador "se manda, não tá vendo que estou lendo?" e ela respondeu com indiferença "alô, essa vidraça é minha!". E a aranha continuou seu trajeto em direção a ele, mas parou um pouco para descansar. Enquanto isso, um casal infanto-juvenil adolescente sentou no banco. Beijo aqui, língua ali. "Mas que feridas são essas na cara desse garoto?!". E como prova de amor ou falta do que fazer a menina começou a tirar umas casquinhas do seu namorado, ou melhor das feridas secas do rosto dele. "Arghhhhhh!", pensou a aranha.

De volta ao duelo. Descansada e um pouco atordoada com a cena, a aranha resolveu voltar a caminhar em direção a ele que lia com um olho, pois o outro mirava a aracnídea abusada. Como percebeu que ela não tinha limites, resolveu ameaçá-la empunhando o livro. Ela chegou mais perto, olhou bem para ele, levantou como um boxer suas duas patas dianteiras alternando as para frente e para trás. "Vem, cai dentro. Acha que esse monte de papel me poe medo?". E lá estava aquele 1 centímetro de pura audácia parado em tom desafiador.

Claro, que ele poderia ter esmagado a aranha com o livro ou fazer ela voar para bem longe com um assopro mais forte. Mas, como desprezar aquela que se fosse gente com certeza estaria em um ringue de Vale-Tudo? Jamais! Faltava poucos minutos para o começo do filme (ironicamente, Menina de Ouro) e os dois ainda ali estavam parados. E por fim: "Olha só, você está a fim de assistir o filme comigo?". "Ah sei lá, tipo assim cara, não sei...". Blaft! (som do livro esmagando a aranha) "Ah! Não tenho paciência com aranha se fazendo de difícil, se ainda fosse sapo até dava um beijo!".



por EU MESMO 12:29 AM
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[Domingo, Abril 24, 2005]

BRINQUEDO ALHEIO

Resolvi escrever enquanto esperava, junto com meus amigos patos, o meu jantar. Ao fundo muita gente, ao som de qualquer uma dessas músicas "voz e violão" que tanto detesto. Pensei em escrever para passar o tempo e para ajudar a matar a fome. Na verdade parte dela que em suas inúmeras subdivisões se refere ao estômago. Decidi que não poderia deixar passar em branco o momento, os acontecimentos. Muita coisa precisa ser dita e algumas serem sentidos. Seja de forma natural ou forçada. Coisas do tipo: leque de opções reduzido. Meu jantar chegou, em pouco tempo à fome conjugou um verbo antônimo.

Nada mudou aqui desde a última vez em que fui pessimamente atendido. Sim, confesso que só escrevo para passar meu tempo, para aproveitar essa meia hora que deverei esperar sozinho pelo último ônibus. Mas, não faz muito efeito, pois não me concentro nem na escrita, apenas na espera. Não, não sei para quem escrevo se é para você ou para mim mesmo. É insuportável não saber quem, tal qual a não ciência sobre o futuro. Por que o presente sempre me prende em sua órbita?

......................................... (Janeiro de 2005)



por EU MESMO 1:12 AM
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[Segunda-feira, Abril 11, 2005]

O PRIMEIRO PATO ESFÉRICO

Texto comemorativo pelos dois anos da Esfera dos Intocáveis

Aconteceu de estar sentado sem nada fazer, parado ou quase isso. De repente ouviu muitos quá-quá quá-quá quá-quá (o som que dizem que os patos fazem), me espantei e pensei que alguma estava acontecendo com meus dois efêmeros patos obrigatórios de estimação. Enquanto procura a causa do quá-quar deles, percebi que tinha entre eles um barulho diferente. Tinha um quá-quar juvenil, que há mais de 20 anos não ouvia. Então, os achei alegres na companhia de um patinho novo com poucas penas e que te cara deixou claro que não tinha que me agradar, pois não era meu.

Quando a folha do calendário foi trocada, percebi mais uma vez que meu egocentrismo se fez presente. Como sempre acontece esqueci de mais um aniversário que não era o meu. Não é proposital, nem mesmo descaso, mas nunca lembro de aniversários alheios. Não é por memória fraca, quem me conhece sabe que tenho uma boa. Não é por falta de analogias, tipo cada vez que olho o relógio às 18:08, sei a data que nasci. Enfim, esqueci que hoje a Esfera dos Intocáveis faz 2 anos.

E assim, me vi obrigado a correr para preparar algo, alguma coisa, sei lá o que marcasse a chegada de mais um membro para essa fauna estranha que vive impregnada em mim. Fui a uma pequena mercearia de numerosas estantes e entre as prateleiras percebi idéias escondidas, palavras deslocadas e danificadas, lançamentos de outra hora e defasagens atuais. Deu para ver que a medida que avancei entre os departamentos que pareciam pequenos, lês iam se alongando. Mas, muitos deles acabaram em paredes ou em cantos escuros (que bom que muitos terminaram em cantos escuros!).

No momento que passei para seção de frios e congelados, percebi que a fumacinha dos graus abaixo de zero deram lugar ao vapor da ebulição. E mesmo assim, senti frio. E foi um total estranhamento e fascínio por tudo que sempre esteve ali e nunca percebi, e pelas coisas foram postas. Com o carrinho corria pelo supermercado com medo, mas curiosidade de ver tudo que ali estava exposto. Corria como Andrés corria em Abrazo Partido, por motivos superficialmente distintos. Corri tanto, tanto que sai de dentro da mercearia. Cansado parei em frente para respirar, olhei para a fachada e vi que estava na mercearia errada. Só nisso percebi que carreguei comigo para fora verdades e ilusões não pagas.



por EU MESMO 6:41 PM
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[Quinta-feira, Março 31, 2005]

O ESPIÃO QUE FICOU NO FRIO

Na verdade, não tinha muita certeza do que iria fazer ali. Depois de 3 anos de dedicação e trapaça, acabava de ganhar o livre acesso às instalações restritas a mais pura das castas: a das Najas Sisudas que tudo vêem, ouvem e falam (tudo podem). Não lhe importava o trabalho era verdade, o importante era poder rastejar naquele espaço. E assim fazia todo dia e lá encontrava outros em mesma situação.

O que antes parecia ser um objetivo, se tornou uma atividade enfadonha. Do que adiantava freqüentar o famoso CIIO - Centro de Informação e Informantes Oficial, se isso era o que menos tinha ? O pior é que muitos ali, por medida de segurança, não falavam a mesma língua. O jogo era descobrir qual era o idioma do outro. Não se poderia errar, se isso acontecesse na mesma hora seria jogado na vala comum.

Preferiu, nunca falar. Passou a freqüentar os horários da madrugada, pois era mais vazio, logo menos arriscado já que sabia que não tinha patente suficiente para tal título. Era uma madrugada típica de verão, onde a temperatura deveria ser domada com fortes golpes de ar condicionado, quando decidiu se refugiar no CIIO. Quando entrou foi hipnotizado por uma imagem inédita em seu arsenal visual: lindas olheiras sedutoras.

Agora não comandava mais seu olhar, pois esse estava preso àquelas olheiras e descrevia em pensamento "cada detalhe (que a acompanhava)... os cabelos desgrenhados simulando um retrô moicano à la metro-english, a maneira sutil de digitar, as havaianas vermelhas, o estilo alternativo sujo, mas nem tanto, as pernas cruzadas em baixo da cadeira, a fitinhas no pulso e o lápis na delicada bolsa, os olhos cerrados no que faz". Sabia que não tem a menor condição de puxar assunto ou reciprocidade.

Desde esse momento, seu único objetivo era se juntar às olheiras a ponto de não vê-las por perda de foco ou fechamento dos olhos e abertura... Passou a ter um motivo para exercer seu cargo. Fez de todas as oportunidades, coincidências e das coincidências, oportunidades. Tempo perdido, nem olhos e muito menos, olheiras lhe dedicavam atenção. Os dias iam passando, as olheiras estavam para ir embora. Começava a desistir e decidiu se transferir de cidade, iria para uma próxima das olheiras (uma lastima não ser a mesma, pensou).

Antes de ir, tentaria artimanhas mais audaciosas. Uma delas seria no dia em que deuses Afro-Iberico-Hindus-Caucassianos se reuniram para discursar para aqueles que pertenciam a casta, em um forte Católico. Lá, ao ver aquele par de manchas lívidas, resolveu lhe escrever uma declaração. Sem caneta, resolveu usar as abelhas que sobrevoavam as latas de lixo. E redigiu:

"Não é possível fazer mais nada que seja diferente de olhar para você e perder em cada detalhe que te compõe: seus olhos claros, sua boca perfeita, seus cabelos desgrenhadamente naturais e seu retilíneo nariz. Não é possível ignorar sua presença, ela invade todo o ambiente como se fosse a única coisa que aqui importasse. E assim entra no mesmo patamar que Shiva, Kali, Xangô e tantos outros. Provavelmente, não compreenderá o que e porque escrevo. Tudo bem, o fato de com esse papel estar já é o suficiente. Abrazos"

Estava pensando qual seria a melhor maneira de enviar o escrito, pessoalmente ainda não se sentia preparado para tal coisa e precisaria de um mensageiro. Mas, ali não encontraria nenhum, afinal era um Grande Encontro metafísico e não clube do flerte. Além, disso seu despreparo poderia vir à tona com essa atitude, já que uma Naja Sisuda não demonstra sentimento para outra. Guardou a carta e foi embora.

No CIIO, encontrou mais uma vez com as olheiras. Era o último dia deles lá, assim tinha que de alguma maneira marcar presença ou pelo menos um contato conseguir. Foi atrás de intermediários, pessoas próximas, interpretações cênicas, telefonemas para o silêncio ou toques altos. Não, não funcionou. O máximo que conseguiu foi uma rápida olhada "o que é isso?" e mais nada. Lógico que aproveitou para devolver o olhar e ver o que as olheiras faziam.Viu que enviavam sigilosas informações pela rede e junto o endereço de uma janela. Seria essa, o intermédio, o mensageiro que tanto buscava.

Só precisava agora, pegar o endereço e entrar por ela. Assim que as olheiras se foram, rastejou em seu rastro e como um hacker espião, levantou todas as informações que precisava. Conseguiu todos os dados: nome, idade, base de apoio, enfim a ficha completa. Surtou de felicidade, se sentiu o agente da KGB ao descobrir informações de um embaixador yakee. Era tamanha felicidade que na primeira oportunidade foi até seu "desejo", chegou bem perto ironicamente olhando nos olhos e vendo as lindas sedutoras olheiras e disse: "hay alguien?". Ouviu como resposta: "eu!". Ficou mudo, ficaram mudos.



por EU MESMO 11:18 AM
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[Terça-feira, Março 01, 2005]

BUENOS AIRES: SANTA FÉ Y PUEYRREDON

- ¿O que queres?
- Una milanesa napolitana com papas, por favor.
- ¿Y para beber?
- Nada.


Por meio de carros, vozes, placas e judeus, caminha ele sem muito que fazer a não ser esperar. Parado sem tempo e com fome, só restava a ele relembrar. Entusiasmado, entrou no restaurante atrativamente mais barato e começou a lhe escrever:

Não sei como começar a escrever tudo que senti, tudo que passei e me fez ter o que quero há muito tempo. Às vezes, tenho dúvida se devo escrever sobre algo que deveria ficar restrito a nós dois, mas creio que essa seja a melhor forma de cristalizar todas as lembranças ainda recentes em minha memória e corpo.

E juntarei às minhas lembranças, a meia luna, o mate e a coca-cola no desayuno. Sempre será assim cada vez que ouvir "South Side" ou aquela musica do Cranberries que não sei o nome, mas lembra a letra das legendas em espanhol que vinham junto com o clipe.

Não esquecerei a redundância de ter sonhado com você com você. Mas, pela primeira a realidade foi mais feliz.

Não tem como esquecer quando aprendemos como era cada parte do corpo alheio na língua do outro. Como queria que você soubesse português para poder ler isso, como queria saber espanhol para poder lhe escrever isso. Acredito que seria possível a total compreensão, afinal por um momento fomos um só corpo, quer dizer em muitos momentos.

É claro que queria que fossemos também uma só alma, mas nem sempre temos tudo o que queremos. Mesmo que muitas vezes, temos mais do que pedimos e também de que necessitamos. Ainda não sei qual é meu caso...


- Permizo, tuya comida.
- Gracias

Antes que terminasse, ou melhor antes que começasse, foi interrompido. Não saberia quando, como, onde e se deveria terminar a escrever. Mas tinha total certeza que de iria continuar. Talvez em outro cenário. Enquanto comia olhava para rua, olhava para os judeus estranhamente normais que passavam, olhava para ele passando por ali horas antes. Na verdade, ele só prestava atenção no que era, no que tinha deixado de ser e não sentia falta.


Bs As, 10 de Fevereiro (Orange Town,1º de Março de 2005)

por EU MESMO 9:22 PM
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[Terça-feira, Fevereiro 22, 2005]



BUENOS AIRES: CORDOBA Y PALESTINA

Tornou se impossível conviver com essa dubialidade que se faz presente em minha frente. Nunca sei quais as melhores atitudes que devo tomar nessas horas. Na verdade nunca sei o que fazer, nem mesmo o errado.

A verdade que agora faço a ultima coisa que esperariam que fizesse. Ainda mais nessa luz "re linda". Com esse som tão familiar. E agora, outra vez parei para escrever para alguém que tenho certeza não existir na realidade da mesma forma intensa que vive em mim.

Do tempo que passou, desde que isso comecei, a ambigüidade se foi. Resta apenas, ah não resta nada. Ainda há tudo!

(Buenos Aires, 07 de Fevereiro de 2005)




BUENOS AIRES: PLAZA SAN MARTIN

O vento assopra atrás de mim e me lembra um pouco o mar que aqui inexiste. Estou sentado agora sobre um pequeno monte onde se ergue uma praça e de onde surge uma "ciudad". Estou parado, ouvindo... carros, personas e a mim mesmo. Tenho vontade de deitar na grama como as outras pessoas fazem nesse horário de almoço. Sinto sede, um pouco de fome e nenhuma inspiração.

Poderia escrever sobre a noite de ontem, mas por que perder tempo em dizer banalidades que acontecem em qualquer lugar? Talvez, deveria dizer o quanto me sinto bem nessa posição em que estou sozinho, escrevendo e sentindo uma brisa. Uma cena poética senão fossem esses dois que se empanturram com descomunais sanduíches, senão fossem esses carros ao meu lado e esse cachorro gigante que late.

Sendo hoje quarta de cinzas, seria o momento de me recriar enquanto figura de viajante. Afinal, tenho pouco menos de 3 dias e a vontade de preencher alguns anos neles. Na verdade, que transbordar anos e assim adquirir uma espessa capa de gordura para meus anos de hibernação. Porém, se conseguir mais coisas nesses anos ou ficarei obeso ou terei que fazer em dobro tudo de bom que queima o que sobra.

(Buenos Aires, 09 de Fevereiro de 2005)


por EU MESMO 12:36 AM
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[Terça-feira, Fevereiro 15, 2005]

SAUDADES, EXTRAÑEZAS E CARNAVAL

Poderia começar de várias formas. São tantas coisas, da vontade de contar tudo e também de não dizer nada. Não sei mesmo qual a melhor maneira de iniciar meus escritos sobre tudo que me aconteceu, que deixou de e que conseqüências vai trazer. Um pouco de receio de falar todos os pontos e experiências. Enfim, o que resta na mente é um caos de recordações em imagens, sons e cheiros

É complicado querer descrever o que se passou. Não consigo passear na linha tênue que separa a superficialidade e o realismo em excesso. Ou é uma coisa, ou é a outra. No máximo os dois, jamais um meio termo. E nessa indefinição poderia ficar até os milhares caracteres que são muito mais lindos nesse teclado em português. Poderia ficar aqui horas digitando tils (~) e tudo mais que não me foi tão acessível.

Só que tenho mais o que fazer. Por mais que o meu tempo parou quando vi o Palácio Salvo, o Prata Porteño e Você, a vida cronologicamente falando me atropelava na ausência. Ainda nem sei em que estado me encontro. Até agora, sou um resquício cansado, uma mala pesada e milhares de roupas sujas. Não queria lavar muitas delas.



por EU MESMO 7:26 AM
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[Domingo, Fevereiro 06, 2005]

REFLEXÃO OU AVALIAÇÃO: QUAL A SUA NOTA?

Qual livro você vai ler assim que desligar sua televisão? O indicado por aquele programa que você assiste todo dia ou o que está na moda mesmo? Qual a brincadeira, brinquedos e atividade afins, seu filho vai fazer quando o desenho parar de passar? Será que vai ser uma das muitas que você na idade dele brincava ou ele vai tentar chegar ao "Final stage" daquele game dos mesmos bichinhos simpáticos, cujas figuras enfeitam cadernos, mochilas e uma criança inteira?

Será que desligar o aparelho televisivo é suficiente para se desligar (da) a televisão? Fico com a tela preta, mas com a mente colorida por todas as idéias que sistematicamente me são "dadas", e vendidas por mais de 15 minutos. São os "cuentos" de fadas renegados por Ignácio Ramenot, na esfera da cultura de massas que nós fazemos parte. É o mundo e a cultura do faz-de-conta realista. Enfim, é a antítese contemporânea.

As duas iniciativas das emissoras de TV (MTV e Nicklodeom) servem para exemplificar a participação da mídia no nosso cotidiano. Afinal, elas agora dizem que há outras coisas a se fazer. Aí você desliga? Melhor não, melhor é deixar o zumbido e a ausência de imagem e assim perceber que se trata da mesma coisa da "nossa programação normal". E se a campanha fosse: "Não ligue a televisão e vá ler um livro?" Acho que essa vinheta seria taxada de meio radical.

Deixando a televisão de lado (como ela mesma sugere), temos que refletir sobre a real participação midiática na construção ou manutenção de ideologias e sistemas. Mas, não uma reflexão maniqueísta do bom e do mau veículo. Tem que ser mais que isso, pois apesar dos avanços tecnológicos, o ser humano ainda é o emissor e também quem recebe. E assim não dá para dividirmos o mundo em mocinhos e vilões, já que o papel exercido depende da ótica de quem assiste. O que não podemos deixar passar despercebido é o fato de sermos o que querem que nós sejamos, mesmo que com o falho discurso de que "você escolhe!". Sim, por que nesse mesmo discurso acabamos ficando cada vez mais passivos em nossa própria vida. Não podemos acreditar que "poder" sobre a mídia é o fato de optar por um ou outro produto.

É claro que tem que haver a ciência de que na cultura de massas, algumas idéias não são "massificadas" , com a mesma licença da redundância. Por mais que pareça o contrário, cada vez mais recebemos informações que nos façam pensar sobre a nossa realidade. O que temos é uma enxurrada de imagens, sons, números e demais signos que levam cada um de nós a crer que somos informados. E com isso idealizamos realidades que já mais serão vividas, quando percebemos isso ou nos deprimimos ou passamos a projetar em terceiros os nossos sonhos. Ou seja, estaríamos usando mecanismos de alienação que são retratados por Edgar Morin (no livro Neurose). Assim abandonamos cada vez mais o subjetivo em troca de formulas prontas e descartáveis. E se Andrés Fava, personagem criado por Julio Cortazar, trocava os nomes das pessoas e animais assim que a "validade" destes vencia, hoje trocamos de identidade ou seguindo a lógica da passividade, trocam a nossa identidade. E por mais que possa parecer indeterminado o sujeito, ele é exatamente quem detem os poderes midiáticos e econômicos/financeiros que hoje conseguem ofuscar o poder político (ou ressaltar).

"Metalinguiagicamente", só podemos chegar a conclusão de que apesar de que apesar de tudo parecer caótico e sem sentido sempre há um intenção, um interesse embutido em tudo. E da mesma forma que Charles Melman aponta que o sexo se banalizou, percebemos que nós nos banalizamos como todo (sociedade, classe etc), ou fomos banalizados. Mas até quando a passividade é usada contra nós e não por nós, por preguiça, comodismo de achar que temos que sempre fazer o que nos mandam?



por EU MESMO 8:26 PM
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[Quarta-feira, Janeiro 26, 2005]

CORPO VAZADO

I jumped in the river and what did I see? / black-eyed angels swimming with me / a moon full of stars and astral cars / all the figures I used to see/ all my lovers were there with me/all my past and futures
and we all went to heaven in a little row boat
Pyramind Song, Radiohead




Era o mar, em meu ouvido ela sussurrava: "state of emergency/how beautiful to be". Nos meus olhos via aquela mulher rasgando seu peito e mostrando a todos o que ela guardava em si. Diferente dela o estado não é bonito, diferente dela dentre de mim ainda tem espaço, o seu espaço. Você nem sabe, mas reservei-o para ti. E não se espante, pois o interior de um Iceberg nem sempre está abaixo de zero.

Era o cio, no seu corpo meu pensamento deslizava "so knives out/catch the mouse". Em cada parte dele, os reflexos de luz guiavam a dilatação da minha íris, em algumas partes ela se abriu bastante. Se olhasse para mim, veria a minha mente por completa. Com medo fechei os olhos. E assim você veio até mim. Sentia você ironicamente ao meu lado, a minha frente, dentro dos túneis que correm em meus braços e por todo o corpo.

Agora estamos face à não-face: um ávido por e o que não foi vendido. Terei que abrir meus olhos, terei que dissimular. E você só terá que continuar a ser quem é. Estou com medo, receio de um impasse. Do tipo quando um para na frente do outro e os dois querem seguir em frente, mas ninguém quer mudar de orientação. Se quando abrir meus olhos isso acontecer, pode passar por mim quando rasgar meu peito, pois o vácuo dentro dela tem a sua exata dimensão.


por EU MESMO 8:49 AM
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[Terça-feira, Janeiro 18, 2005]

LE PREMIER (INTO MESSENGER)


"(...) - No queres venir solo?
- No, tengo miedo de venir solo
- Por? vas a estar conmigo lindo
- Es un otro pais, es un otro idioma... caso yo tenga problemas mi casa es lejo
- Dale! Estas conmigo te cuido, te protego. Te beso. Te hago el amor ;)
- Re lindo!!!
- :D Vos me haces el amor. Queres? (...)"



Era véspera de ano novo, mais uma vez. Fazia um ano que estava sem um quarto dos meus genes. Estava só, sozinho... Nada melhor nesses momentos que vagar pela noite. Na verdade faço isso, todos os dias. Na poderia imaginar que seria diferente. Mas, foi e está sendo. Pelo menos a forma, talvez o conteúdo. Em menos de 25 horas os fogos estariam estourando nos céus daí, uma hora após aqui só restar fumaça, cacos de garrafas e fantasmas transeuntes pelo calçadão e pela areia da praia.

HABLAS PORTUGUÉS? Perguntei como se falasse castellano. Você me respondeu que não, apenas francês e um pouco de inglês. Por um momento essa resposta poderia ser minha se o "pouco" viesse escrito antes dos dois idiomas. Para (me) mostrar isso tive que iniciar o que seria o primeiro dos diálogos confusamente multi-idiomáticos. E o pior que a gente sempre se entendia e achava um máximo nossas supostas inteligências. Muita seda é rasgada quando se quer um lençol de algodão barato sob nosso corpo.

Y QUE GUSTA HACER? Quantas vezes já ouvi essa pergunta, tão simples e tão cretina. Seu dúbio sentido foi dissecado e duplamente respondido. E se tornou uma deixa para mais uma vez colocar a erudição uma do outro. Gosto de ler, de ouvir música, de conversar e viajar; et toi? Lo mismo; que lees, que musica? Outra pergunta simples que poderia desmontar a resposta clichê anterior, se a mesma assim fosse. Estou lendo muita coisa (e realmente estava, como continuo), por acaso (entre elas) Julio Cortázar. Muy Bien. Poderia ter dito que tinha acabado de ler um outro livro que me fez senti Irmã Dulce de Calcutá e Cia. E com isso revelar o quanto ainda sou católico e freudiano se comparado a "Henrique". E se do outro lado da janela, tinha dúvida sobre a autenticidade de minha resposta, mostrei que pelo menos poderia blefar (mas dessa vez, não estava). Quanto a música: Radiohead, Björk, Massive Attack, Portishead etc. Estou começando a ler o terceiro livro do Cortazar (afinal, queria enfatizar que era verdade). Cual es?(...)

OK... HABLEMOS DE OTRAS COSAS SI? E o que seriam essas outras coisas. Além das mesmas amenidades. O que faz no momento? Vous vous appelez comment ? A que ponto chegamos! Sim, vamos falar do tempo. Ou ficaremos sem dizer nada, nem uma só palavra. Y vos que hiciste hoy? E nesse enrolação diária, cada um foi se fazendo presente na vida do outro. Talvez, você mais na minha do que o contrário. É normal, sempre assim, tenho que ser um pouco byronico e logo, platônico. Sempre percebi que mais íntimo me torno de alguém quanto mais amenidades falar. Depois, é só peneirar e ver o que há de supra-sumo.

HACEMOS UNA FIESTA SI? Não essa festa! Já estava envolvido demais para poder aceitar essa festa. Sou leonino, logo sou egocêntrico demais para dividir qualquer coisa, quanto mais a sua atenção. Não, simplesmente não gostei desse assunto. Mudo de assunto, falo de geografia. De turismo, de qualquer coisa mesmo de divisão. Não quero partes, quero tudo completo e só para mim. Vá ver as fotos do Santuário de Santo Domingo, que na verdade é Santo Antônio, que na verdade é mais uma ironia do acaso. Vamos falar de feijões? Peixes e de mariscos. Vamos falar de comida. Vamos falar de outras coisas. Enquanto isso, farei trocadilhos bobos entre meu nome e as conjugações no passado de alguns verbos e que ninguém mais na conversa vai entender, além de mim.

HUMMM CUANTO ES MUCHO? E voltemos para o jogo de perguntas e respostas cretinas. "Mucho" é qualquer número que não me seja. Entonces si, mucho! Foi a partir daí que começamos com todo o excesso de glicose e a atrair formigas que não saiam, mas entravam em nossas mãos. Disse "nossa" para não me sentir sozinho, na verdade sei que é "minha". Agora, começo a falar sobre tudo só para ter mais um tempo com você. Respondo o que não devia e pergunto o que já sabia. Ignoro o fato de meu raciocínio em português não me deixar conceber "encantar" com qualquer outra coisa que não seja mágica, encanto. E assim, essa não ruptura de linguagens nos proporcionou o maior festival de "no entiendo" de toda nossa trajetória. Estas hablando dificil hoy! Não, só estou falando em português mesmo, oras.

Y DESPERTARTE RODAS LAS MAÑANAS! Agora, era rei. Não um déspota e sim, uma peça de xadrez que acabe de ser anulada. Xeque-mate, acaba de dizer o que sempre quis ouvir. Prova de que monarca não tenho nada, só sou um bobo da corte mesmo. Que passa a se apegar a coisas tão pequenas e ínfimas "me encanta cuando habla en fraçais avec moi!" Alors... on parlera en francais! Melhor não, continuemos como estamos. Pero te vas a poner celoso! Mais para a coleção frases. Respondo: No, no soy! Digo isso numa tentativa de esconder minha carência e insegurança crônicas. Mas, dessa vez além de não ser verdadeira, não consegui blefar, logo fui verdadeiro. E despejei todos os meus medo, angustias e desejos. Sim, me surpreendi com respostas do tipo "... te cuido, te protego." E no meu momento mais piegas do dia "Y si yo me enamore de ti ?" recebo em troca de você, a racionalidade que característica da minha pessoa e que nesses dias se manteve hibernando. Ahora, já é muito tarde. Extremante tarde para mim. Não adianta mais querer ignorar ou fazer joguinhos. Sem uma das minhas principais armas, que é a exatidão palavra, fui a presa mais indefesa que deves ter pegado. E cada vez que penso em fugir, recebo uma boca vermelha me dizendo "Besos. Donde mas quieras. Hablamos luego!".



por EU MESMO 2:22 PM
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[Terça-feira, Janeiro 11, 2005]

REPETIDA

E de repente todos os rostos são conhecidos e pior seu rosto é familiar a todos, mas você não é uma estrela. Acho que estou em Reykjavik, lugar onde todo mundo se conhece, onde todo mundo se cumprimenta, onde todo mundo sabe quem é parente de quem. Na verdade, sei que não estou em Islândia. Afinal, aqui está muito quente e a Icelandian-mor só se faz presente em voz.

E estando em lugar "maior em gente" do que a ilha polar, começo a ter mais uma vez sintomas de minha claustrofobia social. Não é concebível para mim, uma vida dando bonjours, hellos, tudo bems, buena noches (já perceberam que uso mais de um idioma, apesar de só falar um! hahahaha). Mas, sei que o problema não é o lugar simplesmente e sim a minha pessoa que está nos mesmos lugares.

E como isso, não posso reclamar da dona da sorveteria que quando me ver solta um "como vai?". Que sempre me agradece por despejar todas as minhas moedas lá e facilitar o troco e ainda perguntar "você é mineiro?". Não, não sou e aí ela replica: "sua família e de lá". Não, não é (minha avó até nasceu em Minas, mas ela tinha certidão capixaba e assim se achava) e ela treplica: "pensava que fosse parente de fulano?". Pois é, tchau.

E também não vou reclamar do rapaz da Towner de cachorro-quente. "Saio do colégio mais cedo hoje?". Não, venho da aula de francês. "Vai querer dois, sem ervilha, para viagem?". É isso mesmo! Ele se virá e conversa (como sempre) com um amigo e começa uma espécie de pregação pentecostal: "Vi que esse lance de santos católicos não era boa coisa quando fui em centro de macumba e os vi lá também!". Já ouviu falar de sincretismo religioso? (pensei). "Blá blá blá e blá". Que cachorro-quente caro (pensei, de novo). "Pronto, são três reais". Boa noite e ufá! (falei e pensei, respectivamente).




E NÃO ACABOU (ENQUANTO ISSO NO MC DONALD'S)

Depois de quase ganhar um destaque de cliente do mês. Resolvi dar um tempo de freqüentar essa lanchonete. Por que? Metade dos funcionários do turno da noite de conheciam e assim tinha que falar com eles sempre, mesmo quando os mesmo se encontravam na cozinha. Quantas vezes, via mão e olhos vindo com os hambúrgueres. E fora que muitas já tinham decorado meu pedido. Porém nesse lugar, outra coisa volta e meia se repete: "tentar pagar com cartão e não conseguir".

Primeiro dia: "Qual o seu pedido?". Aquele ali. "R$X". Pagarei com cartão. "Desculpe, mas o sistema está fora do ar". Desculpe, não tenho dinheiro aqui. Pode devolver o lance. Segundo dia, atendente beautiful blue eyes: "Qual o seu pedido". Humm, número 1, pago no cartão. "Credito ou débito?". Crédito. "Recusado". Como assim, acabei de comprar com esse cartão. Tente de novo. "Recusado". Me desculpe, mas não tenho dinheiro aqui, devolva o lanche. Devo estar sem crédito (pensei, sem perder a cara de revoltado).

Terceiro, maior e pior dia. Depois de duas semanas indo lá, pelo menos uma vez. Reparei que tinha mudado a maioria dos funcionários. Não via atendente beautiful blue eyes, será que mandaram embora? Duas semanas indo lá, comendo e usando a Mc Internet (duas semanas, porém 3 dias só. Nada de Super Size Me, please). Hoje, sabendo que não teria nada do meu gosto para comer em casa, fui ao Mc Home. Mas, estava sem meu cartão de crédito e só tenho 30 centavos. Lembrei que tinha um caixa eletrônico lá dentro. 32º graus, 22h e você não vai sacar dinheiro, me informou o relógio. Meu banco tem débito automático!

Entro feliz, paro no balcão e quem vejo... Blue Eyes! Que legal de volta, mas por que você não faz igual a todo mundo e fala comigo? Por que não ri para mim também? Deixa para lá, estou com fome. Outra atendente: "Oiiiiii, o que vai querer". A oferta. O caixa: "Débito, né?". Sim. "Digite sua senha, por favor". ******* "Senha incorreta". Hãn!?. "Passo de novo, digite a senha". ******. "Senha incorreta". Fala sério! "O senhor deve estar digitando a senha de outro cartão" Não, não estou. Nisso a atendente já tinha feito o meu lanche e aproveitou e ficou para ver que fuá era aquele. Pergunto: se passar mais uma vez, meu cartão será bloqueado né? "Provavelmente". Tudo bem, passe de novo. O cartão é meu. Olha só!!! (mostrando a identidade). Blue eyes também veio ver o que acontecia e nisso reparei que não eram beautiful e sim "trés beaux yeux bleu". O gerente veio também para a festa.

"Digita a sua senha". ******. "Senha incorreta". Não é verdade, falei. Que vergonha! Será que você (yeux bleu) lembra da outra vez? (pensei). Espere, vou ligar para casa. Olha só liga para o banco eletrônico e vê o que está acontecendo, pois estou barrado na fila do Mc donald's (ainda bem, vazio). Anota a minha senha. ** (em francês). Presta atenção, sei que você não sabe francês, mas é fácil. ** (em français). Seu idiota, não percebeu que não posso falar a senha em português, pois estou em local público! ** (in english). Ahhhhhh (grungido).**(EM PORTUGUÊS). O gerente calmo: "Amigo, senta e vai lanchar. Depois a gente resolvi isso".



por EU MESMO 8:39 PM
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[Terça-feira, Janeiro 04, 2005]



24 BADALADAS

A primeira vez que deu meia-noite sabia que não te encontraria. Seria por demais estranho te encontrar vagando ao nada. Mas, se encontrasse teria sido algo para se comemorar já que desde ano passado, a mesma data perdeu um de seus dois motivos. Como disse antes, você não estava lá e na verdade nem sinal. O que encontrei foi a mesmice, acho que deves ter achado o mesmo. Afinal, quem não achou? As pessoas de sempre, que sempre fingem ou fingem sempre? Em suma, tivemos as dozes badaladas pontuais e suas posteriores palavras de afago.

Fico imaginando a cara de cada pessoa ao ler que não segui a mesma linha que a época sempre pede, e que não contente disso reservei um parágrafo todo para não dizer nada. Só que isso não é verdade, afinal são sete linhas! Sempre penso qual será a sua reação quando descobrir que muitas vezes escrevi para ti, antes mesmo de nos conhecermos ou ainda de "você" existir. E apesar de imaginar, pensar e escrever, continuo não me importando com isso e não seriam as 12 primeiras badaladas que me mudariam.

E quanto as outras doze que somadas com as outras vai dar 24 badaladas? Para essas, um novo cenário, um novo elenco e o mesmo enredo. Para essas, uma nova platéia, um novo espaço e um (ao) mesmo tempo. Por que deveria ser tudo novo, se o princípio chega a ser arcaico? Porque as novas doze badaladas exigem, não me servem de resposta. Então, que venham todos! Infelizmente, não devo citar o autor dessa frase, por mais que adoraria ver cada um se assuntando ou repudiando-o.

Quando ouvi a primeira das doze, ignorei simbolicamente todo mundo e sai a te procurar. Em uma grande aglomeração, talvez. Dentro do mar, não. Procurando-me na nébula que aqui sempre se faz presente é que deve está. Me pergunto: fazendo o que? Grito: Aqui estou! Lamento:... Justo agora, no final, você simplesmente não apareceu. Ah! Que lastima! Seria um consolo para quem a essa hora rechaça cada uma das trinta e poucas linhas acima. Por outro lado, seria o motivo para o fim de uma ridícula numerologia estéril e início de muitos outros caracteres extremamente férteis.



por EU MESMO 11:16 AM
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[Segunda-feira, Dezembro 20, 2004]

EPISTOLAR

"how long will this take baba
how long have we been sleeping
do you see me hanging on to
every word you say"

A.M., Baba, Supposed Former Infatuation Junkie


Dear Friend,

De repente me deu vontade de te escrever. Na realidade, não foi de repente e nem foi por vontade própria. O que aconteceu foi que acordei após ter sonhado com você. Era para ter sido mais de um dos muitos sonhos que tenho, ainda mais nos dias em que durmo até altas horas da tarde. Como sempre acontece, não me lembro de tudo com o que sonhei, mas lembro exatamente que você estava nele e essa lembrança é realmente o que me faz escrever.

Resolvi adotar um procedimento mais a antiga para tecer essas palavras. Deixei a frieza da máquina para um segundo momento, e resolvi sentar forma pictórica no chão encostado na parede, embaixo da janela, no meu quarto. Lugar esse em que você nunca esteve, apesar de já nos conhecermos por mais de 16 anos e de sermos amigos há mais de 6.

Outra coisa que decidi, antes mesmo de começar, foi que jamais te enviaria essa carta, mas que a deixaria pública, para quem quisesse ler e isso te inclui. Sentenciei que nada mais coerente com a nossa trajetória do que ouvir a mesma canadense que sempre nos deu assunto. Na verdade, ela também escreve comigo, junto é lógico com o meu inconsciente que jorrou em mim as imagens of my dream. E depois de todas essas regrinhas estabelecidas, começo a te contar o que vi, ouvi e sinto.

Como disse antes, não me lembro de tudo e isso inclui o começo. Recordo quando em cima da cobertura de um prédio Art Nouveau-New Yorker, olhava ora para o céu ilusoriamente azul, ora para a rua realmente asfalto. E entre carros, avenidas, pedestres, faixas e semáforos, vi você. Cá do alto te olhava e lá embaixo você estava sem me notar, como há muito faz. Nem notamos, mas cada vez mais aparecem andares entre nós. Como isso, já estamos distantes o suficiente para nos ver, mas não conseguir nos falar. Mas, voltemos ao sonho.

Do terraço via tudo que acontecia na rua e lá estava você "bonita roupa" e alguém ao seu lado "bela companhia". Parados, esperando que o sinal fechasse, olharam uma para o outro de forma cúmplice, carinhosa e protetora. Você o ajeitou a gola do casaco caramelo (acho que era essa cor), da mesma forma que uma mãe faz com o filho antes de sair. Mas, a relação entre vocês não era materna, muito menos incestuosa.

O sinal verde para os dois se abriu, e abraçados atravessaram a rua, indo em direção a um outro prédio que se não era, lembrava a antiga faculdade de filosofia daqui. Como se alguém filmasse, a cena cortou para mim, sentado lá em cima, observando vocês. Embora também estivesse em um casaco de couro preto (sim, a cor era essa), sentia o maior frio que poderia passar: aquele que te congela por dentro. Os motivos dessa queda interna de temperatura corporal são muitos, mas os principais eram a surpresa da cena e a inveja sentia por você viver, experimentar o que sempre desejei para mim.

Me desculpe, se pareço amargo. Não sou e nem estou, porém a acida sinceridade me força mais uma vez a lhe dizer que me senti extremamente triste por não estar vivendo aquela cena,. Reitero, a cena e não sendo você. Nós dois sabemos disso, mas os outros não.

A canadense, como se roubasse as palavras (ou as colocasse em) de minha boca diz: I am the biggest hypocrite. Acho que é a mais pura verdade. Enquanto vocês continuavam a atravessar a rua, desci do meu patamar (talvez tenho pulado, mas não lembro de tudo, já disse) e resolvi segui-los. Nem notei de que cor estava o sinal, corri atravessando a rua, vendo vocês subirem dois (ou três) degraus e entrar por uma porta marrom envidraçada. Vocês, felizes e abraçados, nem me percebiam, e a porta se fechou.

Agora, sou quem sobe os dois ou três degraus, agora sou quem entra (sozinho) por essa porta. Me deparo em um grande salão nobre "que inspirador" com muitas desconhecidas pessoas que ouvem, bebem e dançam, em roda, ao som de uma velha negra de lenço azul na cabeça, que canta acompanhada de tambores que só se fazem ouvir e não se ver. E é ela que convida a entrar na roda, é ela que canta para mim, é quem me conforta e lembra que o que sinto, por mais real e físico que seja, ainda é um sonho. Mas, por que mesmo acordado, de pé e almoçado, ainda parece ser verdadeiro?

"I was hoping", sabia que viria depois para retratar que I (still) are hoping. Ainda bem que você sabe que o anglicismo aqui é muito mais que um estrangeirismo e sim uma forma de joining you! Acho que já está na hora de terminar, de finalizar esse processo que pode ser o começo. Sei lá, não sei. Da mesma forma que também não sei, por mais que imagine e especule, o que aconteceu com você depois que entraram no prédio. Do lado de fora da janela atrás de mim (não estou mais no mesmo lugar onde comecei a escrever), o sol nasce. E tenho certeza que não será tão bonito quanto no sonho.



por EU MESMO 11:50 PM
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[Segunda-feira, Dezembro 13, 2004]

REDEMOINHO (PSEUDO-PARADOXO: QUEM ESTÁ DENTRO QUER SAIR, MAS QUEM ESTÁ FORA QUER ENTRAR)

Sempre a mesma ladainha. Quantas vezes já ouvi, li e vi essa história? Sempre fui péssimo em matemática para responder a pergunta. Enfim, eis que mais uma vez me vêm com isso. Tenham bom senso, chega disso. Querem enganar a quem com esses contos de fadas, mas para desintoxicação de viciados em crack. Meio que uma estratégica de redução de danos. Francamente, francamente.

Que determinação é essa que não dura um mês, imagina 3 anos? É muito light para vocês. Veja que engraçado, um dia também estava nesse mesmo paradigma, nossa idêntico e hoje não estou mais. Força de vontade, não isso é para os AA, NA, AS, XA. O que não fui é "faked". Foi tipo aqueles slogans "você quer, você pode!", mas depois virou um dogma.

Agora é quase que sagrado. Mas, antes que pensem: não é nada disso, consigo fazer alusões e analogias melhores. Na verdade, tudo isso aqui é para absolutamente nada, quase dadaísta. Quase não, bem dadaístas. "Isso não quer dizer nada e isso é tudo!". Eles sim que sabiam viver, por que aqui não tem um Cabaret Voltaire?

Quanto a vocês (tinha que terminar com quem me motivou, oras), admitam que na verdade a hipocrisia é exatamente o que os deixa de pé. É ela que serve de espelho, alias para que espelho se existe máquina fotográfica digital?



por EU MESMO 12:13 AM
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[Quarta-feira, Dezembro 01, 2004]

DAMA DE COMPANHIA

Há quanto tempo você já me acompanha? Quase que a toda minha existência. Sempre presente em todos os momentos, mais do que qualquer coisa ou pessoa. Nunca de maneira discreta, sempre gosta que saibam que você está comigo. Muitas vezes egoísta, já me obrigou a ficar em casa somente com você. E quando saio sem você, tenho que tomar muito cuidado para não me achar e atacar com toda sua fúria.

Minha trajetória contigo realmente é antiga, já disse. Mas, lembro exatamente quando se apresentou, ou melhor, me foi apresentada. Foi em um dia de 1992 (ou 1993?), em frente à praia de Camburi (ou as margens da BR 101?). A lembrança não é tão exata assim, como você também não. Alias, sua imprevisibilidade já me faz passar muita vergonha. Quantos vexames pagos com você e por ti? Simplesmente impossível contar, muito mais fácil o contrário.

Já tentei te banir, afinal minha vida com você fica sem um sentido e quando não fica sem dois. E por mais poética que nossa relação possa parecer, detesto ter você ao meu lado, pior dentro de mim impregnando todo meu sistema. É tipo de relação que me tosa e me deixa sem ar. Com certeza meus dias serião mais agradáveis sem ti. E você nem sentiria minha falta, já que ataca e acompanha muitos outros por aí. Devassa, nem fiel você!


por EU MESMO 12:53 PM
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[Terça-feira, Novembro 16, 2004]

NINGUÉM ME ATENDE (DETESTO ALMOÇAR SOZINHO. SE VOCÊ AINDA ESTIVESSE COMIGO)

Amanheceu, mas continuei dormindo. Ficaria assim o dia inteiro se não sentisse fome. Era domingo, mas sem almoço em família. No lugar de passar meu tempo cozinhando algo, achei melhor ir atrás do já pronto. Já era tarde, nenhum restaurante estava mais aberto. Se quisesse comer deveria ir ao templo da religião capitalista. E lá iria. Para não ir sozinho, convidei meu dois patos. Na verdade, eles se auto-convidaram como sempre fazem. Lá fomos nós.

Desde que descobri que numerologiacamente sou o 1 (um), abdiquei de reclamar da ausência de companhias em todas as atividades cotidianas, quer dizer quase todas. Algumas em solidão cansam, entre elas as refeições em lugares públicos. Nada me incomoda tanto do que não ter com quem conversar enquanto como em um restaurante, lanchonete e afins. Os patos me faziam companhia, mas eles não estavam para conversa nesse domingo.

Não tinha dúvidas. Já sabia aonde iria e o que comeria. Cheguei ao templo e me sentei em um local de visibilidade, os patos se empoleirarem em cima da mesa e viraram as caras para mim. Como eles são temperamentais! Resolvi falar as telefone até o garçom vir me atender. Nessas horas, não disco para ninguém, apenas imagino que há alguém do outro lado e começo a conversar. Para não ter que ninguém perceba isso, invento um diálogo que começa com palavras em francês ou inglês e terminam em uma indecifrável emissão de ruídos estranhos e sem sentido.

Passaram se 15 minutos e não fui atendido. Os patos gargalhavam de mim. Nem assim o garçom veio. Vinte minutos e nada. O garçom passava por todos os lados menos na minha frente. Abordava todas as mesas, menos a minha. Atendia a mesa da frente de costas para mim e quando ele se virava alguém na frente entrava. Resolvi pegar o cardápio da mesa ao lado e levantei-o. Não é que esse gesto me transformou em monarca? Minha corte de dois palmípedes se fez indiferente.

Reparei que isso só acontecia porque ninguém comigo se sentava. Todas as outras mesas eram compostas de famílias, casais ou grupos de amigos. Por que pessoas sozinhas ou acompanhadas de dois patos, se tornam invisíveis em um praça de alimentação? No lugar de querer responder a pergunta, comecei a imaginar como seria diferente se você estivesse comigo: os patos ficariam em casa, nós dois chegaríamos com sorrisos largos nos rostos, sentaríamos na mais discreta mesa, todos os garçons veriam ao nosso encontro, falaria para você escolher, pois confio em ti e por fim, a vontade de ir embora seria maior do que a fome inicial.

Mas, você não está comigo. Também nem sei se estou contigo. Tudo ainda é uma platônica especulação minha (mais uma vez). Queria que o que sinto fosse verdade, mas com a recíproca inclusa. Afinal, não quero preencher mais uma vez o vazio com brisa artificial. Enquanto nenhum a certeza chega, continuo sendo alguém sozinho socialmente invisível, sentado a uma mesa de pedra fria, balbuciando frases loucas ao telefone desligado, na presença de dois patos indiferentes e ignorado por quem deveria se jogar aos meus pés em troca de um dízimo de minha capitalista fé.


por EU MESMO 1:32 AM
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[Terça-feira, Novembro 09, 2004]



ROUCO RUGIDO

Atrás do arbusto tinha dois leões. E você ainda levava um na coleira. De trás da planta eles observavam a movimentação e quem chegasse perto... Você andava na calçada como quem passeia com um poodle tosado. Para mim, era estranho. Um grande descampado era o cenário. O sol nublado estava, e como! Fiquei com um pouco de medo, gritei para que ninguém se aproximasse do arbusto.

Sua caminhada continuava. Agora estávamos em um caminho de pedras. Você nada em suas mãos carregava. Perto desse caminho, uma torre de onde eram lançados olhares felinos,leoninos. Todos para você, nenhum para mim. E mesmo assim, ou por isso, nublado o céu continuava a estar. Perguntei: Cadê o leão que estava aí? Você respondeu? Acho que nem ouviu ou o gato comeu sua língua.

Queria ter um leão igual ao que você tem. Admito um pouco de inveja, afinal você cria um leão que tem uma juba brilhante. Enquanto a mim, nem um gato vira-lata, desses que vivem miando soltos na rua, sou capaz de ter. Na verdade, não quero um. Quero um leão com juba e tudo, ou um tigre com várias listras, mas aceito um leopardo e até mesmo uma onça negra. Acho que todos eles estam em extinção.

Nesse momento estamos longe um do outro. Ninguém está perto de ninguém. Tudo está bem diferente. Minha memória guarda resquícios do dia em que vi você perambulando com o "bichinho" na rua. Nela também, guardo a imagem da dupla felina pronta para atacar. Uma coisa não mudou, a nublagem do céu pronto a precipitar sobre nós.


por EU MESMO 1:43 PM
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[Terça-feira, Novembro 02, 2004]

AMANHECER SEM ACORDAR (SÓ PARA QUEM GOSTA)

E mais uma vez amanhecemos juntos. Já perdi as contas de quantas foram e nem faço idéia de quantas virão. O sol e você, sempre é o que resta depois de tudo. Ah! Têm também os últimos downloads, músicas e vídeos. Não posso esquecer dos ruídos notívagos que perambulam pela madrugada, mas esse são vampiros que ao menor raio solar desaparecem. Pois é, hoje não foi diferente e mesmo assim me surpreendo.

Como não se surpreender que mais uma vez deu certo? Quantas vezes pensei que não daria? De 15, umas 10. Acho que no fundo sei como vai terminar, da mesma forma quando assisto ao filme pela milésima vez e mesmo assim espero até o fim. Para acabar com a previsibilidade, começo a colocar alguns obstáculos nessa pista e muitas vezes desisto no meio do caminho. Mas o que fazer quando o caminho também desiste? Continuar, oras.

Quando tudo se resolve, um outro problema surge e você fica na expectativa. Será que vai ter tinta para imprimir tudo? Na dúvida a solução é que se imprima de verde. Mas o preto acaba no meio. Espera e se não der, chore. Só que mais uma vez deu certo, vontade de chorar mais ainda. Quem nunca chorou por umas páginas impressas? Você tem apenas três quartos e meio de hora. E se não der tempo? A solução é andar mais rápido e pegar um ônibus. O trânsito está engarrafado. Aguarde e feche os olhos, do contrário chore. Não chorei.

Já recebo as cobranças do corpo que não dormiu, não comeu e sofreu. Negocio com ele: agüente mais um pouco que te darei o tempo que quiser, porém se mantenha falsamente. Ele me atendeu e até foi simpático, mas um pouco lerdo. Quando tudo acabou, tive vontade de ser totalmente de água e escorrer. Como não era, me arrastei rumo à pagação da promessa feita ao meu corpo.

No quarto do ex-votos deixei o meu. Não te devo mais nada, dívidas apenas com terceiros que com certeza não a esquecerão. Nunca pedi que as esquecesse. Na verdade tenho que agradecê-las, não hoje. Agora quero amanhecer como alguém que dormiu no horário errado, mas dormiu. Deve ser por isso que não amanhecemos juntos hoje. Fiquei apenas com os ruídos, que a essa hora já se foram e deixaram os chatos pardais.


por EU MESMO 8:30 AM
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[Terça-feira, Outubro 26, 2004]

CABEÇAS QUEBRADAS

Todos um dia já montaram um quebra-cabeça, seja ele simples ou numeroso. Podemos demorar horas,até mesmo dias, mas sempre será possível acabar de montá-lo. Salvo se não estiver com peça a menos. Essa habilidade humana, talvez seja natural, pois afinal somos um quebra-cabeça extremamente grande de diversificado. Se nossas peças não forem juntadas, seríamos nós elas separadas.

No nosso caso, não temos a figura guia. Vinte e três peças devem-se se unir a outras 23. Dessa soma inicial surge o meio da imagem. Já da para ter noção do que irá surgir, porém ainda somos incógnitos. Do meio para fora é assim que ganhamos nitidez. Com suas 46 peças básicas, o quebra-cabeça ganha o mundo e nele deverá achar as outras que lhe faltam. Daí, já se percebe que muitos nunca ficarão completos.

Muitas vezes ganhamos peças que não se encaixam, mas nem por isso devem ser descartadas e sim trocadas com outros quebra-cabeças. Muitas vezes descobrimos que certas peças não faltam apenas em nós, e outros quebra-cabeças também. E sendo elas de edição única, criam um conflito ou uma convergência. Um grande quebra-cabeça pode ser montado e outros pequeninos disseminados.

Quando pesamos então que estamos montados para a contemplação geral, começamos a perder partes. Temos nossas bordas começam a ser atacadas por cupins antropofágicos vorazes e famintos. De fora para dentro somos corroídos e cada peça durante conquista ou amorosamente doada é perdida. No final, sobram 23 peças, cuja única função será se juntar a outras 23 ou ir para o esgoto do esquecimento.


por EU MESMO 12:15 AM
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[Terça-feira, Outubro 19, 2004]

MAIS UMA VEZ O TEMPO (IT'S THE BOSS)

Não sou mais o mesmo, nunca fui o mesmo, sempre tento ser o mesmo. Isso é impossível, porque não controlo as mudanças. Ilusão seria achar que controlo, no máximo, posso direcioná-las. Quem manda em tudo é ele, o tempo. Ele consegue agir sobre nós de forma grosseria muitas vezes. Consegue ser um camaleão, ora cronológico, ora metafórico.

O tempo nos envolve de maneira promíscua, nos faz de passivos dele. E nunca deixa que troquemos de posição. Ele controla a relação, me controla e a você também. Achava que eras livre? Que equivoco. Só o tempo é livre, que se auto controla. Queria ser dono dele, mas nunca consegui.

Mas antes que uma visão romanceada sobre o tempo surja, aviso que essa relação é destrutiva, canibalesca e passageira. Vamos sendo devorando aos poucos, dia após dia, noite seguida de noite. Não acredita? Olhe em volta de você. Procure aqueles rostos bonitos de sua infância (ou adolescência), Não os acha, não sabe o aconteceu? O tempo comeu!

E prepare se que daqui a pouco seu espelho, que adora uma desgraça alheia, vai estar apontando para você. Pensava que o espelho fosse seu amigo? Mais uma ilusão. Não preciso nem dizer de quem ele é o melhor amigo.


por EU MESMO 12:48 AM
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[Sábado, Outubro 09, 2004]



O MONGE RASGA O HÁBITO
________________________________Where is the Line with you?

Um vento forte assoprou na primeira vez que o viram. Seu parto teria sido um dos mais traumáticos e complicados, algo em torno de 36 horas. Não pode se dizer que lhe deram a luz porque era alta madrugada e este foi praticamente obrigado a passar para o outro lado. O lado de fora. Sem opção, escolheu vestir-se de maneira simplória e sair andando pelas ruas da cidade em que estivesse.

Mais de um mês se passou e ele continuava (di(de))vagar. De uma hora para outra resolveu se purificar, mesmo que sujo jamais estivesse. Em um certo momento resolveu abdicar de tudo que pudesse representar luxuria, apesar de ser fruto dela. Seu objetivo era de puro ficar e o alcançar mais alto estágio que um espírito possa ter atingido. Sim, ele não era feito de carne com todos nós.

Um raio solar atravessou de fora à fora a sala onde estava. Quando percebi isso, fui obrigado a segui-lo. Era para ser mais um dia de escuridão forçada por cortinas pretas. Deveria ser mais um dia frio feito ar "artificionado". Mas aquele feixe invasor de sol, cortou a mesmice do que seria. Seguindo a luz, acabei na rua e vi um pesado tecido rubro parado em minha frente, como se quisesse passar.

Ficaram os dois parados. Só não olhei em seus olhos porque ele não os tinha. Cada vez mais perto um ficava do outro. Chegou um ponto que para um seguir seu o caminho, o outro ia ter que desaparecer. O feixe se multiplicou em muitos e perfurou em inúmeros cada um de nós. Pela segunda vez, um vento forte assoprou e o tecido levou. Embaixo dele, para minha surpresa, não tinha nada. Sem sol, voltei para de onde nunca sai.


por EU MESMO 12:26 AM
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[Quarta-feira, Setembro 29, 2004]

UM POUCO MAIS DO MESMO (MAIS COINCIDÊNCIAS)

Como é difícil conviver em um ambiente tendencioso, onde a todo o momento você é jogado a viver em claustrofobia social, mas não de pessoas em si. É uma aversão a pequena sociedade que elas se inserem, e que também faço parte. Sabe aquela coisa de todos os amigos de seus amigos também serem seus amigos ou se não, serem em potencial, mesmo que não sejam nunca apresentados uns pelos outros? Não existe o novo, acabam faltando territórios a serem desvendados.

Cansado de coincidências determinadas pela realidade, resolvo muitas vezes fugir das duas. O real é muito cruel, ele não quer saber se você está sonhando ou simplesmente dormindo, ele vem e te acorda a força. E você não pode reclamar, tem que aceitar. A ilusão é diferente, ela te trata feito um neto. Tudo é liberado e nada é reemprendido. Porém, ela é cansativa e fatalmente cai na mesmice. Qual a novidade? Nenhuma. Existe solução? Deve ter.

O que aconteceu foi que em um dia de muita chuva, você me ofereceu abrigo, comodidade e afeto. Lógico, aceitei. Só depois me mandou aquela fatura parcelada em milhares de vezes, cujo valor era muito alto. Você tinha acabado de me vender uma torre, na qual seria obrigado a viver trancado, pois sua única saída era uma sacada extremamente alta. Sacada pela qual entrei, sem saber como (na verdade sei, só finjo que não) e que para sair, teria que me jogar dela.

Apesar disso não consigo desgostar de você, por mais ambíguo que isso e você sejam. Também não dá para gostar de você, pois não vejo um por que nisso e nem em ti. Esse é o problema de vivermos em uma pequena vila, onde as estreitas ruas logo se acabam e sem saída. Assim retornar não é viável e seguir em frente impossível. Sei que atrás de mim, me olha maliciosamente de maneira ingênua, falsamente verdadeira. Fico na sensação de encurralamento, de prisão invisível. E quando estou nessa posição, quero seu lugar e não ser você.


por EU MESMO 1:29 PM
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[Terça-feira, Setembro 21, 2004]

ETERNA FASE DO FUSO TROCADO

Mais uma vez passei horas de procurando. Por causa desse seu comportamento promíscuo de se deitar com todo mundo e na maioria das vezes ao mesmo tempo, novamente fui deixando por último,. Nessas suas orgias dionisíacas, acaba esquecendo mim. Principalmente, depois que resolvi não fazer mais parte delas. Agora, sou obrigado a viver como uma senhora da meia idade casada com um plantonista que só recebe o marido com o café e é deixada com o jantar. Só assim, me sinto.

Porém, sua promiscuidade aliada com sua função noturna está fazendo com que você chegue cadê vez mas tarde até mim. Agora, você só aparece quando o Sol rasga as grossas e escuras cortinas do meu quarto. Quando os sons dos carros atrasados , das vans encriançadas e das suas mães preocupadas se fazem presentes em expansão e velocidade característicos. O cantar "bonjourvieur" dos pássaros soa como a mais nova marcha fúnebre. Enquanto isso, sofro.

Visito todos os cômodos da casa, as vezes esteja querendo me fazer uma surpresa e assim posso, quem sabe, te achar no não-habitual. Afinal, uma vez me possuiu no chão e no sofá da sala. Tentei uma vez em uma cadeira de leves toques Bauhaus, não deu certo. Hoje, resolveu atrasar mais e ficar na cama uma outra pessoa. Devem ter tido uma noite boa, prazer e alucinações. Sempre seduz qualquer pessoa, não existe quem não caia ao seu encanto. Na verdade, também caio.

Já estava desistindo, achava que seria daqueles dias que não vem mesmo. Ou que chegaria muito tarde, na hora que me encontraria embriagado. Prometi que não ia te aceitar hoje. Não posso ficar seu humilhado pela sua instável vontade. Saberia que uma hora ia chegar, e nela ia te dizer fortemente um "não!". Não vi a quando apareceu aqui em casa, deve ter vindo na ponta dos pés ou levitando. Só percebi quando acordei na hora que de minha cama você se levantou.


por EU MESMO 9:24 PM
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[Sexta-feira, Setembro 17, 2004]

QUADRADO ÚNICO (UNILATERAL)

Poderia ser três formas
Dessas, duas me confortam
Dessas, uma me ignora
Você é uma!?

Uma vez me esbarrei com alguém
que me disse que era e seria
Logo após me deparei com outrem
que disse ser, mas não era

Certa vez eu encontrei uma pessoa
que o pudor, paralelo era a moral
Depois avistei um corpo distantemente perto
que ecoava pressupostos amargos

Percebi que o corpo pertencia
à pessoa que era alguém vista por outrem
Conclui que quatro era uma
E uma é você!

.............................17/11/2002 12:31 pm


por EU MESMO 4:39 AM
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[Sexta-feira, Setembro 10, 2004]

TUDO PODE ACONTECER, INCLUSIVE NADA (CEU DE PORTO ALEGRE)

Aviso logo, não será um diário de viagem. Nem tudo é real, mas tudo é verdadeiro. Não tente adivinhar o que aconteceu, pois tudo depois de escrito acaba sendo vivido. E o que não for, será esquecido. Erros de ortografia, não os são. Não sei por que estou escrevendo isso, faço isso sempre e nunca digo. Enfim, nada de metalinguagem também, deixo isso para A Educação pela Pedra (de João Cabral de Melo Neto, não pense que li esse livro todo...).

Fazia mais de um ano que não ia as margens do Lago Guaíba. Era um lugar que ansiava voltar. Dessa vez, foi bem incerto de como seria, pois agora uma pessoa diferente que voltava a um lugar que também não era mais o mesmo, querendo de certa forma, os mesmos momentos e as mesmas pessoas. No lugar de refletir sobre, preferi me dopar. Fui acordado com a mesma paisagem dos prédios que margeavam a água.

Estava de repente vivendo a mesma sensação de outro ângulo, de uma forma paralela e com 20 graus a menos. Era agosto, estava um pouco frio, no mesmo parque e acreditei : estou de volta a Porto Alegre. Não pedi para me beliscar, é muito piegas e tinha muita certeza que não se tratava de sonho, afinal um pequeno tormento foi necessário para chegar. Outras diferenças surgiram, dessa vez não vou ficar em um Prédio do Século XIX, vou ficar em um dos muitos andares do Ceu.

Quis ir a todos os "meus" lugares no mesmo dia e fui. As praças, as ruas, os cafés e a mesma vontade de andar e viver toda a cronologia de uma semana. Mas faltava uma coisa: Os faróis de antes. Descobri que eles tinham sido removidos e que em seu lugar nada. Seria o fato que ratificaria que não se tratava de um déjà-vu. Hora de conhecer o novo, o desconhecido e de ser outra pessoa dona de dois patos que se divertiram muito no Lago na Redenção.

Passei pouco tempo no Céu, na verdade pouco tempo em Poa. Passei em dias lá, o número de parágrafos aqui. Outras sensações foram experimentadas, como a de arranhar a redoma de vidro que na minha memória cobre a cidade. Luvas distorceram o tato, falta de óculos (escudos) escuro incomodaram a retina e ausência de sabor evitou trocas. Definitivamente não vivi o passado, mas o presente não foi vivido, logo só resta o futuro.




por EU MESMO 12:52 AM
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[Segunda-feira, Setembro 06, 2004]



AGOSTO TERMINA

Não poderia deixar que a distância e o frio impedissem que agosto fosse celebrado pela última vez. Para muitos esse fim é um bom sinal, pois lembram de agosto como um mês de agouros. Mas, não compartilho dessa concepção. Se assim pensasse, seria um torpe, já que tenho vários bons motivos para assim não me sentir.

Agosto me deu mais que poderia imaginar. Ele trifurcou minha língua, uma vontade de anos. Deu-me dois patos, mas isso não gostei muito. Fez com que todos por um dia fossem meus. Tudo deu certo nesse mês, pois tive nele o encontro de Deleuze, Guattari e Foucault com Lars von Trier.

No frio do inverno que tanto gosto, agosto me presenteou com Porto Alegre. Só quem me conhece sabe o quanto isso representa: estar em Poa, no oitavo mês. E isso aconteceu, de forma improvável e fantástica. Demorei a perceber que era verdade, em volta de mim as árvores, o lago, a fonte da Redenção. E como se possível, ele conseguiu se superar dando a mim e ao mundo, mais uma Medúlla.




por EU MESMO 5:45 AM
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[Sexta-feira, Setembro 03, 2004]

Aguardem, Domingo a ESFERA DOS INTOCAVÉIS estará atualizada...

Enquanto isso, leiam os textos antigos de distração!!!

por EU MESMO 5:09 PM
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[Sábado, Agosto 28, 2004]

DISTORÇÕES DE REALIDADE

Qual seria a sua (a nossa) sensação ao ver dois homens ou duas mulheres se beijando? Repulsa, indiferença, nojo, revolta, desejo? Se tem um assunto que nunca perde o status de polêmico, é a homossexualidade ou homossexualismo, como ainda é chamado pelo senso comum. Argumentos contrários se chocam e a discussão é quase sempre visceral. Mas, por que será que um tema tão antigo ainda gera tamanha controvérsia?

Se antiguidade greco-romana era algo aceito, hoje na nossa realidade judaico-cristã-ocidental, pertencer a essa "minoria" é um trabalho árduo de luta por direitos e respeito. Não é por menos que milhares de pessoas saem às ruas em Paradas do Orgulho Gay ou GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgeneros) e se organizam através de associações e afins para mostrar que são mais muito mais que simples estereótipos engraçados ou vulgares.

O estereotipo é uma das muitas distorções que a homossexualidade sofre. Sejam ele vindo dos meios de comunicação de massa (quem nunca viu um ator interpretando um "maquilador" caricato em um programa na televisão?), ou vindo das pessoas em geral (piadas no trabalho, na escola e em rodas de amigos volta e meia tocam no assunto de forma pejorativa). Não que não existam gays afetados ou lésbicas masculinizadas na vida real, porém esses não podem tomados com ícones e padrões de uma comunidade inteira.

Outra grande distorção é a relação estreita que se faz sobre homossexuais e o sexo pelo sexo. Como se estes buscassem apenas o prazer carnal de forma compulsiva e não pudessem nutrir quaisquer relações de afetividade e respeito entre si. É claro que há homossexuais promíscuos, assim como há hetero, pan e bissexuais na mesma condição. Se essa fosse uma característica exclusiva dos gays e lésbicas, não teríamos a família com tema de campanhas gays e reivindicações pró-união civil entre pessoas do mesmo sexo.

Em suma, é um assunto extremamente amplo e difícil de se abordar em um pequeno artigo, do contrário será pretensão demais. Já que nem estudos científicos conseguiram comprovar,ou chegar a um consenso sobres os fatores que determinam a sexualidade humana. Independente disso a OMS (Organização Mundial da Saúde), já não considera mais a homossexualidade com doença. Mas, as religiões ainda condenam veemente tal "comportamento perversivo", causado segundo muitas delas, por forças satânicas. Ou seja, a polêmica ainda está muito longe de acabar.


por EU MESMO 12:54 AM
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[Domingo, Agosto 22, 2004]

PÉSSIMO BOM EXEMPLO

Não tenha dúvida, não sou um exemplo a ser seguido. Por isso não me trate assim, não gosto. Se soubesse que sou na realidade, com certeza não desejaria a seus filhos que fossem iguais a mim. Não pediria para eles se espelharem em mim, pois eles, como os vampiros, nada veriam. Seria melhor que procurassem outros modelos,seria melhor que buscassem outra pessoa para projetar. Saiba, não gosto de ser exemplo, e repetirei até o fim (do texto).

Acho que a repulsa vem de saber que ao mesmo tempo em que podem me admirar podem tirar o meu direito de ser quem realmente sou. Não quero ser sempre uma representação alheia de mim mesmo. Não quero subir ao palco todos os dias. Gosto do backstage, você com certeza não pode imaginar como gosto. Gosto dos backouts, antes de cada espetáculo, mas eles são sempre rápidos. Atrás das cortinas é muito bom, e bem mais verdadeiro. Saiba, gosto muito de lá, mas não vou até o fim, para não ser repetitivo.

Tenho medo de te dizer isso, na verdade nem tenho vontade. Desculpe se te enganei demonstrando isso, às vezes faço isso. Quer dizer acho que faço isso sempre. Mas, se serve de conforto, não é intencional. Pelo menos na maioria das vezes, não acha que sou tão ingênuo em não saber o que faço. Nesses momentos acho que posso socializar algumas experiências, para se quiserem fazer também. Disse que não gosto de ser exemplo, mas quem está certo disso?

Certeza nem sempre é bom, saiba sou tão indeciso. Tenha certeza tenho muitas pitadas de cinismo, é tão bom. Tudo bem que nem todo mundo gosta, seria esse o motivo de minhas insônias? Acho que não. Acabei de descobrir por que não gosto de ser exemplo, modelo, forma. Gosto de ser a massa fermentada, sem forma, com direito de crescer e de ir ao forno apenas quando está pronta para isso. Não gosto do forno, lá é muito quente.


por EU MESMO 10:05 PM
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[Quarta-feira, Agosto 18, 2004]


E DE PRESENTE DOIS PATOS

Papeava com Morpheu quando bateram à minha porta. O relógio me avisou são 4:10 da madrugada. Quem é?Perguntei, mas ninguém respondeu. Bateram na porta de novo, mas dessa vez abri sem questionar. Uma mulher translúcida e rabiscada com as mãos escondidas atrás do corpo olhou para mim, riu, jogou dois patos em cima de mim e foi embora.

Parado na porta fiquei, pensando porque recebera tão presente. Parado na porta fiquei, querendo dizer que os queria. Já estava satisfeito com a fauna que é ser eu mesmo. Mas, não foi me dado escolha. Quer dizer me dado foi, mas digamos que ela era meio mórbida demais. O que faria agora, com esses dois patos? Na verdade, ficaria muito mais agradecido se fosse uma única outra ave.

Os patos ficaram olhando para mim, mas não olhava para eles. Nem tinha notado que em seus pés tinham etiquetas amarradas. Na do primeiro estava escrito: Válido por 10 anos. Levei um susto. "Uma década é muito tempo". Porém o primeiro pato me alertou: "Uma década de você me tratar bem. Aproveite até o final, pois vai chorar quando acabar me!".

Era o que faltava o pato falava e com um sotaque frio desconhecido. "Me desculpe, mas minha mãe me ensinou a não falar com patos!". Ele nada respondeu. O segundo pato veio em minha direção e lembrou-me que não havia sido lida a sua etiqueta. O que será que está nessa? Estava escrito: Válido por um ano. Se bem tratado viro um cisne imperial do lago Ontário na Primavera. Naquele momento percebi que tal difícil é receber esses patos, será perdê-los. Resolvi os acomodar num dos melhores quartos. O Principal está reservado a uma ave rara.




por EU MESMO 9:09 AM
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[Domingo, Agosto 15, 2004]



UM GOLE DE VODKA

Pela primeira vez te vi nesse ângulo, seus dois olhos sempre me foram conhecidos. Desde sempre imaginei o que nele poderia morar. Hoje, te vi de um lugar que também nunca tinha ido. Extremamente impossível, totalmente verdadeiro. Um céu nublado pairou pela paisagem, verde e azul eram as cores mais lindas que já vi naquele dia. Já passava das 14 horas e meu dia ainda não havia começado. Ainda não tinha dormido, ainda era sonho ou delírio, um ser não materializado. Não era meu corpo que vagava, era meu instinto.

Deixe de ser carne completamente, nem humano mais era e não sei em que me transformei. Um floco de neve caiu sobre meu olho, dois caíram sobre meus ombros e muitos outros pelo corpo inteiro. Moscou, 13 horas, como um déspota não-esclarecido ordeno que abram os portões para mim. Como um reles plebeu siberiano, recebeu um não e uma porta na cara. Acho que sou sombra, acho que sou de mercúrio (o metal, não o planeta).

Na Praça Vermelha, às 16 horas, recebo um convite, "venha a me visitar". Convite aceito. Em seu mausoléu, Lênin me recebe. Atrevido fantasma ele, me assusta e ainda me oferece um gole de sua amarelada vodka que brilha no escuro. "E se não quiser? Vai me tratar como um Czar?". Ele diz que sim. Mas, não ligo e finjo que não entendo, afinal não falo russo. Porém, hipocritamente bebo toda a vodka. "Obrigado pela bebida, mas espero nunca mais te ver. Nunca mais mesmo!".

Não sei o que aconteceu, mas começo a me transformar em mim mesmo ou a voltar a ser mim ou em algo muito parecido. Agora quem vaga é meu corpo, meu espírito dorme santo. Cansei dos eslavos, quero um pouco de Ásia. "O que me indica? A China, mas terei que passar pela Mongólia antes." Deserto da Mongólia, 1 hora, caminho loucamente por essas areias. Elas são negras, elas são úmidas, não quero pisar aqui. Vejo vultos, olho para cada cena de olhos bem fechados e enxergo o meu caminho de volta. Foi quando olhei para frente e vi seus dois olhos lindos em minha direção.


por EU MESMO 11:35 PM
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[Terça-feira, Agosto 10, 2004]

UM POUCO DE CHÁ

Sentaremos todos nós a mesa. Ficarei na ponta, mas não pagarei a conta. Um pedido será feito. Talvez atendido. Todos se olham. Alguém ri, ninguém retribui. " Vou ficar embaixo da mesa!". A mesa é posta: Xícaras, colheres, pratos, guardanapos, manteiga, biscoitos, açúcar, água, água quente, café e chá. Mate, camomila, boldo, cidreira, trombeta, sem sabor, não identificado. " Não gosto de chá". Me levanto, todos se levantam, me sento e todos se sentam, me levanto... "Alice ainda não chegou!".

Até o momento nenhuma palavra tinha saído de minha garganta. Mas meus olhos perguntavam sempre "Que horas são?". Dali, ele se levanta. "Vamos, correr?". Todos se olham, todos. "Vou te fazer companhia aí em baixo". A mesa é imposta. "O chá está servido". "Não quero nada!". "Como sempre tudo tão delicioso!". O relógio para. As nuvens vão de um lado ao outro. O sol esfria. "Quer mais chá?". A água quente esfriou, a água acabou, passe a manteiga, apenas farelos e café.

Não, não espere nenhuma palavra minha. Calei meus olhos. A mesa treme. Ninguém se mexe. "O que fazem?". Alguém perguntou. "Passamos o tempo". Todos se ruborizam, como se fosse uma novidade. "Alguém quer mais chá?". Olho para janela, todos olham para a janela, olho para o chão, todos... "Já disse que não gosto de chá". A mesa treme, a manteiga acabou, uma colher cai, sai leite da chaleira e tremor cessa.

Levantarei da mesa, todos se levan... "Fiquem onde estão!". Sim, ainda sei gritar. O barco ainda não zarpou. "Mas que barco?". Estamos em um porto, tinha esquecido de falar. Os ponteiros saem em disparada. Vou os acompanhar."Saiam debaixo da mesa!". O cais está vazio, as xícaras sujas, farelos e mais farelos. "Quero chá!". Um olha para o outro que olha para quem falou. Todos olham para quem falou. Alguém diz: "Você não gosta de chá!".



por EU MESMO 2:31 AM
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[Quinta-feira, Agosto 05, 2004]

LATIDOS DE 8º GRAU (DEVIR DE UM CACHORRO LOUCO)

Todas as luzes foram apagadas. Todas as portas foram abertas. As janelas quebradas. E os cachorros soltos, um deles será louco. Um deles será dono do tempo, do monopólio de uma agenda setting, de uma vida e de várias linhas. Quem é esse cão que insiste em pular sujo em nossos aveludados sofás? Por que ele continua deformando nos sapatos velhos, mesmo sabendo que vai apanhar por isso?

Há um tempo relatei que a insanidade abre muitas portas e que por isso muitas pessoas assim se fingem. Mas essa tolerância não é dada aos cachorros que ao atingirem a loucura da baba são tratados como pragas a serem combatidas. E eles serão sacrificados e suas cabeças cortadas em nome da assepsia. E mais uma vez, será desquestionado o motivo de tal comportamento. Será que os cachorros também fingem loucura?

Não vou responder a essa pergunta. Nem sei se são caninos ou humanos esses cachorros. Na verdade, estamos falando sobre o quê? Estamos falando deles, de mim ou de vós. Do que foge da lógica do concreto e fixo. Falamos do devir, do vir a ser, que muitas vezes somos. Dessas transformações que sofremos em cada contato e experiência nova que temos. Da forma que reagimos. Enfim do éramos sem saber que é presente, do que somos sem saber que é passado.

E mais uma vez, o tempo (cronológico, mental ou meteorológico) me leva a escrever sobre o nada. Hoje, essas três formas de tempo estam misturadas de forma que não ser distinguir uma do outra. Até porque não há necessidade de tal desmembramento. Fantasia, realidade, subjetividade, denotativos e conotativos também se fundem, mas de uma forma é perceptível ver (sentir) as diferenças. E de toda essa massa heterogênea e paradoxal, não consigo entender, concluir nada. Afinal, sou mais um cachorro louco de agosto.


por EU MESMO 12:38 AM
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[Domingo, Agosto 01, 2004]



MONÇÕES DE AGOSTO

Mudanças, explosões, transformações.
Agosto chega
E sufoca com suas monções.
Emoções ocas, boas, loucas
Agosto estraga
Agosto marca
Em todos os sentidos
Sejam eles visão, audição, gustação
sejam eles olfato e tato
Ou quaisquer outras denotações conotadas
que ao contrário dos 5 sentidos
não podem ser contadas
Agosto ilude
Agosto confunde
O Mau deixa de existir por um tempo
E o bom se maqueia
Pois em agosto ele tem que ser perfeito
Ou seja, muito Bom
Só que da mesma forma que chama
para você sair da lama.
Da mesma forma que chega, sfuca,
estraga, marca, ilude e confunde
Agosto simplesmente acaba
Sufocado, estragado, marcado
Iludido e confundido
Tudo ficar melhor que antes
Quando Agosto morre
Morre não! Descansa
Já que em 12 meses ele se levanta
Como tudo em seu redor também faz
Em Agosto tudo é bom, uma vez que está a gosto.

.............................................16/08/2001 06:07 am



por EU MESMO 12:28 AM
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[Terça-feira, Julho 27, 2004]



MADRUGADA, MANHÃ, TARDE, NOITE E MADRUGADA

A noite sai de cena, mas o sol ainda vai demorar a nascer. É nesse intervalo que vive o mistério da nébula.

Sempre fui fascinado pela madrugada. Não pela calmaria peculiar do horário e sim pela agitação, o caos que vagueia nessas seis horas. Enquanto uns dormem, outros correm desesperadamente atrás dos ponteiros do relógio e aproveitam muito o "todo" com poucos. Como não viajar em um tempo habitado por sussurros, corujas, orgias e muito mais muito mistério.

Como gosto de vagar pelas ruas nesses momentos do dia, seja sozinho ou acompanhado. Tudo é diferente, e ganha uma áurea de sonho, afinal biologicamente falando esse seria nosso horário natural de sono. Esse mistura sonho, sono e madrugada já me causou muitas confusões de memórias do tipo "isso aconteceu ou era sonho". Acho que todo mundo já passou por isso.

Por causa da madrugada comecei a gostar mais do Álvares de Azevedo. Antes achava meio estranho o byronismo e demais características que permeiam esse escritor e demais românticos de segunda geração. Então, li então "Noite na Taberna", onde várias de suas historias são notívagas e soturnas, e vi que ele era interessante.

Aprendi a aproveitar a plenitude da madrugada há 4 anos, já cheguei ao ponto muitas vezes de viver em outro fuso. Só dormia após o sol nascer, quando todos os fantasmas vão embora. Fantasmas esses que sempre me amendrotaram por anos. Hoje, ainda tenho medo deles, mas eles não me fazem dormir mais cedo. Acho até que ficando acordado, os mantenho distantes.

Nada mais lindo que o silêncio da madruga quebrado pelo vento batendo nas folhas das árvores. Quando no lugar das folhas, ele bate nos nossos rostos também é revigorante. Seis horas mágicas que até mesmo quando não vividas de olhos abertos são proveitosas, pois não é bom acordar depois de um bom sonho ou saber que tudo não foi um pesadelo? Melhor, só dormir depois de tê-los vivido.


por EU MESMO 4:13 AM
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[Terça-feira, Julho 20, 2004]

MAIS CARNE (TUFÃO À NORDESTE)

O calendário já estava a ser riscado, o dia era quase outro. Sentado em um banco fiquei a observar o transito, dois faróis me iluminaram, uma porta se abriu e com ela um sorriso interno de quem finalmente ganhou uma das muitas apostas feitas. A trivialidade se portou de maneira educada, a dissimulação preferiu seguir viagem e a intenção está ávida em entrar na jogada.

Era o sexto dia da semana, o quarto da viagem e o terceiro da frustração. Por mais que tivesse ventado em uma das noites anteriores, não era o suficiente para mover um parque eólico. Um pouco de chuva era o toque árcade à situação, para mudar isso só um pouco de carne. Para os cata-ventos girarem só um vento muito forte, mas então veio um tufão.

Resolvi ir ao shopping, pois pela hora lá seria o único lugar que poderia vender carne. Lá deveria fazer um pedido, uma espécie de reserva e comprar um ticket para o chamado "Jogo da Carne". O jogo funcionava da seguinte forma: depois de pagar R$ 3 pelo ticket, você deveria vendar os olhos e tentar escolher um pedaço de carne. Vendei meus olhos e disse: "Quero filet mignon!", uma espécie de roleta começou a girar e em alguns segundos uma mensagem apareceu: "Seu pedido será entregue meia-noite".

Pensei: "tudo bem, dá para esperar". Continue jogando para passar o tempo. Derrepente uma nova mensagem surge: "Es um bom jogador, terá seu pedido adiantado e ganhará um bônus surpresa". Abandonei as outras apostas e fui comprar os temperos para fazer a carne. Alguns quiseram me impor um jejum, que foi recusado. O relógio anunciava a refeição, tinha que ir pegar a minha encomenda.

Quando a porta se abriu, senti uma rajada de ventos na minha cara, oriunda que lindo pacote. Nem parecia que era carne, estava mais para um presente ou se preferir uma dádiva. Qual seria o bônus? Entrei na primeira cozinha e desembrulhei o pacote. Não podia acreditar, além de me mandarem o melhor filet mignon da minha vida, recebi um bom corte de músculo e uma conta que dizia: "É por cortesia da casa. Free, like you!"


por EU MESMO 4:46 PM
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[Quarta-feira, Julho 14, 2004]

A FASE DA CARNE (VENTOS DE FORTALEZA)

Sempre soube da fama dos ventos que agiam na capital do Ceará. Tinha noção que eles me serião utéis. Mas quando aqui cheguei, eles não estavam aqui... Resolvi dormir... Acordei, com a intenção de sentir o vento e se ele não agisse, pediria que as pessoas então me assoprassem. O vento surgir com força, mas quis não dispensei os assopros alheios.

Não poderia ignorá-los, afinal essa é Fase da Carne. Tudo em nome da Antropofagia, do Lúdico e da Balburdia. A fome bateu: precisava de carne, liguei atrás de informações "Alô, onde tem um açougue?" Agora, era uma rua. Mais uma vez subi uma escada. E dessa vez ouvi uma música hipnotizante, vozes me chamavam sem saber meu nome e atendi a cada um desses.

Não era um açougue, era uma boutique de carnes. Todas estavam a venda, e se você quisesse vinham com acompanhamentos. Como deixei de ser vegetariano radicalmente, quis apenas carnes. Quis todos os cortes, sem escolher muito. Vários tipos de molhos, vários tipos de sabores e uma só bebida: sangue!


por EU MESMO 4:27 PM
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[Terça-feira, Julho 06, 2004]

INTRODUÇÃO A FASE DA CARNE

___________________ "Tell me, tell me/is life just a playground"
______________________________Good luck, Basement Jaxx


Subi as escadas normalmente. Lá dentro um barulho de televisão. Quem será que a assiste? Entrei pela porta, e eis que do chão surge um olhar de surpresa e uma alegria malévola e devastadora que dizia "te vejo por de trás da máscara, há há há". Era como se internamente uma gargalhada medieval quisesse sair, mas fora presa para manter as aparências. Do chão poderia ser destruído facilmente por aquele olhar, mas a frieza congelou minha alma e a minha face justamente no momento que sarcasticamente ri. Assim começou a Fase da Carne, na prática.

Não daria para mostrar indiferença com a situação, seria o mesmo que dar atestado de medo. Não poderia me constranger com aquele olhar, se assim fizesse me colocaria na palma da mão de quem jamais assim deveria me ter. Sentei me no sofá da mesma forma que alguém senta em uma churrascaria,mas senti um cheiro de tempero para um macarrão. Minha fase vegetariana já estava encerrada, e em seu lugar consumiria agora apenas carne, muita carne. Eis que a vida seria um rodízio, como sempre foste.

Olhei a televisão, para poder ignorar as imagens. Sentado continuei, dali só levantaria para ter a sensação de empanzinamento e depois ir embora. E como quem sofre de bulimia, enfiaria o dedo em minha garganta para expurgar tudo que fora consumido, para dar lugar ao que estaria por vir. Dependendo da situação vomitaria logo após mesmo, em cima do resto de carne, para lembrá-la de como a vida é assim, por si só...

Levantei-me de um enfadonho dia para degustar files e picanhas que me foram oferecidas por você, se aqui estou é porque isso, quero!!! Não me venha com atrasos e nem mudanças no menu! Se não me der a carne prometida, de forma antropofágica, comer-te-ei vivo mesmo! E assim exigi, berrando com a voz de monge tibetano afônico, o que tanto queria. Salve alva carne branca que me fez esquecer do verde dos versos e me apresentou o rubro vermelho da carne que sangra por dentro e por fora.

Enchi. Esse era o momento que deveria ir embora, mas temia ter que me deparar com o malévolo olhar da alegria que profundia do chão. Depois de tudo, temia que minha gula fosse de mim usurpada e distribuída aos porcos. Esse pensamento receoso durou exatos 18 segundos. No lugar dele, o peculiar glacial sentimento de esnobismo carnívoro que grita: se entrar no caminho será abatida como qualquer outra caça, porém será banquete para caquéticos abutres.


por EU MESMO 12:34 AM
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[Terça-feira, Junho 29, 2004]



JUNINA

Fogueiras incandescem pelas ruas. Santos se elevam pela massa. Fogos deixam o ostracismo da noite de lado. Em uma casa no topo de uma colina, o vazio se faz presente. Corações esfriam, velas permeiam a escuridão e os santos com eles juntos choram. Todos agora lembram que noite pode ter mais de 12 horas, ela pode ser eterna por dias e meses. E assim, durante esse tempo vocês terão que conviver em um pesadelo sem saber quando e se ele pode terminar.

Placebos serão distribuídos para que uma falsa alegria irradie sua cabeça. Mas logo sua verdade será imposta. O sol ainda pode demorar um pouco, mas nas ruas apenas cinzas e nos altares só gesso, madeira e louça. Sem remédio, sem drogas ou quaisquer outras fugas de realidade, a solução é a auto-antropofagia do grupo: cada um terá que devorar o outro em um ciclo contínuo como forma de proteção. Cada um deverá matar o outro para que o mesmo possa ser eterno.

Agora um vive dentro dos outros e de si mesmo. Em seus respectivos estômagos alheios, germinarão novamente. Assim novas árvores vão crescer, mais madeira, mais lenha, logo novas fogueiras. Incandescentes fogueiras queimam pelo interior e fundem quem as abriga. Juntos todos se derretem e viram uma única massa viva. O primeiro raio solar risca o céu negro e essa massa começa a tomar forma. Quando a estrela-mor se torna onipresente o inverso acontece: o uno se triplica.

Essas três partes de um se abraçam, se olham e são separadas. E pela segunda vez o cordão umbilical será cortado, mais uma vez o choro habitará o silêncio, porém o colostro não será novamente ofertado. Mas agora vocês também terão o leite que deve ser dado a quem poderá lhes retribuir. Para isso, fagocitoses forçadas entram em ação quando os santos descansam. A auto-antropofagia se reverterá e da dor surge o verdadeiro sarcófago: a memória.




por EU MESMO 3:10 PM
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[Quarta-feira, Junho 23, 2004]



QUANDO TUDO RESOLVE ACONTECER

Muitas vezes reclamamos da pasmaceira que torna a nossa vida, do tédio que pode ser viver em um dia de chuva forte ou de uma noite sem programa legal. Mal sabemos que pior que estar pode ficar e que depois que assim acontece, lamentamos nostalgicamente duas vezes: pelo acontecido e por antes.

Infelizmente, nesses momentos não há nada a dizer, escrever, pensar. Temos apenas que sentir por nós e como uma esponja de energia pelos outros. Alguns princípios acabam sendo abandonados e mal-tratados como a vida faz com a gente. Abstrair? Não dessa vez, pois temos que ser totalmente concretos.

Quando tudo resolve acontecer, descobrimos que estamos em uma posição privilegiada de sobriedade e de tangencia. Somos despedaçados com magma por dentro, mas por fora nossa glacial aparência iceberguiana é mantida. Dessa antítese surge uma rocha vulcânica chamada amizade.


por EU MESMO 8:19 PM
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[Segunda-feira, Junho 14, 2004]

AS DATAS (E O SADISMO EM SI)

Há alguns meses atrás comprei uma garrafa de champanhe. Não era um Möet Chadon, mas também não era uma sidra Cereser. Há um tempo atrás olhava o calendário de forma diferente como se pudesse haver novidades no cotidiano igualmente melancólico dos dias. Esperava passar cada uma dessas datas de forma única e de maneira inédita. Não tinham me avisado que as datas foram feitas para causar sofrimento.

Todas as datas comemorativas partem do princípio sado-masoquista: é preciso haver (sentir ou causar) dor para se chegar ao prazer. Cada mês teria pelo menos um dia para essa celebração. Ou você achava que o dia das mães foi feito simplesmente para se consumir? Não, ele foi feito para lembrar aos órfãos maternos que eles não têm nada a comemorar (salvo a mulher que já manifestou o dom do parto).

A páscoa em sua origem capitalista serve para gargalhar da cara dos diabéticos que devem se contentar com intragáveis chocolates dietéticos, da cara dos alérgicos a derivados de leite, da cara dos obesos, da cara dos que têm problemas intestinais e da cara da Nestlé que não vai poder lucrar muito com a Garoto. E sem esquecer dos judeus que viram sua tradicional data transformada em festival diarréia.

Que tal a data 12 de junho? Sim, data em voga desse mês também merece ser analisada. Já conheci pessoas que para não ficarem deprimidas nessa ocasião arranjam custe o que custar um presente, ou melhor um namorado. Ou para economizar, fazem o contrário. Não existe outro motivo no chamado Dia dos namorados que não seja de lembrar que você está encalhado ou falido.

Não vou ficar transcorrendo sobre cada uma das infinitas datas "comemorativas" para provar como as mesmas são cruéis. Seria um chamado às câimbras das falanges. É melhor parar pela mais cruel e sádica de todas as datas: o aniversário. Ela é a mais esperta de todas, pois é um verdadeiro camaleão de emoções. Primeiro, vem a cor da alegria de mais um aniversário, de mais um presente, de mais uma festa. Isso se fizer parte do clã burguês,caso contrário a cor é outra: (em) branco ou pálido.

O aniversário se pinta de tons de alegria, de felicidade e afeto para que você possa esquecer que ganha uma sentença de morte junto com seu berro inicial (será que esse não seria o motivo inconsciente do choro dos recém-nascidos?). Eis que mais uma vez, a cor muda. Se antes era motivo de risos, agora é de reflexão, de nostalgia e recalque. "Será que cumpri minha missão? Qual legado deixarei a meus sucessores? Serei um dia lembrado?". Para dar uma esperança de resposta a última pergunta, criaram o Dia de Finados.

Sádico,masoquista ou outra denominação, coloquei a garrafa para gelar da mesma maneira. Resta saber quanto tempo a rolha levará para se arrancada. Uma hora, um dia ou um ano, não vem muito ao caso e nem desperta muito a minha curiosidade.não tenho do dom da vidência. A dúvida que tenho é a seguinte: terei mudado meus hábitos até lá? Pois, até onde sei não comemoro nada com álcool no sangue. Melhor plantar também uma roseira.



por EU MESMO 6:27 PM
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[Sábado, Junho 05, 2004]



Nem verão, nem inverno
Não é amor, não é paixão
Seria amizade ou o nada em escala?


..........................................................03/06 16:33:37

por EU MESMO 8:11 PM
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[Terça-feira, Junho 01, 2004]

O DIA

O dia amanheceu cinza, mas com indicativos fortes de que seria ensolarado. Fazia um pouco de frio, mas sabia que depois de um tempo faria calor. Enfim, era um dia não tão bonito, mas possivelmente belo. Para ele (o dia), vesti minha melhor roupa, meu melhor estilo, minhas melhores intenções. Para esse dia, planejei várias formas de ser ainda mais o que sou com (e por) você.

O sol logo apareceu, as nuvens serviam apenas de artefatos decorativos, e a luz se vez presente,obrigando a aceitá-la em plenitude. Tudo parecia tão pitoresco, tudo parecia tão urbanamente bucólico. Como se fosse a primeira vez que cada coisa ali estivesse e a minha existência também fosse recente. Esse era apenas o início de um dia com tudo para ser no mínimo agradável.

Como uma dona de casa que planeja o almoço para a família, parei para por em prática as minhas receitas dia. Sim, também faria um almoço ou dependo do horário um jantar. Comprei todos os temperos com antecedência, escolhi a porcelana e resolvi que não usaria a prataria (deixe para outras oportunidades). Uma sobremesa seria preparada para dar um toque diferencial ao nada demais.

Mas ainda estava sem a carne. Já tinha ido ao açougue,a escolhido e pagado. Só faltava levar para casa. O único problema é que ela ainda não havia sido abatida, teria que a abater. Como fazer isso? Nunca tinha comprado nada assim, ou estava congelado ou estava pronto, mas nunca a ser abatido e ainda mais por mim mesmo. Não poderia levar dessa forma e ela assim também não viria comigo.

Agora, teria que convencer a carne a vir comigo e aprender a abatê-la. Como o dia estava tão radiante, achei que seria capaz das duas coisas. Pela estrada afora fui bem sozinho ao açougue. O atendimento foi normal, o que significa atencioso. E assim fui informado que já tinham levando a minha peça de carne viva mesmo, sem a intenção de consumi-la e por uma oferta maior.

O dia continuou ensolado com indicativos de cinza. A noite seria completamente fria, sem lua e sem estrela. E a fome continuaria a me fazer companhia. Como uma dona de casa que preparou um almoço para ninguém, me senti (me sinto) e espero não mais sentir.




por EU MESMO 11:30 AM
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[Terça-feira, Maio 25, 2004]



AS HORAS (A AGONIA CRONÔMETRADA)

Você se levanta e um mundo te espera, mas você só espera por um minuto. Sua manhã nublada torna-se cenário para sua ansiedade excessiva. Os óculos escuros escondem olheiras de uma noite não dormida, ácidos jorram em seu estomago para lembrar-lhe de sua má alimentação, a manteiga de cacau disfarça as rachaduras de uma boca não beijada.

Os ponteiros se perseguem e contam cada segundo de sua agonia matinal. Você receia que a mesma se torne vespertina e torce para que jamais se torne soturna. Cigarros, por que não os faz uso? Pelo menos daria um esfumaçado charme a seu tormento, que lhe faz tanto mal quanto a nicotina e o alcatrão.

Seu telefone não toca, seu e-mail permanece vazio, a cibernética não o ajuda. Seus dedos ganham vida própria e relatam a sua verdade. De sua janela vê as nuvens encobrindo o sol e o tempo cinza passa a ser seu estado de espírito, o estado da dúvida. Já que pode fazer ensolarar ou chover de repente.

Te obrigam a sair de seu claustro, as paredes de sua sala dão lugar a desproteção da rua. O vento corta sua face e te lembra que ele poderá se único a tocá-la hoje. Você vê duas crianças correndo na rua, uma despida e a outra desordenada e elas passam a ser a antropomorfização dos seus sentimentos: um coração nu e uma mente embaraçada.

A volta para casa é tão rápida quanto a saída. E a situação continua mesma como se fosse na permanência. Você já tem ciência de que pode não estar só nesse ritual, você já sabe o motivo de toda a agonia. Não é ansiedade por uma mensagem e sim o medo do teor dela. Afinal, você sabe que o relógio pode trazer a verdade indesejada.




por EU MESMO 1:11 AM
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[Sábado, Maio 22, 2004]

RESUMO DA ÓPERA

Eis que tudo se misturou. Como se a linha imaginária, que separava uns dos outros, tivesse desaparecido. Agora, todos nós fazíamos parte de uma só história, de um só conto, de uma só vida. Mais do que nunca me senti dentro da "Esfera dos Intocáveis", pois estava vivendo mais do que nunca todos os meus textos de uma só vez como se eles fossem um.

Seria extremamente glacial não me sentir assim na situação em que me encontrava. Sentado em uma mesa de bar (tomando uma limonada, muito doce) com três desconhecidos, com a samambaia que cultivo... Surreal, metalingüísticos demais? Não acabei ainda! Olhei para o lado e a vi: a minha alma gêmea que insisto ignorar. Olhei para frente e li vi um letreiro de uma loja, cujo nome era ESFERA!!!

Antes que alguém pense que é mais um devaneio ou uso de metáforas em excesso, digo escrever de forma mais nítida o que realmente aconteceu (A única semi-metáfora é a samambaia!Que já não é mais um broto). O fato de estar ali foi um acaso pensado, não por mim...Mas, nunca poderia acreditar que estaria diante dos meus últimos textos de maneira tão presencial e com uma placa escrita "esfera".

Inclusive, encontrei pessoas como aquelas que um dia empataram minha tarde. Só que hoje elas atrapalharam minha noite, e dessa vez não fiquei muito entediado. Até porque estava tão viajante no meu pensamento "como vou escrever o que está acontecendo agora?" que nem me incomodei com a overdose de palavras, reclamações e analises amorosas que estavam sendo feitas. Na verdade, foi o meu silêncio inesperado e contínuo que incomodou.

Jamais poderia imaginar que a noite pudesse ter sido de maneira tão inesperada: muito tarantino, um vegetal, uma quase Daniela jazz sex session, uma alma penada gêmea e para terminar volto para casa em um ônibus que se alto intitula "Bacural" (pensei que fosse uma alcunha popular e não um nome oficial), pois nessa de ficar ouvindo e analisando a vida, esqueci de que não moro no caminho de ninguém.


por EU MESMO 8:11 PM
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[Sexta-feira, Maio 21, 2004]



DOS OLHOS

Olhos, ditos janelas da alma
serão subversivos por natureza
Os seus,sempre voltados para Ottawa
são janelas fechadas em perversa pureza

Pervesão por me deslocar
Pureza por não me deixar sair
Olho para você e não sei o que vejo
Veja a mim, enquanto vidro em você

Tens tudo de mim até não eu ter nada
Acho que sabe disso,já que sua alma está trancada
Restando para mim as frestas

E delas vejo uma parte sua
E nelas fico com a dúvida:
Se você também olha para mim?

...........................................................21/05 04:51 am



por EU MESMO 5:23 AM
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[Segunda-feira, Maio 17, 2004]

A MONA LISA TAMBÉM SE CANSA (FINGI NA HORA RIR)

"A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre." - Oscar Wilde

Acho que não nasci para ser simpático, ou pelo menos falso simpático. Sou muito impaciente para isso. Mas, há exceções e aí em abro largos sorrisos amarelos para agradar gregos, turcos e islandeses. Numa dessas muitas tarde da vida, foi assim. Talvez contagiado com alegrias de noites anteriores, resolvi ser tolerante às piadas sem graças, histórias sem propósitos, pessoas sem sal...

Não que me ache "o" interessante, mas sei quando estou enchendo (será mesmo que sei?). Nem todo mundo tem essa percepção ou nem sempre a usamos. A verdade é que tem hora que todo mundo parece ser um saco, pois estamos em outra dimensão. A culpa nem sempre é das outras pessoas, nós (os incomodados) é que deveríamos ser punidos por assim se sentir.

Não me sinto mal em fingir rir porque penso nas recepcionistas que devem ser felizes, alegres e simpáticas sempre. E na coitada da Mona Lisa que está rindo durante séculos. Mas ela também se cansou, tanto que vai ser restaurada. Mesmo com o Louvre tentando evitar ao máximo isso, mas ela está exausta. Tem câimbras freqüentes na face, e não deixa as outras obras sossegadas com o seu mau humor, quando o museu fecha as portas.

Aceito passar meu tempo ouvindo todas essa baboseiras, desde que elas não interfiram nos meus planos. Desde que elas não atrasem "a minha tarde". E nesse dia, elas me seguraram por muito tempo onde não queria ficar. Estava a ponto de gritar "que entediante", mas fingi na hora rir. Foi melhor assim, vou deixar a rabugice para daqui um tempo.


por EU MESMO 1:41 AM
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[Sábado, Maio 15, 2004]



Esfriou muito lá fora
Os pêlos se levantam
Mas aqui dentro queima

...........................................................10/05/04 23:36

por EU MESMO 5:19 AM
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[Quinta-feira, Maio 13, 2004]

ALMA LEOA (O REENCONTRO)

A circunstância era outra, a ocasião: a mesma. Apesar de ter se passando mais de doze meses estávamos novamente na mesma situação. Só que dessa vez sabia que do outro lado da ponte estava minha alma gêmea. Mas ela não sabia que a enfrentava. Ela esqueceu os doze meses, ela me esqueceu. Era agora uma novidade como outra qualquer.

Pela primeira vez comemorei o esquecimento, pois se ela não se lembrava de mim é porque não sentiu o abandono. Mas por outro lado, nada signifiquei. Não se pode lembrar do que nunca foi esquecido. Reencontrei minha alma gêmea, ela não lembrava de mim. Antes que pense que agora a quero, aviso que continuo renegando-a.

Eis que o passado voltou ao seu sarcófago. Se não éramos mais as duas pessoas de um ano atrás, logo não poderíamos agir como se assim fossemos. A situação era a mesma, mas em momento diferente. Na verdade "momentos", pois cada um vivia o seu. Diferentes, mas como o mesmo objetivo final. Seria cômodo para mim, escolher que seguíssemos juntos ao final. Porém,sou avesso ao comodismo.

Seria tranqüilo seguir desse ponto. Tudo seria mais fácil se quisesse permanecer no meu discurso morto há um ano. Só que tenho medo dos cadáveres. Prefiro uma horrenda forma decadente viva ao um belo cadáver. Digo isso porque tenho absoluta certeza de que por mais hipócrita que fosse, o meu discurso era belíssimo.

Pela segunda vez não quis seguir com a minha alma gêmea. O motivo dessa vez era diferente, antes não a quis porque queria carne e as idéias. Uma deveria estar desassociada da outra. Claro que as tais idéias deveriam se sobressair a tal carne. Minha cara metade não é um filet mignon, mas também não chega a ser uma carcaça. O motivo é: deixei de ser carnívoro, agora só quero vegetal.





por EU MESMO 12:45 AM
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[Quarta-feira, Maio 12, 2004]



A Lua Iluminada, astro mor
Capaz de determinar nossos sentimentos
E ebulir o que nos há por dentro


...........................................................07/05/04 23:51

por EU MESMO 12:57 AM
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[Segunda-feira, Maio 10, 2004]

ALMA LEOA (O ENCONTRO)

Há um ano encontrei minha alma gêmea. Jamais tinha encontrado alguém que tivesse tanta afinidade comigo. Era impressionante: tínhamos os mesmos gostos, as mesmas referências cinematográficas, éramos tão temperamentais como todos leoninos, sim nós tínhamos o mesmo signo. Era impressionante, parecia uma conversa com o espelho, mas nem por isso previsível. Um espelho que não refletia, mas que também emanava. Enfim, tinha encontrado a minha outra parte que teria sido separada de mim por castigo dos deuses, mas não a quis...

Parece loucura, mas dispensei minha alma gêmea. Uma contradição total, como a vida cotidiana. Acabou-se a farsa de querer as idéias, todos nós queremos a carne também. E foi por isso que não quis minha alma gêmea, ela não era meu corpo gêmeo. A fantasia e a idealização deixaram de existir,e junto, a hipocrisia de dizer que o corpo não fazia diferença. Achei a cara metade, só que a ignorei...

Não foi fácil, afinal alguns conceitos despencaram. E foi de maneira folhetinesca, com direito a trilha sonora (Stáralfur, do Sigur Rós, justamente na parte dos fogos ou tiros. Depende do ouvindo), uma verdadeira sincronia. Engraçado que sempre tentamos trilhar musicalmente nossa vida, nem que seja em pensamento. A minha foi trilhada quando não queria que fosse. A música tocava, o (meu) pensamento "não te quero mais" e do outro lado "nossa, que música linda!".

Os fogos terminaram, a verdade foi exposta e para trás ficaram fantasias. Ficou a melancolia e a tristeza típicas daqueles que são desmascarados, desmentidos e desacreditados. Escolhi sofrer à adaptação. Preferi esperar à ter paciência. Que nada, fui enganado, iludido, distraído. Fui levado a pensar que o jogo era controlado por mim, "the game we're playing is life". Tinha agora, a certeza de que não era o jogador, pois o verdadeiro resolveu reiniciar o game.Um ano depois, reencontro minha alma gêmea. Novamente estamos ligados, na mesma situação e em outra época. Seria a última fase ou the game over?



por EU MESMO 12:20 AM
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